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Os Enjeitados da Fortuna (3)

Nas páginas da “Revista Universal Lisbonense” encontrámos algumas denúncias, feitas por parte de conscienciosos torrejanos, sobre a ignominiosa situação em que “viviam” os recém-nascidos e as crianças enjeitadas. Os autores exigiam das autoridades uma célere actuação, a fim de suprimirem a repetição de casos futuros.

A primeira denúncia (com relatos à mistura de situações de infanticídio) é feita pelo torrejano ilustre Cândido Joaquim Xavier Cordeiro (1807-1881). Numa carta escrita a 4 de Fevereiro de 1843, onde descreve os seguintes episódios:

“ (…) Há cinco dias [o segundo caso relatado] encontrou-se outra criancinha dentro num saco, afogada no rio; e que a Autoridade tomou conhecimento, e já a voz pública principia a indigitar a mãe.

E há três dias, nesta Villa, um porco comeu parte de uma mão, e abocanhou o resto do corpo, de um inocentinho, exposto, confiado a uma mulher, que só de mulher tem o nome – Quem não vê em tudo isto uma depravação! (…) No segundo [caso] um infanticídio a um tiro de bala de uma ou duas rodas de enjeitados [estas últimas palavras são bastante importantes, pois revelam a existência da roda, nesta data, em dois locais simultâneos na vila de Torres Novas. E não apenas cingida a um sítio – ou na Misericórdia ou na Capela do Vale-, como aparecem no citado artigo da Revista “Nova Augusta”, nº 26, de 2014; e no “Mosaico Torrejano”, de Artur Gonçalves, 1936, págs. 409-410].

No terceiro [caso], um exposto entregue a uma mulher estragada, que o desampara, e deixa devorar pelas feras domésticas! – Não posso neste assunto abster-me de fazer uma observação; e é, que havendo neste Município posturas mui restritas, que proíbem a criação de porcos em casas, assim como a sua divagação pelas ruas, tão pouco andem observadas, que se deixam estes animais carnívoros, e daninhos fazer destas, e semelhantes malfeitorias…” (“Revista Universal Lisbonense”,Imprensa da Gazeta dos Tribunaes, Lisboa, Tomo II, nº 21, Fevereiro de 1843, artigo 1328, pág. 266).

Passado quase um ano, o torrejano Cândido Joaquim Cordeiro voltava, novamente, a fazer uma denúncia nas páginas da “Revista Universal Lisbonense”, com o título “Sina de Enjeitados”. Incindindo sobre os expostos e também do reincidente escândalo de os porcos continuarem a coabitar com os seus donos:

“Há quase um ano, lamentava eu (art.º 1328 da Revista) um triste sucesso ocorrido nesta vila, de ter um porco devorado uma criança: hoje noticio a V. outro idêntico acontecimento passado num dos dias da semana última, em que outro porco, comeu uma orelha, e parte da face a um desgraçado enjeitadinho (note-se que também o outro era enjeitado).

Estava este confiado a uma mulher, cujo habitual desalinho, havia muito ter mostrado à câmara municipal, quanto ela era indigna de se lhe confiar a criação de outros entes, que não fossem da espécie daquele, que promiscuamente com a família, engordava em casa, para a seu tempo devorar um inocentinho, que a sua sorte adversa constituíra membro daquela família. Naquela outra ocasião, já eu censurei, que tendo o município excelentes posturas sobre a criação de tais animais, tão esquecidas andassem, que se permitisse a sua livre divagação; que, além das malfeitorias (como as que ficam apontadas) que tal abuso consigo traz, é altamente repugnante em qualquer povoação, que queira parecer policiada. Esta observação foi infelizmente infrutuosa, e por isso, hoje registamos mais uma desgraça: mas como nisto vai envolvido o bem da humanidade, suplicamos de novo, e não só a esta mas a todas as municipalidades em que houver igual desleixo, olhem para este importante objecto: se não tiverem posturas eficazes, façam-nas, que para isso lhes dá a lei poderes; mas proíba-se severamente a criação de tão daninhos animais dentro das casas, assim como a sua divagação pelos povoados: se os deixarem fazer ficarão responsáveis perante Deus, e os homens, pelas desgraças a que seu desleixo deu aso.

Igualmente pedimos com instância às mesmas câmaras, que por bem dos numerosos infelizes confiados a seus cuidados, e por seu mesmo crédito; empreguem a mais escrupulosa atenção na escolha das mulheres a quem confiam a vida das inocentes vítimas do crime paterno, porque dói o coração, vê-los entregues a mulheres, que sobre fazê-los definhar na miséria e fome, e desprezá-los nas doenças, os exponham, por criminosa incúria, a ser devoradas pelas feras …” (“Revista Universal Lisbonense”, Imprensa da Gazeta dos Tribunaes, Lisboa, Tomo III, nº 24, Fevereiro de 1844, artigo 2637, pág. 292).

Como depreendemos pelas denúncias feitas, os deveres que as amas eram obrigadas a seguir, nos cuidados a ter com os expostos, nem sempre eram cumpridos. Contribuindo para o elevado número de enjeitados mortos. Chaga que contou com alguma benevolência e fraca vigilância por parte das autoridades. Principalmente da câmara torrejana. Parte responsável pela escolha das “mães dos enjeitados”.

A Misericórdia bem tentou ajudar os infelizes. Mas a nobre instituição debatia-se, na generalidade, com o problema de liquidez financeira. O que tornava a sua acção, na ajuda aos desvalidos, menos eficaz (Conde de Rio Maior, António; “As Finanças e a Mortalidade dos Expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa”, Imprensa Nacional, Lisboa, 1869, págs. 7-31).

Votadas ao desleixo e abandono, os índices de mortalidade das infelizes crianças atingiram proporções trágicas. Fruto, em parte, da incúria das “mães mercenárias” e de uma sociedade pouco atenta a velar pelos seus mais inocentes e frágeis cidadãos.

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