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O vício do jogo, na esperança de ganhar

O verão aproxima-se do fim. As quenturas estivais terão anestesiado o espirito crítico de partidos que, antes do acesso à governação, efectuavam protestos, manifestações e pediam demissões por tudo e por quase nada. Agora, fazem de sonâmbulos perante “casos” que um trauliteiro diz estarem “encerrados” e que o desaparafusado-mor confirma estarem “devidamente encerrados”.

Surpreendeu-nos a mudez de partidos que nunca perderam outras oportunidades para defenderem a justiça fiscal. Só ao lermos que a Associação Lisbonense de Proprietários tinha exigido que os partidos também pagassem o IMI sobre o seu património, é que conseguimos elaborar uma explicação para estes silêncios contaminados.

Fingiram que não era urgente requerer a demissão dos Secretários de Estado que aceitaram as borlas da GALP para irem ao Euro2016. Um deles, o dos Assuntos Fiscais, consentiu que a empresa petrolífera lhe pagasse DUAS viagens, uma para o desafio com a Hungria em Lyon e outra para a final em Paris. Assim se desmoronou a reputação destes governantes e a credibilidade do aparelho estatal.

Sublinhe-se que a GALP recusa pagar um imposto de 100 milhões que deve ao fisco. Como nos tempos da outra senhora, do fascismo, do nacional-socialismo, do estalinismo e de outros ismos, a comunicação social também “encerrou” esta falta de respeito pelos contribuintes, espremidos até ao último cêntimo pelas Finanças. O Zé Povinho está a ser roubado pelos novos colonizadores, porém os jornais e as televisões deixam passar. Estes figurões podem fazer o que querem e não são chamados a juízo. Por estas e muitíssimas outras “proezas” do mesmo género é que Portugal vive da clemência do estrangeiro e se encaminha para um beco sem saída.

É tudo um jogo e recordamos que uns jogos são legais e outros ilegais. Para os especialistas em matéria de dependência psicológica, o jogo é considerado um vício de cura difícil. Todas as pessoas jogam. Fazem-no com mais frequência do que pensam. Por exemplo, compram bilhetes de lotaria, organizam torneios de bisca ou de sueca, participam em concursos e marcam cruzinhas nos boletins de voto.

Nas rifas de festas da aldeia e nos países onde se pode votar, o leitor pode argumentar que o faz por caridade, pois o ganho é pouco. Quiçá por hábito.

Temos um amigo à moda antiga que, apesar de nunca ter ganho nada na vida, tentou a sorte em determinada altura. Foi numa tiragem de Feira de Viagens. Acertou sem saber. Algumas semanas após ter colocado uns papelitos com o endereço nas caixas de alguns standes, recebeu um telefonema. Do outro lado, a voz garantiu que era para verificar se a direcção estava correcta e felicitá-lo. Tinha sido premiado com um “voucher” de viagem e a sua primeira reacção foi perguntar o que queriam dele, o que era preciso fazer para obter o prémio?

Nada! Apenas que aceitasse uma viagem a qualquer cidade norte-americana. A tiragem ao acaso tinha sido patrocinada pelas companhias do certame e na verdade não havia contrapartida. Uma das empresas participantes era um dos maiores grossistas de pacotes turísticos associado à Air Canada. Bem claro, preto no branco. Pura generosidade.

O referido contemplado é pessoa viajada, mas não tinha estado em Las Vegas e há muito que desejava visitar o Estado de Nevada. Deram-lhe uma passagem aérea, alojaram-no num excelente hotel e até teve um carro por uma semana. Como nos relatou, foi como se estivesse noutro planeta.

Como é sabido, Las Vegas deve a existência ao jogo e aos casinos. Há pouco mais de meio século aquilo era um deserto. Hoje, qualquer snack-bar ou loja de conveniência tem uma ou mais “slot machines” (caça-níqueis). Os grandes casinos são inacreditáveis: pequenas cidades dentro da cidade. Uma vez no interior, raras são as pessoas que fazem uma pausa para admirar a luz do dia.

O objectivo principal desta ostentação é encher de dinheiro os cofres desta metrópole da jogatina. É claro que, ocasionalmente, há quem ganhe. Sem esperança de um eventual sucesso, ninguém viria passar uns dias neste ambiente.

Sem expectativa de ganhar, o nosso amigo não teria preenchido o boletim na feira. A Bíblia desencoraja os jogos de azar, mas alguns países e municípios têm nas taxas do jogo uma importante fonte de receita. Estamos a pensar, entre centenas de outros exemplos, na Austrália, Mónaco, Macau, Singapura, Japão, China, etc.

Na “Strip” de Las Vegas, o referido amigo entrou por curiosidade num dos oásis de jogo. Contou-nos que arrecadou uma mão cheia de moedas num caça-níqueis. Em meia hora, meteu no bolso 57 dólares. Lembrou-se que em espanhol o nome da máquina é “tragamonedas”. Parou a tempo, e acredita que a máquina devia estar danificada.

E falando de avarias, regressamos ao Absurdistão luso e aos ”casos” que não devem ficar “encerrados” pela arbitrariedade dos chico-espertos que o desgovernam. Os portugueses também apostam na roleta da política. Crêem que elegem os seus representantes e esquecem que é o sistema partidário que selecciona em quem vão votar. Na última eleição, colocaram as fichas no vermelho. A bola parou noutra cor e já se vêem as nuvens negras que ensombram o futuro.

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