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Memorabilia – XXX 1972 -2

De Torres Novas, em 1972, selecciono alguns acontecimentos que, de forma directa ou indirecta, influenciaram os tempos em que vivemos.

A guerra colonial nas três frentes e a emigração, esta principalmente para França, com números próximos de um milhão.i As inversões demográficas da sociedade lusa nas décadas seguintes resultaram destes dois acontecimentos históricos, ambos repetidamente nos últimos anos visíveis nas páginas do semanário da vila, O Almonda. O próprio jornal, sentindo a procura de ambos os vectores pela relação com a terra natal, , lança-se na campanha dos 5 mil assinantes.

Um segundo sector é o político. A Câmara Municipal, como noutros artigos se referiu, sem se definir por completo, adere à linha liberal do regime. Dentro do plano que a considerava pólo do triângulo de desenvolvimento económico (T. Novas, Tomar, Abrantes, da sub-região de Lisboa), opta por um programa de desenvolvimento em várias frentes: material, de conclusão da instalação eléctrica nas freguesias (a Chancelaria era a última por iniciar), conforme declara no sua secção «Pergunte que nós respondemos»ii, criada em O Almonda;e de novas estradas e reparação das municipais.

No sector da educação e da cultura, dentro do nacionalismo da Acção Nacional Popular, com a coordenação do director da biblioteca, Dr. Robalo Pombo, como já vimos em artigo anterior, subordinado ao espírito dos descobrimentos e domínio quatrocentista e quinhentista dos oceanos do planeta, lança os jogos florais Lusíadas, uma exposição camoniana e prepara, com o vice-presidente da Câmara, a política de instalação dum Centro da Juventude, que será instalado e inaugurado, no fim do ano , em 28 de Dezembro, pelo Secretário de Estado do Trabalho e Previdência, Dr Silva Pintoiii.

Mas não deixam de ser relevantes, nesse incremento nacionalista, a inovação toponímica, Rua Arcebispo de Évora, Dr. Manuel Mendes da Conceição Santos; Rua dos Lusíadas (1572-1592), entre as escolas masculina e feminina, às Tubeiras; Rua dos Viscondes de S.Gião, junto à Cantina Escolar.iv

Significativo, ainda que por razões diferentes, a publicação municipal das obras de Manuel Inês Soares, «Torres Novas, História Arte e Turismo»v; de José Lopes dos Santos,vi «Poesias»vii, aceitando a decisão dos participantes no programa regionalista de Vítor Machado, no Virgínia, onde foram lidos poemas, pelo autor deste texto, e que, sob aplauso unânime do público, apostrofou a Câmara presente à publicação duma antologia da sua obra poética, esparsamente publicada, vida fora, na imprensa concelhia e associativa. Realce-se o reinício da edição editorial do município, paralisada desde a década de trinta, com a publicação das obras de Artur Gonçalves

No sector desportivo, a acção do executivo liga-se à inauguração das piscinas municipais, sob a influência do vice-presidente Tolda Martins, professor de Educação Física na Escola Industrial de Torres Novas, defensor do desenvolvimento de desporto escolar e do associativismo juvenilviii. Não é por acaso que o vemos municipalmente responsabilizado por ambos os sectores, o da juventude e o do desporto escolar, com prejuízo do Clube Desportivo, que nesse ano, se declara em crise financeira e directiva.ix

Mas o seu troféu de glória camarário, ainda que tenha aproveitado a onda do ressurgimento da opinião pública, aderente à reforma do ensino do ministro da Educação, Engenheiro Veiga Simão, está na criação da secção liceal de Torres Novas, do ensino nocturno, e dos preparatórios para a continuação do ensino técnico nas escolas superiores tecnológicas. O movimento, saído dum grupo de jovens trabalhadores-estudantes, consegue num abaixo-assinado com milhares de assinaturasx, sendo primeiro subscritor, José Fernando da Silvaxi. A Câmara quis aproveitar a situação, o próprio presidente é um dos subscritores, mas o Dr. Guimarães Amora, aproveitando o relacionamento do seu compadre, o professor catedrático Dr. Mário Silvaxii, com o ministro, adiantou-se à política camarária xiiie, ele mesmo, acompanhado dos organizadores, entregou no ministério respectivo abaixo-assinado. Fernando Cunha lamenta ter sido deixado de foraxiv, criticando o Dr. Amora, que lhe tenta, sem êxito, responder num dos números seguintes do jornal.xv

Um outro acontecimento de destaque, mas a que a Câmara se encontra associada, mas de forma subsidiária, é o da transformação do hospital concelhio de Torres Novas em Distritalxvi. Tudo aponta que se deve este melhoramento à acção do Engenheiro Neves Clara, então provedor da Misericórdia de Torres Novas, ex-deputado, dirigente da Acção Nacional Popular, membro, pelo sector dos transportes, da Câmara Corporativa.

Quanto ao sector associativo, a Câmara acompanha-o à distância, mas vigilante, porque é nesse sector que se movem os opositores do regime, que irão, nas respectivas direcções, como se verá noutro artigo, manter aceso o facho da democracia e da resistência à política de isolamento que a continuação da politica colonial, que era em cada areópago internacional hostilizada e, a nível nacional, mais contestação se cimentava.

O Congresso da Oposição Democrática, anunciado em Dezembro, anunciava que o ano eleitoral de 1973 iria ser decisivo para o que se vinha prenunciando: o derrube do regime ditatorial iniciado em 28 de Maio de 1926xvii.

Exceptuando algumas vozes associadas à repressão política que se organizava em manifestações a favor do regime, quando das eleições indirectas presidenciais, que garantiam a o Almirante Américo Tomas o 3º mandato, a própria imprensa apoiante, como o Almonda, publicava textos das vozes liberais do regime, como um aviso à navegaçãoxviii.

i O Almonda nº2649,1/4/1972.Várias.

ii Idem, nº2650,8/4/1972.«No momento actual encontra-se servida 77,5% de população do Concelho e pouco mais de 50% do nº de povoações com mais de 50 habitantes e existem executados projectos de electrificação que incluem 30 povoações com 6.056 habitantes no valor de 6.056 habitantes.» Em 1971, nenhuma comparticipação do Estado. Tem no actual orçamento 300 contos, para obras, que avançarão, consoante a respectiva comparticipação das populações».

iii Idem, nº2688,30/12/1972.

iv Idem, nº2651, 15/4/1972.

v Preço. 50$00.

vi Falece a 25/11/1972.

vii Preço, 20$00.

viii O Almonda, nº2673, 16/9/1972.

ix Idem, nº 2687.22/12/1972.

x Idem, nº 2649, 1/4/1972.

xi Idem, nº2662, 22/4/1972.

xii Uma filha deste casara com o seu filho, João Guimarães Amora, que viria a ser médico, seguindo a tradição paterna.

xiii Idem, nº2662, 22/4/1972 -Segundo José Fernando, a Câmara informara os promotores de qie o ministro não os receberia. Resolveram, então, procurar outra alternativa, que surgiu cm a disponibilidade do Dr,.Guimarães Amora, então presidente da Assembleia Geral d Cineclube de Torres Novas.

xiv Idem,nº2649,Pergunte que Nós Respondemos, 1/4/1972.

xv Documento que aconselho ao executivo municipal à sua recolha e depósito no Arquivo Histórico Municipal.

xvi Idem, nº2654,8/4/1972.

xvii Idem, nº2684,2/12/1972.

xviii Idem, nº2686,de 16/12/1972, onde se transcreve parte do discurso, na Assembleia Nacional, do Dr Magalhães Mota, da minoria liberal.

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