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A Quinta do Visconde e a apanha de passas no fim do Verão

Entre os meus 13 e 15 anos, como muitos rapazes dos bairros de S. Domingos, Sto. António e Lapas, fui aceite no rancho reunido para fazer a campanha de apanha de figos que todos os anos se reunia na quinta do Visconde de S. Gião, em Torres Novas na apanha de passas de figo nas propriedades do Samão, Bica, Chãs, Cabeça Alta e casal da Fidalga. O preço acordado era o pagamento de cinco escudos por cesta (daquelas de verga entrelaçada), muito embora, sendo feitas artesanalmente, tivessem tamanhos diferentes…

A partir de finais de agosto, todos os dias por volta das 08h00 da manhã nos reuníamos na quinta junto da casa do feitor, o Sr. Baptista que era homem com expressão alentejana a falar gerúndio, leal ao Dr. Visconde e orientava os trabalhos. Entretanto vinham o tratorista Zé Caixinha e o Zé Galrrinha, capataz da quinta que muitas vezes trazia a carroça puxada por um forte e bravo macho. Então, depois de cada um já ter pegado na cesta que lhe calhava naquele dia (era uma disputa para encontrar a melhor cesta, a mais pequena que houvesse!) lá partíamos para uma das propriedades. As figueiras com os terreiros feitos (chão debaixo da árvore a que previamente se raspavam as ervas), enchiam-se de figos secos que iam caindo dos ramos; divididos em grupos de 2, 3 e 4, consoante o tamanho de cada árvore. E agachados, lá íamos apanhando os figos o mais rápido que podíamos, para apresentarmos ao feitor cada cesta, no mínimo rasa, que ele apontava numa folha de produção diária, com o nome de cada um. Uma boa conta era ter 30 em cada dia, mas haviam figueirais piores e melhores, como na Bica, onde em dias de sorte se apanhavam até 50 cestas.

A manhã corria sempre melhor, e o reboque do trator ia-se enchendo. Até que chegava o almoço, com a merenda que cada um trazia no saco de farnel: procurava-se uma sombra, aparecia um cântaro de água fresca cheio numa fonte próxima, e havia uns melões pequeninos e doces que cada um comia só, ou partilhando com o colega mais amigo; depois uma pequena sesta, ou umas anedotas…, para logo depois se ouvir o feitor a indicar a retoma do trabalho.

Por vezes com o calor a apertar e sede, perdíamos o entusiasmo e deixávamos correr o dia sem interesse. Depois haviam figueiras dispersas e com poucos figos que tinham de ser apanhadas, condição sem a qual o feitor não nos deixava avançar. Nós que recebíamos consoante a produção, deixávamos par trás algumas pontas… ao que o Baptista reclamava: Ó rapaz, olha lá esse “cometa” apanha tudo! Mas se a resistência era muita e alguém se deixava ficar para trás no rancho, lá vinha de fundo a voz do Baptista, meio austera, meio paternal: “Estás com uma cobra! Que grande cobra se agarrou ao teu pescoço, ó malvado!”

Mas havia dias que eram um gozo e o Baptista tinha de se render: uma vez nas Chãs um rapazola teve a distinta desfaçatez de contar um a um os figos que a sua cesta levou até ficar cheia… e nesse dia não passou de 12 cestas!

Outra vez na Cabeça Alta, nós que podendo punhamos mais palha nos figos para encher mais e agitávamos a cesta para os figos não se acamarem e irmos despejar e contar mais uma…, fomos surpreendidos por um dos rapazes, que por ser mais desprotegido ficava quase sempre com a cesta maior e mais pesada: apresentou-se ao feitor com a cesta dos figos de coruta acima. E exclamou: “Baptista: ponha lá mais uma para o Vitor Manuel!” Nós acabávamos por ter pena e dizíamos que não fosse parvo e colocasse menos figos. Mas ele respondia: “não! é assim que é bom, porque logo se enche o reboque e vamo-nos embora mais depressa!”

Era uma paródia e a semana lá passava; Por vezes cantava-se, outras vezes não tinha piada nenhuma, sobretudo se chovia, pois no dia seguinte os figos já fermentavam, e enterravam-se na terra, sendo mais difíceis de apanhar. Até que chegava o sábado e trabalhávamos só de manhã. E por volta do almoço o Dr. Visconde ia no seu boca de sapo ou Ford vermelho buscar o Sr. Figueiredo. Este homem já de alguma idade, com os seus óculos arredondados e jeito de contabilista, era quem fazia as contas de cada um e pagava: 300 escudos para uns, 420 escudos para outros… outras contas bicudas em função da unidades apanhadas, até que alguém recebia uma nota de “meio quilo”: 500 escudos, vista como uma medalha de mérito, que era o sonho de todos!

Paulo Lopes dos Santos

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