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Um “Cronista” Torrejano do Século XV (2)

A vida de frei João Álvares é marcada por uma forte ligação à família de Avis. Por esse motivo não colocamos de parte a hipótese de o seu rosto figurar no célebre “Políptico de São Vicente”.

Com a tenra idade de dez anos o nosso conterrâneo entrou para moço de câmara do Infante D. Fernando. A quem serviu, mais tarde, apenas na qualidade de secretário (Artur Gonçalves, no seu livro “Torrejanos Ilustres”, pág. 283, acrescenta erradamente, mais dois cargos exercidos por João Álvares às ordens do Infante: o de capelão e tesoureiro).

Numa fase posterior da sua vida o nosso conterrâneo iria ocupar o cargo de abade comendatário de Paço de Sousa.

Conhece-se também uma outra actividade desempenhada pelo ilustre torrejano: o ofício de Tabelião do Paço. Desconhecida para a generalidade dos seus biógrafos, inclusive de Artur Gonçalves (CALADO, Adelino de Almeida, “Frei João Álvares – Estudo Textual e Literário-Cultural”, Coimbra Editora Lda., Coimbra, 1964, pág. 15).

Os anos passados na companhia de D. Fernando geraram em frei João Álvares uma profunda veneração pelo Infante Santo. Descrito como um homem humilde e virtuoso (ÁLVARES, Frei João; “Obras” vol. 1, Universidade de Coimbra, págs. 7- 17).

A sua convivência com o príncipe de Avis estendeu-se aos amargurados anos de cativeiro do D. Fernando em Marrocos. Resultado da funesta expedição portuguesa a Tânger (ÁLVARES, Frei João; “Obras” vol. 1, Universidade de Coimbra, pág. 1).

Após a morte do filho mais novo de D. João I, frei João Álvares ainda viveu mais cinco anos de martírios e humilhações. O resgate aconteceu por intermédio do infante D. Pedro, em mil quatrocentos e quarenta e oito (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 254).

Na condição de homem livre frei João Álvares veio a desempenhar duas importantes missões em memória do Infante Santo: a primeira consistiu em trazer para Portugal as relíquias de D. Fernando – que antes tinham sido fechadas pelo torrejano ilustre e companheiros do presídio em duas panelas de barro e enterradas a um canto da masmorra (ÁLVARES, Frei João; op. cit., págs. 247-248) – para que fossem depositadas no Mosteiro de São Domingos, de Nossa Senhora da Vitória da Batalha (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 258). Já a segunda, outorgada pelo Infante D. Henrique, passava por escrever a biografia do malogrado irmão do príncipe de Avis (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 2).

Com grandes riscos conseguiu cumprir a primeira tarefa, resgatando as relíquias em solo inimigo, no ano de 1451. O mesmo êxito estendeu-se na feitura da “Vida e Feitos do Virtuoso Infante D. Fernando”. Obra que alcandorou o estatuto de leitura obrigatória para todos os investigadores que se debrucem sobre a História de Portugal do século XV. E fiel repositório da santidade do príncipe de Avis.

Alguns críticos defendem que o nosso conterrâneo não se perfila na linha de um Fernão Lopes ou de um Gomes Eanes de Azurara. Verdadeiros cronistas. Autores de obras marcadas pela análise histórica da sociedade e política do seu tempo. O lugar do torrejano ilustre enquadrar-se-ia na senda dos grandes biógrafos.

Como afirma frei João Álvares, nas páginas iniciais do “Tratado…”, o objectivo da sua obra passava por descrever a vida e os feitos de D. Fernando. Para que o exemplo e a vida do Infante Santo pudessem servir de modelo às gerações vindouras (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 3).

Nesta nobre missão o torrejano ilustre vinca o seu propósito de somente relatar a veracidade dos factos. Tarefa, em parte, facilitada pelo seu testemunho directo nos acontecimentos.

Mas não deixa de ser relevante a preocupação de frei João Álvares de apenas se ater à verdade histórica. Repudiando o fácil caminho da fantasia e das falsidades. Na luta pela exactidão e autonomia das suas afirmações, frei João Álvares assume-se como um autêntico historiador: qualquer pesquisa em torno da denominada Ínclita Geração tem no nosso conterrâneo um fidedigno testemunho.

O “ Trautado…” acompanha o périplo da malograda existência do Infante Santo. Principalmente o seu martírio no cativeiro em Marrocos, em condições sub-humanas. Nos vários incidentes do livro, descritos por João Álvares, sobressaem a grandeza e incomensurável virtude do filho mais novo do rei D. João I. Os duros tormentos infligidos pelos mouros – com destaque para o cruel e sombrio Lazeraque -, não o incentivaram a amaldiçoar o seu infortúnio. Aceitou religiosamente as duras provas que a providência lhe reservara. Revelando-se também um forte apoio para os seus colegas da desgraça. Através do exemplo e das suas palavras, por onde perpassavam o ânimo e a esperança (ÁLVARES, Frei João; op. cit. pág. 230).

Ao longo do “Tratado…” sucedem-se relatos de episódios de maus-tratos. Alguns companheiros do Infante sucumbiram face às misérrimas condições de vida e insalubre alimentação. No mês de Junho de 1443, o próprio Infante é acometido por uma diarreia que havia de vitimá-lo (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 234). A perda foi sentida com enorme pesar pelos seus companheiros (ÁLVARES, Frei João; op. cit., pág. 242).

Mas mesmo a morte não isentou o Infante de sofrer uma nova humilhação: o seu corpo nu foi pendurado pelos pés durante quatro dias à vista de todos (ÁLVARES, Frei João; op. cit., págs. 248-250).

O sítio onde foram enterradas as duas panelas com as tripas e a fressura com o coração do Infante tornaram-se, por parte dos seus companheiros de infortúnio, lugar de culto religioso. Desfeito o grupo, e com receio de serem descobertas as relíquias colocaram-nas num outro local (ÁLVARES, Frei João, op. cit., pág. 248).

Nas páginas finais do livro acompanhamos o resgate, feito por João Álvares, das relíquias do Infante Santo. E da vinda das suas ossadas de Marrocos para Portugal, por intermédio do sobrinho do rei de Fez. Que com os familiares do Infante e fidalgos prestaram-lhe a devida homenagem. Repousando em paz, os restos mortais do mártir de Tânger, no Mosteiro da Batalha (ÁLVARES, Frei João, op. cit., págs. 257-269).

O “Tratado…” vai também mais além de uma mera descrição das excelsas virtudes do Infante Santo. Nas suas linhas podemos vislumbrar a nobreza de carácter do nosso Torrejano Ilustre. Que com o Infante, e demais companheiros, souberam resistir corajosamente aos sofrimentos infligidos pelos mouros.

“Modelo de espiritualidade cristã, Frei João Álvares é bem um homem medieval pela grandeza do seu esforço, pela intemporalidade dos seus ideais, pela consagração total aos interesses do próximo” (CALADO, Adelino de Almeida, “Frei João Álvares – Estudo Textual e Literário-Cultural”, Coimbra Editora Lda., Coimbra, 1964, pág. 387).

Nota: Agradeço neste espaço o esclarecimento minucioso feito pelo Sr. Canais Rocha (um torrejano de vulto por quem nutro uma enorme admiração. Com um longo percurso de intervenção na vida colectiva e cultural de Torres Novas) a propósito de uma dúvida relacionada com a projecção do primeiro filme por parte do Cine-Clube.

Também lhe endereço uma palavra de gratidão por me ter dado a conhecer o pequeno trecho de uma canção popular sueca: verdadeira jóia de sensibilidade poética.

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