Home > Colaboradores > Vítor Antunes > A Passagem do autor do “D. Quixote” por Torres Novas

A Passagem do autor do “D. Quixote” por Torres Novas

No presente ano comemoram-se os quatrocentos anos da morte de dois notáveis génios da Literatura Universal: Miguel Cervantes de Saavedra (1547-1616) e William Shakespeare (1564-1616). Criadores de personagens intemporais que espelham as grandezas e as misérias da natureza humana.

Na História da Humanidade pululam, em carne e osso, os Hamlet, Lear, Macbeth, Iago, Ricardo III, Coriolano, Ofélia, Desdémona, Ofélia, Lady Macbeth, Falstaff…; ou as tragicómicas e burlonas figuras saídas da pena do ilustre espanhol – Dulcineia, D. Quixote, Sancho Pança, Bacharel Sansão Carrasco, os duques, …

Dos dois grandes autores da literatura mundial apenas o percurso de Miguel Cervantes se cruza com a nação portuguesa. Esteve durante alguns meses em solo português. Guardando dessa permanência ternas recordações, reflectidas em passagens escritas nas suas obras.

Conhece-se, também, a grande amizade e admiração, do autor nascido em Alcalá de Henares, pelo português Manuel de Sousa Coutinho (mais conhecido por frei Luís de Sousa. Imortalizado na homónima peça teatral de A. Garrett). Com quem partilhou o cativeiro em Argel.

Referências de Cervantes a Manuel Sousa encontram-se no capítulo décimo, do primeiro livro, da obra póstuma “ Los Trabajos de Persiles y Sigismunda”. Mosaico encantador de recordações da sua vida e das suas leituras.

No capítulo décimo, Cervantes narra a história do enamorado português, resgatado de um calabouço dos bárbaros das ilhas setentrionais. Manuel Sousa Coutinho é apresentado como uma personagem de grande carácter e altivez. Por mando do rei parte com as funções de capitão general para a Berberia. Antes de partir despede-se de Leonora, com a promessa de voltar depressa para os seus braços. Ao fim de dois anos, cumprida a missão, regressa novamente a Lisboa, com o objectivo de se casar com a prometida esposa. No mosteiro de Madre de Deus, Manuel Coutinho vai encontrar Leonora, rodeada de monjas. Ela faz saber ao seu apaixonado que não pode casar com ele, pois tem um outro esposo: Jesus Cristo. A trágica revelação da amada irá contribuir para a morte de Manuel Sousa Coutinho (CERVANTES, Miguel, “Obra Completa, vol. II, Centro Estudios Cervantino, Alcalá de Henares, 1994., págs. 1030-1034).

Os elogios e as referências ao nosso país estendem-se também à obra a “ Galateia”, que terá começado a escrever em Lisboa: “a língua portuguesa é a mais doce de todas”; a “Lusitânia seria fadada para os amores” (MARTINEZ, Pedro Soares; “ Cervantes – Enigmas e Mitologia”, Almedina, Coimbra, pág. 83).

Este amor a Portugal, como salientámos, foi resultado da sua feliz passagem pelo nosso país. Acontecida em 1581. No ano em que Filipe II (1527-1598) entrou no nosso país, com o objectivo de impor a sua autoridade régia.

As cortes, então convocadas para Lisboa, foram mudadas para Tomar, por haver rumores de peste na capital. No dia 5 de Dezembro o rei espanhol deixa Badajoz e entra em Elvas, onde foi recebido de forma solene. Vitimado por uma grave doença, permaneceu na localidade durante dois meses. Vai, depois, para Vila Boim, onde saúda a Duquesa de Bragança, D. Catarina.

A 1 de Março, Filipe II de Espanha, passa pelas localidades de Portalegre, Crato, Ponte Sor e Abrantes, chegando ao fim de duas semanas, no dia 14, a Tomar (SERRÂO, Joaquim Veríssimo; “História de Portugal”, tomo IV, Editorial Verbo, 1979, Lisboa, pág. 15). Onde permanece durante 70 dias, iniciando a sua viagem para a capital a 27 de Maio (BATISTA, Luís M. Preto, “Cardiga. – de Comenda a Quinta da Ordem de Cristo”, Município de Torres Novas, 2009, pág. 122) .

Foi no burgo de Tomar que Miguel Cervantes recebeu, por ordem do rei, a secreta missão de ir a Orão, dali passar por Mostagão, com a finalidade entregar cartas e instruções verbais e particulares para o alcaide daquela praça. Uma viagem bastante arriscada e importante. Que o grande escritor cumpriu com êxito (ARBÓ, Sebastian J., “ Vida de Cervantes”, Editorial Aster, Lisboa,1963, pág. 164).

Julgamos que no trajecto, da partida ou da vinda à cidade do Nabão, Miguel Cervantes terá passado por Torres Novas. A distância entre as duas localidades é pequena. E o itinerário da época aponta a localidade torrejana como uma estância importante nas deslocações dos viandantes para Lisboa.

