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Sobre o Serviço Nacional de Saúde

O Serviço Nacional de Saúde, uma das maiores conquistas do 25 de Abril, é uma obra nunca acabada que ao longo de todos estes anos tem beneficiado de novos Hospitais, de novos serviços e novos meios mas também tem sofrido alguns percalços pelo caminho.

Porém, é bom que se lembre que no tempo da outra senhora os doentes eram tratados, em muitos casos por misericórdia, com os meios que havia e por isso é que a esperança de vida era a que era e o índice de mortalidade era também o que se conhecia. Por exemplo, tive um familiar directo que foi operado à vesícula em 1958, no Hospital de Santa Maria, depois de ter estado á espera mais de três anos. Esteve lá internado mais de um mês. Tudo acabou por correr bem porque não tinha que morrer daquela.

Mas nos tempos de hoje muito há a fazer pelo SNS. Os anos da troika cortaram-lhe muito financiamento e por consequência muitos serviços e acima de tudo muito pessoal e os resultados estão à vista. Muito do dinheiro que deveria servir para desenvolver e consolidar o SNS foi desviado para tapar buracões da banca pelo que, nas circunstâncias actuais, não será fácil recuperar-se de um momento para o outro tudo o que se perdeu ao longo dos últimos anos.

Mas há casos e casos e há situações e situações.

Por exemplo, no passado dia 21 de Outubro, a SIC fez uma reportagem de alguns minutos no serviço de urgência no Hospital de Portalegre e o país ficou a saber a situação grave que ali se vive todos os dias. No S. O. têm meios para 15 doentes, mas chegam lá a estar empilhados em macas, nos corredores, mais de 40 sendo que na maior parte dos turnos têm só dois enfermeiros para cuidar de tanto doente. E quando há uma evacuação para um Hospital Central, que demora várias horas, vai um enfermeiro a acompanhar o doente e resta portanto só um para os que ficam. Como é que nestas condições é possível garantir-se qualidade nos serviços?

Este caso de Portalegre trouxe-me à memória parte do Inverno de 2015 que passei no Hospital de Abrantes com uma tia minha que esteve semanas, por várias vezes,” internada” nos corredores do S.O. Só visto que contado é difícil de descrever. A culpa não é do pessoal que ali trabalha, como também não é do pessoal que trabalha em Portalegre. A culpa será sempre de quem não resolve os problemas que são conhecidos e que muitas vezes nem custam mais dinheiro.

Mas há mais que podia ser feito sem se gastar muito dinheiro.

Veja-se que neste Século XXI, neste ano de 2016, na era das novas tecnologias, a um doente operado em Tomar entregam-lhe uma carta para o seu médico de família tomar nota na sua ficha clínica do tratamento a que foi sujeito. Situações destas acontecem todos os dias e os colaboradores do SNS perdem tempo só na actualização de dados que a informática poderia resolver automaticamente. Até uma vacina dada num hospital não é reflectida na ficha clínica do utente no Centro de Saúde. Custaria muito a resolver casos destes? Sim, custaria dinheiro a pôr os vários programas a falar uns com os outros. E quanto é que se pouparia em tempo?

Outro caso a precisar de solução: Quando um especialista do CHMT, nomeadamente um anestesista, há meia dúzia de anos pedia um Holter – um exame de 24 horas ao coração – o doente tinha possibilidade de fazer esse exame tanto em Torres Novas, como em Tomar ou em Abrantes. Agora terá que ir a uma clínica privada em Santarém com a qual o CHMT terá algum contrato. Será que os Hospitais já não têm os aparelhos ou é só falta de pessoal? Quanto é que o CHMT gastava quando fazia os exames e quanto é que gasta agora que os manda fazer fora? É só fazerem-se as contas. Mas o dinheiro não é tudo. De qualquer forma casos destes são tão estranhos como inadmissíveis até porque o utente estava servido ao pé da porta e assim tem que se deslocar e ninguém lhe pergunta se tem carro ou dinheiro para a viagem.

Podíamos continuar aqui a dar mais exemplos caricatos, como os falados acima, mas não vale a pena. Toda a gente que utiliza os serviços do SNS, sabe perfeitamente bem que nem tudo corre sobre rodas e que muita coisa pode melhorar a começar pelas coisa simples e a continuar por outros mais complicados como sejam os cuidados primários, com o alargamento dos horários dos centros de saúde e com o preenchimento das vagas de médicos de família e restante pessoal de apoio.

Toda a gente sabe que não será fácil administrar-se um Centro Hospitalar constituído por 3 Hospitais distanciados entre si cerca de 30 Kms e ainda por cima com orçamentos apertados. Mas há problemas que podem ser resolvidos e muitos outros melhorados.

Vamos ter esperança e acreditar em melhores dias.

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