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A Proclamação da República em Torres Novas (2)

Continuemos, nesta segunda parte do artigo, com o histórico testemunho do Dr. António Pinto de Magalhães, sobre o dealbar da República em Torres Novas:

“Da assembleia geral fui eu o presidente. Na Direcção estiveram, entre outros, os Drs. Santos Moita e José Dantas de Sousa Baracho. O Centro deu o maior impulso à propaganda.

Deu-lhe, pelo menos, unidade e organização. Tanta, que, quando chegámos a Outubro de 1910, na sua maior parte, nas localidades, mesmo nas freguesias mais pequenas, achavam-se já constituídas as comissões políticas do Partido Republicano [no jornal torrejano “Alerta”, de José Luiz dos Santos Moita, encontramos os nomes dos republicanos que compõem as listas das várias freguesias do concelho].

A comissão municipal era, então, formada pelo Dr. Santos Moita, que presidia e pelos Srs. Dr. José de Sousa Baracho, António Mendes, José Alves Coelho e José Augusto Mota.

Os republicanos de Torres Novas podem até orgulhar-se de terem tido a iniciativa de realizarem um congresso distrital republicano.

Congresso que chegou a realizar-se nesta vila, em Junho de 1910, tendo discutido assuntos de alta importância no sentido de tornar mais segura e mais rápida a vitória da causa que todos nos batíamos. Foi esse Congresso extraordinário concorrido e a ele assistiram os republicanos mais categorizados do distrito 1910 e até do país [no dia 29, com a presença de cerca de 300 congressistas], tendo também estado presente o secretário do Directório, que então era o Dr. Eusébio Leão.

Foi este o único congresso republicano distrital, que me parece se realizou no país, antes de proclamada a República. E quantos sacrifícios, quantas dificuldades foi preciso vencer para se conseguir que ele obtivesse o triunfo e o brilhantismo que obteve.

*

Pouco depois, eclodia, em Lisboa, a gloriosa revolução que, para sempre, pôs termo, em Portugal, ao reinado dos Braganças.

Lembro-me como se fosse hoje. No dia 5 de Outubro de 1910, pouco depois das dezassete horas e meia, chegaram de Lisboa dois telegramas. Um do Dr. Eusébio Leão, governador civil de Lisboa [ele e Inocêncio Camacho acompanharam José Relvas que, na varanda dos paços do concelho, em Lisboa, proclamou a República] dirigido ao administrador deste concelho. Dava-lhe conhecimento da proclamação do novo regime. Convidando-o a tornar pública essa proclamação e bem assim a investir as comissões políticas do Partido Republicano na gerência dos corpos administrativos.

O outro telegrama vinha endereçado ao coronel Ilharco, comandante da Escola Prática de Cavalaria desta vila [Torres Novas], e era subscrito pelo general Carvalhal, governador militar de Lisboa e nele se comunicava o triunfo total da revolução republicana.

Momentos depois toda a gente conhecia a boa nova e nas rus surgiam as primeiras manifestações populares.

O Dr. Santos Moita, ocupado em trabalhos revolucionários, fora da vila, não estava. Por isso, imediatamente o Dr. Sousa Baracho tomou a iniciativa de dar organização e direcção às manifestações que se produziram.

No Centro Republicano Guerra Junqueiro organizou-se a forte manifestação em que o povo, dando largas ao seu contentamento, percorreu todas as ruas, vitoriando delirantemente o novo regime.

Quiseram os manifestantes ter a gentileza de vir saudar-me a minha casa, onde me encontrava descansando, um pouco, das fadigas duma noite totalmente perdida, no Entroncamento.

Mas deu-me ânimo e coragem o entusiasmo daquela gente e lá fomos todos a caminho do palácio municipal.

A multidão não coube nas salas da Câmara, por isso se comprimia nas escadas e ruas fronteiras ao edifício.

O Dr. Sousa Baracho, dumas das varandas, anunciou, solenemente, a proclamação do novo regime e deu os vivas do estilo, freneticamente correspondidos por uma enorme multidão, que delirava de entusiasmo.

Ao mesmo tempo, o Dr. Pedro Maia tirou da parede, onde estava, por cima da cadeira presidencial, o retrato de D. Manuel [II], que fora o último rei de Portugal. Também eu tive de fazer uso da palavra. E com quanta satisfação.

Cumpri o meu dever de enaltecimento da obra dos grandes propagandistas da República, heróis e mártires que pelos seus feitos mereciam a gratidão e a admiração de todo o povo. Não esqueci os mortos e ali recordei. E na invocação dos nomes inolvidáveis dos caudilhos Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, envolvi todos os outros e a todos prestei o culto da nossa saudade e do nosso reconhecimento, por quanto fizeram a bem da Pátria, trabalhando pela República e pela Liberdade.

As minhas palavras encontraram forte eco na alma do povo, que mesmo naquela hora de festa e de vitória, que lhe dava a realização dos seus sonhos de liberdade e avivava a sua confiança num futuro mais pleno de justiça para todos, não esquecia os nomes dos que tombaram no campo das lutas pela redenção nacional.

Não acabaram aqui as manifestações.

Seguidamente, o cortejo tomou a direcção do antigo quartel da Escola Prática de Cavalaria onde o comandante acolheu carinhosamente o Dr. Sousa Baracho e os membros da Comissão Municipal do partido Republicano, recebendo-os festivamente na sala dos oficiais, enquanto em frente o povo não cessava de dar largas ao seu entusiasmo.

Ao comandante foi manifestado o desejo de que mandasse arvorar no quartel a bandeira verde-rubro da revolução.

Imediatamente acedeu e foram os próprios oficiais que a fizeram subir, no mastro do quartel, facto que deu motivo a que se repetissem as aclamações do povo.

*

Estava, enfim, também em Torres Novas, como em todo o país, proclamada a República, que fora o nosso sonho constante de muitos anos de lutas e sacrifícios.

Tudo era, porém, sobejamente compensado pela alegria que em vida pudemos experimentar, ao vermos realizado esse sonho. Isso nos bastava, isso me basta. Não quero concluir sem prestar a minha homenagem de admiração aos homens que com inexcedível zelo e grande dedicação ocuparam, pela primeira vez, no novo regime, os lugares da Câmara local, lugares preenchidos pela Comissão Municipal do Partido Republicano, a que já me referi, e pelos prestimosos cidadãos António Puga e António Florentino Namorado.

Na presidência esteve o Dr. Santos Moita e na vice-presidência Dr. Sousa Baracho. Souberam haver-se à altura das responsabilidades do momento, honrando e prestigiando, como era mister, o regime nascente” (“República”, nº 10.692, 4 de Outubro de 1960, págs. 12 e 20).

Foram estas as palavras de um dos mais importantes nomes da primeira República em Torres Novas. Num depoimento onde transparece uma enorme confiança pelo novo regime que ajudou a singrar.

Com a instauração do novo regime abria-se o caminho para a realização dos sonhos de liberdade e de justiça. Valores pelos quais lutaram uma geração de corajosos cidadãos. Onde figura, por mérito próprio, o nome do republicano torrejano, Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida.

Nota: Inexplicavelmente, na primeira parte do artigo, a referência bibliográfica à revista “Nova Augusta” saiu errada. Onde se lê: “ Nova Augusta – Edição Comemorativa dos 100 anos da República 1910-1920, 2016”; deve ler-se “ Nova Augusta- Edição Comemorativa dos 100 anos da República 1910-2010, 2010”. As nossas sinceras desculpas.

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