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Memorabilia XXXIII-1974(2)

Se em 25 de Abril de 1974, por um golpe militar revolucionário levado a efeito pelos Capitães de Abril, finda uma das mais antigas ditaduras fascistas da Europa, o caminho trilhado para esse acontecimento, mesmo sobre o controlo da Censura e da PIDE/DGS, durante os primeiros meses do ano, não deixava de, na imprensa portuguesa, surgirem informações que demonstravam uma cada vez maior instabilidade governamental. A guerra colonial entra numa fase muito complexa, com o crescer da guerrilha, quer, em especial, em Moçambique, quer na Guiné, sem que o governo consiga fazer-lhe frente.

É tal a situação que, a 21 de Janeiro, o Movimento dos Capitães publica um documento, exigindo que as Forças Armadas não fossem responsabilizadas pela política ultramarina do regime[1].

A 23 de Fevereiro, nova machadada na politica governamental, com a publicação, por António de Spínola[2], do livro Portugal e O Futuro, onde se defende uma solução política para as províncias ultramarinas, que não passa pela solução militar, que leva a à ameaça de demissão, por parte de Marcelo Caetano.

No início de Março, a 5, reunido em Cascais, o Movimento dos Capitães muda de nome, para Movimento das Forças Armadas, e torna público o seu programa, intitulado «O Movimento das Forças Armadas e A Nação», onde se defende uma solução política para as colónias portuguesas, que conduz a 11, a uma tomada de posição da Assembleia Nacional, apoiando a política ultramarina do governo marcelista. Tal posição é secundada militarmente, a 14, pelos oficiais generais dos três ramos das Forças Armadas, convocados para o efeito, que foram apresentar a Marcelo Caetano o seu apoio à política seguida pelo governo. Tal reunião, que ficou para a história satiricamente conhecida pela brigada do reumático. A tal reunião não compareceram o chefe e vice-chefe do estado Maior General das Forças Armadas, respectivamente Costa Gomes e Spínola, que foram, em consequência, demitidos dos respectivos cargos.

Os militares spinolistas do Movimento avançam, a 16, numa tentativa de golpe militar, a partir do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, que foi derrotada e os seus responsáveis presos, mas que não afectou a Comissão Coordenadora do MFA.

A 24, a Comissão Coordenadora do MFA toma a decisão de derrubar militarmente o governo, com a intervenção do exército, mantendo a Marinha e a Força Aérea o compromisso de não intervenção.

No campo civil, realiza-se a 29, 1º Encontro da Canção Portuguesa, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com a presença dos mais importantes, perseguidos e proibidos cantores, músicos e letritas da resistência, entre eles José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Carlos Paredes, Ary dos Santos.[3]

A 23 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho é designado para coordenar as operações militares.

A 25, Portugal, aos sons de E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho e de Grândola Vila Morena, de José Afonso, assistiu emocionado e participativo, à Revolução dos Cravos.[4]


[1] .História de Portugal, 8º vol, direcção de José Mattoso, Cronologia e Índices, referentes a 1974.

[2] Idem. Toma posse a 15 de Janeiro do cargo de Vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas.

[3] Os que marcaram mais a minha geração, com outros, que emigrados políticos, só regressaram depois da revolução, como José Mário Branco o poeta Manuel Alegre.

[4] Há hoje, um grande número de obras sobre estes acontecimentos históricos. Para uma visão geral, a História de Portugal, vol 8º.,coordenação de Jose Mattoso;o Portugal Contemporâneo, ´6º vol., direcção de António Reis.

Essenciais, porque com interpretações diferentes, Alvorada em Abril , de Otelo Saraiva de Carvalho,1977; Diniz de Almeida, Origem e Evolução do Movimento dos Capitães, Avelino Rodrigues , etc, O Movimento dos Capitães e 25 de Abril.1974; Eduardo Lourenço, Os Militares e o Poder, 1975.Para um mais profundo conhecimento histórico, pesquisem-se as bibliografias apontadas nos volumes de Mattoso e António Reis.

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