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Memorabilia XXXI 1972 -73

Concluamos a nossa viagem pelo ano, com uma selecção do que mais nos chamou a atenção, no sector do quotidiano concelhio, que passa em muito na sua dinâmica, pela actividade voluntária das colectividades, pelo dinamismo dos elementos que buscam formas de explicação, integração, alteração, do mundo em que vivem. Encontramos agora a lançarem-se na acção colectiva gerações nascidas durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Actores no palco da história do quotidiano, entre os vinte e os trinta e cinco anos de idade, com uma experiência de vida que, desde a 1ª República, não estruturava a mentalidade da população: a guerra, a emigração, as revoltas estudantis.

Dois caminhos contraditórios: a defesa duma pátria assente nos valores tradicionais, que o 28 de Maio de 1926 reassumira duma pátria anterior ao liberalismo – uma estrutura de organização social muito próxima do antigo regime (um rei, um presidente rei, um primeiro ministro, um salvador) uma nobreza militar-aristocrática assente no poder sobre a posse da terra e dos homens que a trabalham, um clero defensor dos privilégios que a República laica pusera em causa, um povo rural e urbano, orientado pela trindade sagrada, Deus, Pátria e Família, assente no domínio das confrarias religiosas.

No oposto, o peso cada vez mais crescente dum proletariado urbano e rural que se empenha numa luta pela defesa duma qualidade de vida diferente da miséria quotidiana associado a uma pequena burguesia letrada e intelectualizada, que se engavinha nos conceitos de democracia, da república, da liberdade, da defesa dos direitos humanos, e que, após o 2ºconflito mundial, através ou por causa da guerra colonial e da emigração, aprofunda e alarga os seus conhecimentos do mundo além dos Alpes, num pós guerra fria que bipolariza dois conceitos de futuro: o capitalismo e o comunismo. Aliada, uma corrente da Igreja que defende novos rumos mais atentos aos problemas sociais.

Não há como a imprensa regional, independente da sua ideologia, para nos dar a perceber como esse choque se publicita nas suas entrelinhas, nos sues comentários, nos novos protagonistas que influenciam a pluralidade do rumo de Torres Novas.

Três zonas concelhias nos chamam a atenção para o dinamismo das suas colectividades, francamente viradas para um futuro colectivo mais democrático: duas, rurais, a dos Riachos e a das Lapas, a terceira, o centro urbano da vila. A primeira, onde o dinamismo regionalista impulsiona o Rancho Folclórico, o Clube Atlético Riachense, a Sociedade Columbófila, o grupo cénico da Casa do Povo, onde uma nova geração actua nas direcções das colectividades, a ponto de levar a efeito, com assinalável êxito, o 1º Encontro dos Naturais de Riachos em Lisboa, com a organização duma comissão instaladoras e diversas comissões de apoio[1] Nas Lapas, o SMUT e o grupo da acção católica, este representado publicamente pelo padre Amílcar Fialho, com iniciativas várias, com destaque para o Enterro do Bacalhau[2] e o campo de férias para os jovens[3], cuja influência se estende a colectividades da vila, como o Desportivo, os Bombeiros , o Montepio.

No centro urbano, destaca-se a acção predominante de duas colectividades, o Coral Phydeliius, que festeja esse ano o 15º Aniversário[4], participa no 2º Acampamento de Outono, levado a efeito pelo Clube de Campismo de Lisboa, na Costa da Caparica [5], na Quinzena da Criança[6], e na apresentação na televisão portuguesa[7]; e o Cineclube de Torres Novas, que, com uma nova direcção[8], vai levar não só a novas obras na sede, continuação da sessão no Virgínia, agora acompanhada da edição dum boletim, a novas exposições, de fotografia, como a uma nova dinâmica apostada na vida colectiva interna, na secção de cinema amador e de fotografia, com aulas teóricas, exposições de pintura e fotografia e fundamentalmente, trabalho colectivo com as colectividades, cujo primeiro exemplo é o convite para a reinauguração da sede e a semana da Criança. Equipa que irá conduzir, com se verá, à criação do MIC (Movimento Intercolectividades). Na vila, outras colectividades vão ocupando o seu espaço específico e começam a despertar, com mais ou menos grau de adesão e entusiasmo, para esse movimento colectivo: os Bombeiros Municipais, o Clube Desportivo, o Montepio de Nª Srª da Nazaré, o Rancho Folclórico de Torres Novas, a Banda Operária Torrejana.

Refira-se, ainda nas freguesias rurais, como simples exemplo, a acções no Pedrógão, através da direcção do Grupo de Amigos, sediado em Lisboa, do ressurgimento em Árgea da festa do Divino Espírito Santo que se não realizava há 42 anos, pelas mãos do antigo mordomo, Sr Manuel Marto.[9].

No campo de integração dos jovens na reforma educativa, o governo, com a Câmara, cria o Centro de Juventude[10]. Mas a dinâmica da própria sociedade vai levar o Centro, como a educação, a actividades multímodas e a congregar mentalidades, ideologias e objectivos diversos. Um simples suplemento, como a página da Escola Preparatória de Torres Novas, Primeiro Passo, com a colaboração juvenil dos seus alunos, revela-nos à saciedade os problemas que afligiam os jovens estudantes. [11]

Além dessas acções, o próprio semanário, tem secções e colaboração, que lhe vão moldando, senão um novo rumo, pelo menos uma abertura para a liberdade e a dignidade humanas. Além da continuidade das páginas Cinema e Literária de Joaquim Canais Rocha, os artigos sobre política internacional de Vítor Pereira da Rosa, provenientes do Canadá, assenta ainda em novos colaboradores, como o próprio autor destes textos (Parágrafos) Jorge Morte, Aláudio Lavos, Alexandre Martins (Página 5), Manuel Maya dos Santos, além do regresso de Joaquim Rodrigues Bicho (Instantâneos).


[1] O Almonda nºs,2651, 15/4/1972;2663, 29/4/1972;2667,27/5/1972.

[2] Idem, 2649, 1/4/1972, a favor do lar da Criança.

[3] Idem, 2676,7/10/1972; 2677, 14/10/1972.

[4] Idem, nº2666, 20/5/1972.

[5] Idem, nº2676,7/10/1972

[6] Idem, Nº2683,25/11/1972 . Programa que se prolonga até Dezembro.

[7] Idem, 2387, 22/12/1972.

[8] Idem, 2664,6/5/1972 Presidente Dr. Carlos Trincão Marques, Vice-presidente, Orlando Alves Pereira, secretário Emídio Ferreira Martins. Tesoureiro, Arlindo Tavares, Vogais, Álvaro Manuel Ferreira Maia e Maria José de Sousa Varela.

[9] Idem, nº2658, 3&6/1972.

[10] Idem, nº2888, 30/12/1972.- A comissão Organizadora era constituída por Luís Filipe Duarte Pisco, Carlos Manuel Moura Marques da Silva, Maria Teresa da Silva Carvalho, José Manuel Ferreira e Maria Teresa Ferreira Alves.

[11] Idem, 2687, 22/12/1972.

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