Ser Magnânimo

Uma das principais caraterísticas das sociedades atuais é a de que as pessoas se voltaram progressivamente para si, para o seu mundo interior: nas suas paixões, nas suas dificuldades e sonhos na compreensão do mundo e do seu benefício.

Na relação consigo e com os outros, acabamos por não ver o efeito das nossas ações sobre os semelhantes e nem sequer os achamos como nossos “próximos”, tão perdidos que estamos na conquista de espaço vital, na ânsia de nada nos faltar, na atitude defensiva de nos protegermos contra um mundo que nos surge agressivo, perigoso, do qual desconfiamos.

Cada pessoa – porque é um ser limitado, subjetivo, imperfeito… acaba por cometer no seu viver, imensos erros e imperfeições, que interferem e condicionam tudo o que toca – causa danos sucessivos, sem muitas vezes se aperceber. Seria um ato de lucidez, parar de vez em quando, olhar para trás, ver o caminho percorrido e o rasto deixado, perceber e tomar consciência das falhas e das consequências provocadas. Por vezes não temos essa capacidade e aí é muito útil a presença de um amigo, de alguém que nos quer bem, chamando a atenção para o erro, dando-nos a visão de outro ângulo.

Quem não sentiu já na pele a frustração de um próprio erro cometido e “ as lágrimas da vergonha e do sofrimento”? E quem não sentiu também depois do erro, a chamada de atenção vinda de fora que fere o seu orgulho? E quem não gostaria, sabendo que não vê tudo, de poder ter um reflexo fiel e honesto do efeito dos seus gestos nos outros?

Às vezes precisamos de duas intervenções: a primeira tem a ver com a possibilidade e o benefício de alguém que nos acolhe no meio da frustração e que pelo seu perdão nos “liberta” da consciência pesada, permitindo corrigir e recomeçar o percurso de vida; outras vezes, precisaríamos de sentir no outro a abertura e a generosidade para acolher os nossos fracassos anular a escravidão da soberba que nos inibe de reconhecer erros e pedir por eles perdão…

Quando penso, fico sem saber quem tem mais mérito: se quem reconhece que errou, ou se por ventura, quem perdoa o erro. Um não tem mérito sem o outro, mas os dois juntos saltam para a felicidade de perdoar e ser perdoado, de dar e receber de se realizarem mediante o outro… Isso só é possível com a compreensão do dom que cada um é para o outro, de não existir sem o outro. Relevando a nobreza do passo que faz a ponte entre quem erra e quem perdoa, deixando os erros com quem os comete… e a nobreza para quem a tem, numa responsabilidade reciproca, fraterna, devolvendo “o sorriso a quem sabe que é amado”.

Hoje o mundo e as pessoas que nele vivem, precisam de entender com clareza esta dinâmica de relacionamento humano, essencial à ecologia humana, sem a qual a Natureza não se completa. Disso mesmo fez luz o papa Francisco, ao instituir o Jubileu do Ano da Misericórdia, decorrido de 2015 a 2016 que terminou em novembro. Colocou em relevo o ensinamento e a tradição da doutrina cristã, jubilando na história humana a capacidade de regeneração das pessoas na sua vida pessoal e de relacionamento coletivo. Num tempo em que assistimos a uma espécie de dispersão de guerras persistentes e violências – que chegam às portas das cidades, que entram nelas e nas nossas casas, comprometem moral e fisicamente os nossos haveres e pessoas – é um sinal e uma demonstração inequívoca do caminho que devemos seguir para encontrar a paz.

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