Home > Colaboradores > Victor Pereira da Rosa > Guaxinins e tomates

Guaxinins e tomates

As piscinas ao ar livre e as praias fluviais já estão fechadas. Sem nos darmos conta, escurece mais cedo e baixam as temperaturas. No céu, sucedem-se os bandos de gansos a voarem para o Sul. É mais um verão a chegar ao fim.

À noite, os grilos despedem-se da estação numa cantilena interminável. Arrecadamos as camisas de manga curta e os calções. Dentro de dias, regressarão os derradeiros suspiros estivais, o chamado “verão indiano”. Na segunda-feira, Dia do Trabalho (o Primeiro de Maio da América do Norte), as temperaturas subirão até 25 graus. Na quarta-feira, pode voltar a ser de 30 graus, em seguida, como o Serviço Meteorológico Federal prevê, 20 graus no domingo.

Frio? Nem pensar nisso. Entre 18 e 23 graus está-se bastante longe das friagens de Janeiro ou Fevereiro. Como o país é grandíssimo, pode ao mesmo tempo chover na costa do Pacifico, nevar nas Montanhas Rochosas, haver secas nas pradarias e, nas províncias do Atlântico, estar-se em estado de alerta, devido à passagem de um furacão tropical.

O ano inicia-se no Primeiro de Janeiro, Dia de Ano Novo. Somos porém da opinião que, tanto no Canadá como nos Estados Unidos, é no “Labour Day” (primeira segunda-feira de Setembro) que começa um novo ano. Com efeito, é nesta data que acabam as férias, que se fecham as casas de campo, que os horários das bibliotecas, dos transportes e de outros serviços público retomam o horário normal. No dia seguinte, é a reabertura das aulas em todos os estabelecimentos de ensino.

Hoje, na universidade, reparámos que uns estudantes que iam connosco no elevador pareciam miúdos do secundário. É a vida que não pára. O gato da vizinha está mais velho e o pinheiro do jardim tem menos rama. A idade avança. Mais um outono para juntar à colecção.

Este ano, tivemos sorte. Apesar de a chuva ter rareado, os tomateiros do quintal carregaram-se de fruto. Foi uma fartura. Tal como milhões de outros portugueses, gostamos deste vegetal (embora do ponto de vista taxonómico se trate de um fruto). Não passa um dia que não entre na nossa alimentação. Assim, quando os guaxinins atacaram um canteiro do quintal, incluindo a selecção de tomates de “relíquia”, decidimos falar deles aqui.

Há tempos, lemos “The End of Food” de Thomas Pawlick, e gravou-se na memória o que o autor escreveu no capítulo intitulado “Bolas de Ténis Vermelhas”. Descreve como os tomates de agora fazem lembrar borracha. Os que se vendem no nos supermercados parece terem sido engendrados com bases erradas. Não foi dada prioridade ao gosto nem ao valor nutritivo, mas sim à estandardização. O objectivo talvez tenha sido aumentar o rendimento agrícola e fazer o menos estrago possível durante o transporte. Em suma, maximizar o lucro.

Qual teria sido a justificação para reduzir a variedade genética, quando as espécies cultivadas pelos nossos antepassados são algo que devia ser preservado? Na região onde vivemos, alguns hortelões descobriram uma renovada vocação. Cultivam tomates de tipos desprezados: amarelos, roxos, irregulares, disformes e de diversos feitios. Os sabores vão do ácido ao doce. Segundo os especialistas em nutrição humana, patenteiam elevados teores de vitaminas A, C e K, licopeno e potássio.

E, assim como as sementes das variedades antigas se tornaram quase relíquias de família, também é extraordinário como não se perderam as receitas tradicionais para a sua aplicação na cozinha. Com este interesse, redescobriram práticas utilizadas na sua preservação e na preparação de pratos de outras gerações.

Vem a propósito agradecer ao nosso barbeiro, natural do Sul de Itália, por ter compartilhado connosco alguns segredos e receitas. Enquanto nos cortava o cabelo, falou da colheita nos campos da Calábria e contou como a família inteira se reunia para fazer a calda de tomate. No Canadá desde a década de sessenta, manteve sempre a tradição. No entanto, foi aperfeiçoando a técnica. Para ele, a culinária é uma arte. Tem as suas subtilezas. Gaba-se da “massa de tomate” que prepara. Diz que é a melhor do mundo. Como seria de esperar, os tomates são por ele cultivados no quintal, em companhia de feijão-verde, pimentos, acelgas e courgettes.

Motivados por essa conversa, tínhamos planeado tirar proveito da abundante safra. Qual não foi a surpresa quando, após o pequeno-almoço, fomos revistar os canteiros do quintal e demo-nos conta de que tinham levado um enorme desgaste.

Já na noite anterior, no passeio antes de recolher a penates, tínhamos avistado uma pequena família de guaxinins, quatro bebés e a mãe, a caminhar no relvado de um vizinho. Voilà! Deviam ter sido eles os transgressores que destruíram os tomateiros.

Será reduzido o número os leitores que ouviram falar destes animais. O nome é bem conhecido no Brasil e vem listado nos dicionários. Efectuámos uma breve consulta. O da Porto Editora dá a seguinte definição: “pequeno mamífero carnívoro que se sustenta de caranguejos”. A 2ª edição (1960) do “Dicionário Brasileiro Contemporâneo”, de Francisco Fernandes, é mais completa e correcta: “pequeno mamífero carnívoro da família dos procionídeos, também chamado mão-pelada”.

É um bicharoco comum no Novo Mundo, onde é chamado “raccoon” em inglês, “raton laveur” em francês e “mapache” na maioria dos países hispano-americanos.

É um animal nocturno que vive nas árvores de maior porte. Os adultos andarão pelo meio metro, portanto um pouco maiores do que um gato. Reconhece-se facilmente por ter o pêlo negro à volta dos olhos. Autênticas máscaras à Zorro!

Na semana passada, os esquilos e as tâmias (chipmunks) fizeram algum dano. Perdoámo-los por serem pequenos. Contudo, não nos conformamos com a incursão dos guaxinins. Quando uma família inteira vem destruir tomateiros tratados com tanto carinho, comete um pecado sem remissão.

Em 2017, trocar-lhes-emos as voltas. Semearemos também malaguetas tailandesas e piripiris africanos. A bicharada passará ao lado.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook