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Memorabilia XXXII 1973/74 -1

Se intentássemos com três palavras definir internacionalmente 1973/74, escolheríamos distensão ,terror, revolta.

Três acontecimentos mundiais nos incitaram à escolha da primeira: o fim da guerra do Vietname, pelo acordo de Paris, a 21 de Janeiro, com a retirada total das forças americanas. A visita de Brejnev aos EUA, entre 16 e 25 de Junho, que confirma reconhecimento da necessidade duma política de desanuviamento entre os dois blocos, afastando a possibilidade dum conflito mundial entre ambos, que incendiaria todo planeta. O escândalo Watergate, a 1de Março de 1974, que conduziu à demissão do presidente Nixon e ao reforço democrático nos EUA.

Mas distensão não significa a eliminação do antagonismo entre capitalismo e comunismo, cada um exercendo o seu poder e influência nos diversos continentes, ambos sofrendo internamente os percalços das suas próprias contradições.

Daí o segundo termo, terror, simbolizado na possibilidade da proliferação descontrolada do nuclear[1]. Daí a políticas de alianças e organismos internacionais surgidos, nos vários continentes, para criar políticas de desenvolvimento controlado. Daí os órgãos de dissuasão militares chamados NATO e Pacto de Varsóvia. Daí as revoluções democráticas, ou autoritárias, que enxameiam o planeta nessas duas décadas.[2]

Se atentarmos na Europa, verificamos a influência da social-democracia no Norte e Centro, assim como a adesão aos princípios democráticos da Comunidade Económica Europeia[3]. A distensão entre as democracias ocidentais e as repúblicas socialistas inicia-se com a abertura à Alemanha Democrática. As autonomias dos países socialistas em relação à URSS, com a Roménia, a Polónia, a RDA. Contudo, no sul do continente duas velhas ditaduras, Portugal e Espanha, em declínio e uma outra, em formação, a Grécia, onde o general Papadoulos fora derrubado pelo general Phaedon Ghisikis, conduzindo a mais uma ditadura militar de direita. [4]

O terceiro vocábulo, revoltas.

A descolonização caminha para o seu fim em África, resistindo ainda Portugal, condenado em todos os areópagos políticos internacionais, apenas com a protecção diplomática inglesa e americana, a primeira pelos interesses económicos que lhe mantêm submissa a velha aliada, a segunda pelas contrapartidas de cedência de bases militares.[5]

Por outro lado, começa a desagregação do bloco comunista, controlado pela União Soviética, com o avanço das teorias reformistas nos países do Pacto de Varsóvia. No Médio Oriente a influência ex-colonizadora dos países ocidentais, na defesa de Israel contra o mundo árabe, que conduz ao 4ºconflito israelo-árabe, em que Israel , vencedor, é obrigado a suspender o seu avanço militar, mas em contrapartida , reforça-se a unidade do mundo árabe contra o mesmo, quando em Adis Abeba, a OUA declara a sua solidariedade aos países árabes, com reflexos no aumento do preço de petróleo para o dobro pela OPEP , originando uma grave crise mundial.

Se os dois blocos se distendem e cedem, marcam frontalmente as suas divisões, nos diversos continentes, através da partilha do mundo, nos seus contactos bilaterais ao mais alto nível. Alguns exemplos: na Europa o muro de Berlim, na África a Organização da Unidade Africana (OUA), na Ásia a explosão do Maoismo (1965),

A América Central e do Sul são duas zonas fulcrais das revoltas socialistas, com a oposição e retaliação americanas, à influência marxista, iniciada com Cuba, e que vai a alastrar para a América Central e do Sul, na Bolívia e no Peru[6].O assassinato de Allende no Chile pelo golpe militar onde se destaca Pinochet, sob controlo da CIA, vem demonstrar que a doutrina Johnson era para levar a sério[7].

Paira sobre o mundo o terror duma guerra nuclear, no confronto entre os dois blocos formados no pós-guerra, com a aparecimento dum novo contentor, adversário de ambos, A China, também detentora de poder nuclear, que se revitaliza a partir do IX Congresso do Partido Comunista, em Abril de 1969, ao ponto de , em 1971, em 26 de Outubro, ao ingressar na ONU , ser reconhecida como a única representante da China, revelando a aproximação dos EUA, que leva o presidente Nikon a visitar esse país em 1972.

Um mundo desequilibrado, que caminha para um terceiro pólo cidental, a CEE, futura União Europeia, como mediador entre os EUA e a União Soviética. A China inicia a sua ascensão como grande país mundial. O mundo árabe usa o petróleo para não ser posto de lado. O terceiro mundo, América do Sul, Ásia, África, vive ao sabor dos interesses dos grandes.

Veremos, noutros dois artigos, Portugal e, nele, o concelho de Torres Novas.


[1] China,,16 de Outubro de 1964.

[2] Vide, O LIvro da História, Johannes Hartmann,Moraes Editora, 1976;História Comparada Portugal, a Europa e O Mundo, Circulo de Leitores,2º vol., dir. António Simões Rodrigues. Refiro-me às décadas de 60 e 70.

[3] Willy Brandt , na Alemanha(1/1/1969); Olof Palme, na Suécia(16)/9/1973.

[4] Há um excelente romance, Um Apartamento em Atenas, de Glenway Wescott da editora Relógio de Água, que aconselho, sobre a fase conturbada de 1967-74.

[5] Beja e das Lajes, nos Açores; da utilizaçã de Cabo Verde, como plataforma transcontinental; criação do Iberlandt.

[6] O mito Che Guevara, guerrilheiro cubano, assassinado na Bolívia, quando dirigia uma guerra de guerrilhas a favor da revolução comunista mundial, veio a influenciar imenso os movimentos estudantis que eclodiram no Maio de 68 em França, e posteriormente a diversas esquerdas radicais em todos os países ocidentais., quer latino-americanos, quer europeus.

[7] «Se num país do hemisfério ocidental os comunistas tentarem conquistar o poder, os EUA intervirão, para impedir a formação doutro estado comunista».

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