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Um Poema de Natal de Maria Lamas

A produção literária de Maria Lamas (1893-1983) não se restringiu, apenas, aos domínios do romance, do ensaio e dos contos infantis. A entrada da ilustre torrejana no mundo das letras acontece – como à maioria dos jovens fascinados pela escrita – através da poesia. Alguns dos seus primeiros trabalhos poéticos foram impressos no desaparecido jornal torrejano “O FÓCO”, com o pseudónimo de Madresilva. Onde a 31 de Outubro de 1914, publica no periódico um singelo poema dedicado à primeira filha, Maria Emília (“M. E.”). Um importante pseudónimo estranhamente ignorado no estudo biográfico sobre Maria Lamas, inserto na revista torrejana “Nova Augusta”, nº 25 de 2013.

Nesta investida inicial da ilustre conterrânea no campo da poesia à que juntar as produções da sua autoria assinadas com os nomes de Maria da Fonseca (em virtude de, na altura, estar casada com o tenente Ribeiro da Fonseca, seu primeiro marido) e Serrana d’Ayre.

Mas a maturidade poética da escritora torrejana surgiu aquando a publicação do seu primeiro livro “Humildes”, em 1923. Obra em que utilizou o seu mais conhecido pseudónimo – Rosa Silvestre. Nome que acompanhará durante muito tempo as múltiplas criações de Maria Lamas, espalhadas por mais de uma dezena de periódicos e revistas nacionais. Também com o pseudónimo Rosa Silvestre assinou alguns dos seus livros no domínio da literatura infantil e do romance. Nesta última vertente com as obras: “ Diferença de Raças”, publicada em 1923; “O Caminho Luminoso” (na lombada da primeira edição do livro consta a data de 1930, e não como verificámos em alguns textos biográficos, sobre a autora, 1927) e no ano de 1936 “O Relicário Perdido” (Maria Antónia Fiadeiro no seu ensaio sobre “Maria Lamas”, Quetzal, 2003, pág. 15, refere, apenas, dois romances com o citado pseudónimo. O segundo, “ A Ilha Verde” (1938), ao contrário do que a ensaísta afirma, já é sob o nome próprio da escritora torrejana).

Ao pseudónimo Rosa Silvestre devem-se algumas bonitas criações em prosa e em verso sobre o Natal. Já num artigo publicado no ano transacto, demos a conhecer, ao estimado leitor, dois contos natalícios da escritora torrejana, que foram impressos, simultaneamente, no mês de Dezembro de 1929, na revista “Civilização” (nº36) e no “Magazine Bertrand” (nº 18).

Para a actual época festiva reservamos um singelo poema de Maria Lamas alusivo à quadra natalícia. Publicado no “Almanach Bertrand”, referente ao ano de 1931. O poema foi escrito em 1926, e intitula-se “Natal”. As suas linhas exalam uma delicada candura, onde a figura Jesus surge revestida de uma enorme humildade e doce alegria. Arauto da paz, do amor e da redenção.

O conteúdo dos versos fala-nos sobre o nascimento do Deus Menino, destinado desde o seu berço ao sofrimento. Uma das grandes lições que Jesus, através do seu exemplo, transmitiu aos homens. Não nos esqueçamos que Ele deu a vida para a redenção da Humanidade:

NATAL

Natal! Natal! Enfim, Jesus nasceu!

Que pequenino e lindo! Vinde ver!

Tanta humildade faz estremecer;

Fez-se criança o próprio Rei do Céu!

Um novo dia, agora alvoreceu,

De harmonia, perdão e bem-querer!

Já chegam pastorinhos a correr,

E Herodes no seu trono, estremeceu!

A neve, silenciosa, vai caindo,

Enquanto os anjos cantam nas alturas.

Jesus treme de frio, já sentindo

Desta vida as primeiras amarguras.

E assim começa o Criador, sorrindo,

Ensinando a sofrer as criaturas!

1926 Rosa Silvestre”.

SILVESTRE, Rosa; “Natal” in “Almanach Bertand”- 1931, 32º ano, Aillaud e Bertrand, Lisboa, pág. 309.

Um Feliz Natal!

Texto escrito com a antiga grafia.

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