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Memorabilia XXXII 1973/74 – 4

Em Outubro de 1971, no Projecto Educativo Veiga Simão, foi criado um programa, na Secretaria de Estado do Ministério da Educação, dedicado aos tempos livres da juventude . A criação dos Centros de Juventude, para ocupação dos jovens, estudantes ou integrados em organizações juvenis oficialmente autorizadas, era o reconhecimento governamental de que os objectivos da Mocidade Portuguesa, surgidos na década de trinta, cópia abastardada das juventudes hitlerianas e das juventudes fascistas de Mussolini, tinham feito seu tempo histórico. A substituição de Salazar por Marcelo Caetano, a abertura liberal que este prometia, obrigavam o governo a uma nova política de ocupação da juventude, sobretudo, estudantil, mais escolarizada, com a disseminação das escolas industriais e comerciais pelos concelhos mais importantes dos distritos. O seu programa assentava na iniciativa dos seus membros, vocacionado para actividades culturais e artísticas; participação de acções de assistência e serviço social; actividades de formação familiar; fomento de acções de prática desportiva e de ar livre; desenvolvimento de intercâmbio turístico.

Os centros eram criados pelo Secretariado para a Juventude a requerimento de um número mínimo de 15 jovens, sob proposta do director do estabelecimento de ensino, da autarquia local, ou doutra entidade pública cuja idoneidade seja reconhecida governamentalmente. Eram membros efectivos os jovens entre os 10 e os 20 anos, distribuídos por duas classes: uma, entre s 10 e a 12 anos, a segunda entre os 13 e s 20 anos. Podiam extraordinariamente, com autorização superior, aceitar-se a inscrição de indivíduos ate aos 25 anos.[1]

Em Torres Novas a figura politica responsabilizada pelos aspectos desportivos e associativos, era o vice-presidente da Câmara Municipal, João Tolda Martins, professor de Educação Física na Escola industrial e Comercial de Torres Novas. Responsável pela direcção das Piscinas Municipais, em funcionamento a partir de 24/9/1972[2] . A ele se deve a coordenação da instalação do Centro de juventude em Torres Novas, criado a seguir ao de Leiria, por despacho do Secretariado para a Juventude, a pedido de um abaixo-assinado por 800 jovens, tendo sido também homologada a sua Comissão Organizadora[3]

A 13 de Janeiro sai na imprensa a estrutura organizativa do Centro, dividida em várias secções 1ª . Cultural e Artística, cm os núcleos de Jornalismo e Informação, Teatro, Fotografia, Cinema, Biblioteca, Sala Estudo; Música e Orfeão, etc.; 2ª . Desportiva e Ar Livre, cm s núcleos de Espeleologia, Aeromodelismo, Andebol, Basquetebol, Râguebi, etc.;3ª – Assistência e serviço Social;4ª. Formação Familiar.;

5ª Intercâmbio e Turismo, com viagens de estudo, concursos, etc. Oferecia igualmente uma sede, na Praça 5 de Outubro, para os tempos livros dos associados, onde existia um bar, uma sala de convívio, jogos, televisão, música, uma sala de estudos e biblioteca.[4] A 21 de Janeiro apresenta-se, no Ginásio da Escola Industrial, a peça Os Anfitriões, de Luís de Camões, pelo Teatro Experimental de Cascais, a expensas da Secretaria de Estado da Educação e Cultura. [5]

A inauguração oficial realiza-se a 28 de Fevereiro, com a presença do Director do Secretariado para a Juventude, Dr. Castelo Branco, acompanhado pelo subdirector. Dr. Ivo Cruz, que serão, inicialmente, recebidos na Câmara pelo respectivo presidente, Sr. Fernando Cunha.[6]

Desconhece-se em pormenor a actividade do Centro de Juventude, que só os seus arquivos poderiam mostrar.[7] O que nos chegou, foi recolhido na imprensa local. Na parte informativa, para a imprensa, surgem-nos os nomes de António A. de Sousa, Manuel Ferreira, Cruz Semião, César Matos.[8] Na secção de Espeleologia, cerca de 40 jovens treinaram em Torres Novas, sob a orientação de Sá Pires, para a parte masculina, e de Fernando Bairrada para a Feminina, a feminina, com 10 jovens, tendo sido utilizado antigo «esqueleto» dos Bombeiros, na Avenida, atrás dos Correios.[9] No mesmo exemplar se noticia a existência dum acampamento em Castelo de Bode, entre 10 e 15 de Abril, como a dum torneio de xadrez, englobando 25 jovens, onde se distinguiam, António Leitão Alho, Simões Carreira Maia, João Saramago, Alves Vieira, António Simplício, Mário Rosa, Vítor Pinto. Indicam-se aberturas de inscrições para curso de mergulhador amador e futebol de salão. Em Abril a notícia de que vai surgir um novo grupo de teatro,[10]assim como informação de novas modalidades, como râguebi, arqueologia, ténis de mesa.[11]

Diversas outras actividades, arte infantil, festival internacional de folclore, apresentação da orquestra Gulbenkian[12], nos aparecem relatados, em 1973, nas páginas de O Almonda.

Interessa-nos em especial, o Grupo de Teatro Experimental do respectivo Centro, encenado pelo poeta António Lúcio Vieira, que se apresenta no Festival da Juventude, pela primeira vez, em público, a 8 de Junho, no Teatro Virgínia, com a peça O Auto do Físico, do autor torrejano seiscentista, Jerónimo Ribeiro[13].

Auto do Físico – 1973- Arq. A. Lúcio Vieira

Carlos Avilez convida o grupo a apresentar-se em Cascais.[14] A peça é, nesse ano, ainda apresentada, em 11 de Novembro, em Évora, no Teatro Garcia de Resende, [15]no auditório do Centro de Formação Profissional do Entroncamento[16] e a 15 de Dezembro, no ginásio da Escola Técnica de Torres Novas[17].

O Centro, como vimos, obedecendo a um objectivo político governamental, procurava competir e afastar da influência democrática do associativismo torrejano a juventude estudantil. Tempo perdido, já que muitos dos seus intervenientes não deixavam de ser influenciados pelas ideologias de esquerda reinantes, como se veria mais tarde, na sua adesão aos princípios do 25 de Abril, na formação das associações de estudantes, ou no seu ingresso nos diversos partidos e forças políticas surgidas com a revolução.

antoniomario45@gmail.com


[1] O Almonda nº2988,15/12/1973.Idem,nº 2943, 14/4/1973.

[2] Idem,2677, 1410/1972.

[3] Idem,, nº 2681,11/11/1972. Constituem-na Luís Filipe Duarte Pisco, Carlos Manuel Moura Marques da Silva, Maria Teresa Silva Carvalho, José Manuel Ferreira, e Maria Teresa Ferreiras Alves.

[4] Idem, nº 2891,13/1/1973.

[5] Idem,nº2891,,13/1/1973.

[6] Idem, nº 2896, 24/2/1973; nº2897,3/3/1973.

[7] Não se sabe onde se encontram, quem os recolheu.

[8] O Almonda nº 2898, 10/3/1973.

[9] Idem, nº2900,24/3/1973.

,[10] Idem, nº 2902, 7/4/1973.

[11] Idem, nº 2903,14/4/1973.

[12] Idem, nº 1915,7/7/1973

[13] Idem,,nº 2912,16/6/1973.

[14] Idem,nº1917,21/7/1973.

[15] Idem, nº2934, 17/11/1973.

[16] Programa da peça de teatro Antígona, do mesmo grupo, introdução, .

[17] O Almondanº293,8,22/12/1973.

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