O próprio rei D. Filipe II esteve perto de Torres Novas. Permanecendo três dias na aprazível quietude da Quinta da Cardiga, junto da Golegã. (SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit, pág. 20).Seguindo depois um percurso diferente para Lisboa, através da Azinhaga, Santarém… (BATISTA, Luís M. Preto, op. cit., pág. 123).

Podemos até aventar a hipótese de o célebre escritor espanhol ter parado, por breves instantes, na vila do Almonda. Tempo suficiente para recuperar do esforço da viagem e abastecer-se.

Seguramente foi Lisboa o local em que Miguel Cervantes permaneceu mais tempo no nosso país. Deixando-lhe marcas profundas, fruto da beleza e encantamento da idílica cidade do Tejo. Lugar onde viveu alguns dos mais belos dias da sua malograda existência (ARBÓ, Sebastian J., “ op. cit., págs. 168-171).

Ao famoso escritor de Alcalá deve-se a imortal obra da literatura “ D. Quixote de la Mancha”. Texto onde conflui o quadro mais universal, mais profundo e grotesco da vida humana.

Nas palavras de Ortega y Gasset a figura de D. Quixote “é a paródia triste de um Cristo mais divino e sereno; ele é um Cristo gótico macerado em angústias modernas; um Cristo ridículo da nossa vizinhança, criado por uma imaginação dolorida que perdeu sua inocência e sua vontade e anda buscando coisas novas. Quando se reúnem uns quantos espanhóis sensibilizados pela miséria ideal do seu passado, a sordidez do seu presente e a acre hostilidade do seu futuro, desce entre eles D. Quixote e o calor fundente de sua fisionomia descabelada reúne aqueles corações dispersos, sutura-os como um fio espiritual, nacionaliza-os, colocando por detrás das suas amarguras uma dor étnica comum. «Sempre que estejais juntos – murmurava Jesus -, achar-me-eis entre vós».” (GASSET, José Ortega y; “ Meditaciones del Quijote” in “ Obras Completas”, tomo I, Revista Ocidente, Madrid, 1963, pág.326).

O livro conta a história de um humilde fidalgo que gasta o seu “tempo de ócio (que eram os mais do ano) a ler livros de cavalaria”. Esquecendo-se do cuidado dos seus bens e da caça (CERVANTES, Miguel; “ Dom Quixote de La Mancha”, Lello & Irmãos- Editores, Porto, Livro I, Capítulo I, pág. 16). À medida que dispensava o tempo nas perniciosas leituras ia perdendo o seu juízo. Tomado pela loucura, decide armar-se em cavaleiro, para que possa – à semelhança dos heróis dos romances- endireitar o mundo.

Nesta sua primeira saída, a realidade é já transfigurada pelos seus olhos: toma as prostitutas por donzelas; a simples estalagem por um castelo; e o obscuro vendeiro por alcaide da imaginária fortaleza. Entrando no jogo da desrazão do fidalgo, o vendeiro, a seu pedido, arma-o cavaleiro (CERVANTES, Miguel; op. cit., Livro I, Capítulos II e III, págs. 21 -33). À saída da venda, D. Quixote tem a sua primeira [desa]ventura ao acudir um jovem moço que estava sendo castigado pelo seu amo. Consegue do rico senhor a promessa do pagamento da dívida ao seu criado. Mas, após a sua partida, o amo renuncia à palavra prometida e bate com mais força no criado, negando pagar-lhe a dívida. Na narrativa vão-se acumulando episódios em que o nobre e bom D. Quixote é vítima de burla.

Quando D. Quixote sai pela segunda vez, faz-se acompanhar pelo vizinho, a quem persuadiu a ser seu escudeiro. Dois irmãos que se complementam. E que servirão para o escritor apresentar algumas das páginas mais poéticas e espirituais da literatura universal. Enobrecidas pelo riso trágico das situações rocambolescas de dois seres solitários vocacionados para o sonho e fantasia. “Alma imortal de um povo” (UNAMUNO, Miguel; “ Del Sentimiento Tragico de la Vida”, Editorial Losada, Buenos Aires,1964, pág. 258).

Também na sua obra-prima Miguel Cervantes não esqueceu a nação portuguesa. Em algumas passagens do “ D. Quixote de La Mancha” encontramos referências à nossa pátria: o “ Palmeirim de Inglaterra”- obra escrita por D. João II de Portugal (CERVANTES, Miguel; op. cit., Livro I, Capítulo VI, pág. 50); “do príncipe das sete partidas do mundo – o Infante D. Pedro” (CERVANTES, Miguel; op. cit., Livro II, Capítulo XXXIII, pág. 656); e da alma gémea de Cervantes – “o sublime Camões” (CERVANTES, Miguel; op. cit., Livro II, Capítulo LVIII, pág. 882).

Lembranças que reflectem a gratidão de Miguel Cervantes pelos felizes momentos vividos em Portugal. Entre os quais ganha força a credível hipótese da breve passagem do famoso escritor de Alcalá de Henares por Torres Novas.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

One thought on “A Passagem do autor do “D. Quixote” por Torres Novas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *