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Um caso de Censura ao Choral Phydellius

Nos últimos dias do mês de Outubro de 1971, o belíssimo Teatro da histórica cidade de Évora, seria palco do 1º Encontro Internacional de Grupos Corais. Evento patrocinado pela Direcção – Geral de Cultura Popular e Espectáculos, pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo em colaboração com a Câmara Municipal da cidade. Tendo por objectivo divulgar os trabalhos desenvolvidos na área da música de alguns prestigiados coros nacionais e estrangeiros.

O importante festival contou com a participação do “Choral Pydellius” que, nesta altura, atravessava uma nova fase da sua vida: a 17 de Maio de 1971, o maestro José Robert substituíra o anterior regente, Fernando Cardoso. Implicando esta renovação profundas alterações no reportório musical do grupo. Aliadas a um maior apuro técnico e rigor nas interpretações.

Coube até, ao novo maestro, a responsabilidade directa da presença do agrupamento torrejano no festival, realizado em Évora. Era a sua primeira grande prova de fogo à frente do “Choral”, após seis meses de duros e exigentes ensaios.

Nesse dia memorável, a actuação do “Choral Phydellius” pautou-se por um elevado grau de perfeição artística: maestro e elementos do coro estiveram em completa sintonia. Facto que não passou despercebido ao público presente, que os ovacionou de forma entusiástica.

Mas no encontro musical registar-se-ia um caso bastante invulgar. Marcado por uma enorme coragem e ousadia: à revelia da censura, o maestro José Robert decidiu incluir no programa do Choral Phydellius a canção tradicional do Douro Litoral “ Os Homens que vão prá Guerra”. Num arranjo para coro à capela de Fernando Lopes Graça (1906-1994). A canção, de raiz popular, é um grito de revolta contra a insana guerra que rouba os inocentes filhos aos pais. O texto fala do destino inelutável dos jovens soldados que “ “Vão para a guerra, [para] morrer”.

Após a interpretação da música pelo Choral Phydellius o público ficou, por breves momentos, envolto num silêncio espectral. Com o país mergulhado numa guerra colonial fratricida, a canção “ Os Homens que Vão Prá Guerra” teve a virtude de perturbar as consciências adormecidas dos espectadores (muitos deles militares) que assistiam ao encontro.

A reacção das entidades oficiais não se fez esperar perante tamanha ousadia – a Emissora Nacional, que se encontrava a gravar o espectáculo, foi coagida a eliminá-lo. O mesmo caminho sucedeu à gravação efectuada, em simultâneo, pelo irmão da saudosa coralista, professora Mécia Abreu (MARQUES, Ana Maria, ” Choral Phydellius 50 anos – 1957-2007”, Município de Torres Novas, 2008, pág. 76).

O sucedido chegaria ao conhecimento da Repartição do Gabinete do Ministro do Exército. Inteirado de tão desagradável assunto o chefe do Ministério informava, através do despacho de 29/Dez/71, o seu ponto de vista. Parecer que é referido no ponto dois do ofício 2/72/SC, do dia 3 de Janeiro de 1972, com a seguinte indicação: “dar conhecimento ao Senhor Secretário de Estado de Informação deste inconvenientíssimo programa” (CRUZ, Antonino; ROSA, Vitoriano; “ As Mentiras de Marcelo Caetano”, Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, 1974, pág. 96)

No primeiro ponto da mesma missiva encontra-se transcrita a incómoda letra da canção “ Os Homens que vão prá Guerra”, que o maestro do coral torrejano decidira incluir no encontro. Ao arrepio das entidades responsáveis.

A resposta da Secretaria de Estado de Informação foi célere! A 18 de Janeiro, o chefe do gabinete, Duarte Guedes Vaz, expedia o ofício nº 1 -GSEGV/IP, com os esclarecimentos prestados pelo Director Geral da Cultura Popular e Espectáculos acerca do assunto. Onde são abordados três pontos:

No primeiro, o Director esclarece que no programa previamente apresentado pelo “Choral Phydellius” não estava incluída a canção “ Os Homens que vão prá Guerra”. No segundo ponto, destaca a sua atempada iniciativa de contactar a Emissora Nacional, a fim de eliminar a gravação. Inviabilizando a possibilidade de ser radiodifundida. Por último, alude o propósito “ de não voltar a convidar o referido grupo coral para actuar em espectáculos organizados por esta Secretaria de Estado” (CRUZ, Antonino; ROSA, Vitoriano; op. cit., pág. 97).

A ousadia do maestro do Choral Phydellius pagava-se caro. A partir desta altura a censura excluía o coro torrejano da participação nos encontros musicais promovidos pelo Estado. Pelo simples facto de ter posto em causa, no encontro em Évora, a imagem virtual do regime: de um país isento de conflitos e graves problemas sociais.

Também o corajoso episódio teve o ensejo de fazer recair sobre os membros e as actividades do Choral Phydelius a apertada vigilância dos elementos da PIDE e da Legião Portuguesa.

Nota: No artigo anterior “ Recordar a Grande Actriz Virgínia”, por lapso, colocámos no penúltimo parágrafo o dia 22 de Dezembro, como a data da morte da actriz. Quando na realidade é 19 de Dezembro. As nossas sinceras desculpas por esta gralha, cometida inadvertidamente, Pois tivemos diante dos nossos olhos o artigo anterior sobre a torrejana ilustre, em que referimos correctamente o dia do seu desaparecimento.

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