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Idosos ou Velhos

Já numa crónica antiga, neste jornal, eu afirmei que “os velhos são crianças cheias de experiência” e só confirmo, mais uma vez, esta ideia.

Nos tempos que correm, com o problema demográfico a complicar-se, cada vez mais os idosos são, infelizmente, uma carga para a sociedade. Não percebemos a fonte de informações, a arte de saber fazer, a rica experiência de vida dessa grande classe de idosos. Só vemos neles consumidores de recursos e de problemas de saúde.

Nós, humanos, somos de facto um “bicho” especial: quando jovens pensamos ser os donos do mundo e os descobridores de soluções para todos os problemas. Os pais e os avós são os “cotas” cujos conselhos e avisos dispensamos.

É verdade que aos jovens compete viverem as suas vidas dentro dos cânones que a idade e a natureza lhes oferecem. Quem não se lembra do primeiro amor que nos fez viver num êxtase beatífico onde o paraíso parecia estar ao nosso alcance? Mas também quem não se lembra da tragédia que era quando o nosso amor nos atraiçoava, quando o paraíso se transformou em inferno e só nos apetecia morrer?

E neste último caso o colo da mãe ou da avó, do pai ou do avô nos sabiam tão bem e nos apaziguavam as nossas dores!

É que eles (os pais e os avós) já tinham passado por lá e a sua sabedoria de experiência feita nos colocava de novo no nosso caminho de esperanças e alegrias.

Não esqueçamos aquela canção francesa que diz: ”Plaisir d´amour ne dure q´un moment, chagrin d´amour dure toute la vie” (prazer d´amor só dura um momento, desgosto de amor dura toda a vida).

Parece não vir muito a propósito este meu excurso, mas ele só confirma o valor de ser idoso. Até aqui a natureza está bem feita. Temos os idosos connosco para que os nossos caminhos possam ser menos duros e menos errados.

A nossa sociedade deita fora um manancial de conhecimentos e de experiências que tão úteis seriam para essa mesma sociedade!

Claro que os velhos já não sabem mexer nos “smartophones”, nos “tablets”, nos computadores último modelo, mas sabem como educar os nossos espíritos, os nossos corações, os nossos ideais.

Falemos com eles, punhamo-los em atividade, aproximemo-nos deles porque têm muito para dar.

Quando vejo aquelas salas dos lares cheias de idosos sem nada para fazer, desejava ser jovem para estar uns minutos junto deles e ouvi-los falar, escutar os seus conselhos e até, porque não, iniciá-los nas novas tecnologias. Sim, porque eles são velhos mas não são “burros”, são velhos mas não deixaram de ser humanos inteligentes.

Sabemos que em certas civilizações, por exemplo na romana, os idosos eram mais considerados e até certos cargos políticos só podiam ser exercidos pelos mais velhos. Que belo tratado o do escritor romano Cícero “De senectute” (Acerca da velhice)! Já tem dois mil anos e ensina-nos tanto!

É que o homem, na sua essência, é o mesmo desde há milhares de anos: as mesmas loucuras, as mesmas virtudes, as mesmas angústias e os mesmos desejos. Esquecemo-nos disso, pensando que o homem do século XXI não tem nada a ver com esses nossos antepassados. Então porque é que estudamos as suas literaturas, o seu teatro, as suas epopeias, as suas admiráveis realizações temporais?

Por isso é que é tão importante o conhecimento da cultura clássica seja grega ou latina, seja egípcia ou mesopotâmica,seja chinesa ou indiana.

Pensemos, escutemos e reflitamos!

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