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No teatro do absurdo, andam a brincar com o fogo

Lemos no jornal “Le Monde” (27.06.2016) que, “em plena crise Brexit, a Comissão Europeia tem outro dilema. Alegadamente, a instituição comunitária vai pronunciar-se a 5 de Julho sobre o cumprimento – ou não – por parte da Espanha e de Portugal, do Pacto de Estabilidade e Crescimento nos orçamentos de 2015. A Comissão deve recomendar ao Conselho Europeu que estes países sejam punidos, impondo-lhes multa e suspensão temporária dos fundos estruturais ”.

O abandono dos britânicos deixa toda a gente baralhada. É triste porque se perde um membro que ajudaria a reformar a UE e também porque as consequências financeiras e políticas vão afectar não só o Reino Unido como o resto do continente.

É demasiado tarde para os líderes evitarem o naufrágio do “Titanic Europa” e não surpreenderá ninguém, se outras nações referendarem “exits”. Qual será a próxima? A Dinamarca? A Finlândia? A Holanda? A Áustria? A Suécia?

Em Portugal, uma percentagem dos média qualificam estas opções de xenófobas, extremistas, racistas, retrógradas, etc. Nalguns casos, sê-lo-ão por certo. Só não compreendemos a não aplicação de semelhantes adjectivos aos membros da extrema-esquerda que pedem referendos sobre a continuidade dum país na EU.

O Presidente —árbitro constitucional nesta matéria—, os partidos do arco da governação e também o CDS pronunciaram-se contra. Até o PCP sublinha que “as decisões a adoptar pelo povo português em relação à defesa da soberania e independência nacionais não obrigam necessariamente à realização de um referendo”. Porém, no meio da trapalhada, levantou-se uma voz a recomendar um referendo para que Portugal deixe a UE.

Quiçá não se tenha dado conta que a maioria dos portugueses estão-se nas tintas para discursos histriónicos. A representação é de 10,2% dos votos (549.153) e é uma ilusão acreditar que a ameaça fará Bruxelas, o BCE e o FMI tremerem de medo. Atenção! O tiro pode sair pela culatra.

Sejamos realistas. Por muito que a extrema-esquerda proteste, os estrangeiros não se atropelarão para virem investir num país de geringonças. Tampouco vão conceder empréstimos depois de terem ouvido um antigo primeiro-ministro afirmar que “pagar a dívida é ideia de criança” (José Sócrates). Só conseguirão dinheiro a juros elevadíssimos e, mesmo assim, a favor e com garantias. A gerência da CGD é que dá centenas de milhões à nossa “gente tão honesta”. Sem fiador nem caução.

De direita ou de esquerda, alguns abutres passaram ou ainda estão pousados no Parlamento Europeu, na Assembleia da República ou nas autarquias. Têm mais medo dos referendos e das auditorias do que o diabo da Cruz.

Com efeito, o Brexit pouco tem a ver com a divisão entre direitas e esquerdas. Isso é o preconceito sectário a falar mais alto para formatar os eleitores. E na Grécia? Pense-se no que se disse e se escreveu sobre o Grexit e sobre o Syrisa. Agora é a chacota. Confusões ou prioridades? Já se terão esquecido? Andam todos destrambelhados e querem contaminar a população.

Exemplos do “Bem prega Frei Tomás; façamos o que ele diz e não o que ele faz”? A Secretária de Estado Adjunta e da Educação e membro da Comissão Nacional do PS, Alexandra Leitão, com tese de mestrado sobre “A Protecção Judicial dos Terceiros nos Contractos da Administração Pública”, decidiu acabar com os “contractos de associação” com os colégios privados. Confessa que tem Mário Soares (cuja família é proprietária do Colégio Moderno e o filho João andou no Charles Lepierre) como uma das “referências políticas”.

Sim, a questão dos colégios privados tem muito que se lhe diga. É uma questão complexa que não pode ser fotografada a preto e branco. Como pudemos ler na revista “Visão”, a Senhora Secretária tem duas filhas que, como foi divulgado nas redes sociais, frequentam um colégio privado.

A opção é dela. O que se torna ridículo é a justificação: [Se] “ as minhas filhas […] agora estão na Escola Alemã […] tem a ver com a opção por um currículo internacional. Para mim, era importante que elas tivessem uma educação com duas línguas que funcionem quase como maternas, digamos assim. Se assim não fosse, andariam obviamente numa escola pública”.

Em países sem jornalixo à portuguesa, o assunto teria sido batido e rebatido. Teriam-na forçado a fazer as malas. Em Portugal? Dali e o surrealismo.

Vem a propósito mencionar outra ocorrência surrealista. O primeiro-ministro nomeou uma nova direcção para gerir a insolvência da Caixa Geral de Depósitos. Quase de imediato, lemos no “DN” (23.06.2016) que o governo socialista tinha confiado a estes administradores a realização de uma “auditoria independente” aos actos de gestão do banco praticados desde 2000. Assim, encobrir-se-ão os responsáveis da perda de milhares de milhões. Deviam fazer como no caso do BES. Mas, como se trata de uma instituição pública — i.e. para benefício de amigalhaços dos partidos— branquearão o desfalque por meios legais e não ilegais. Uma aberração ética apenas admissível em “democracias” de geometria variável.

Neste quadro paradoxal, Portugal entrou de novo na euforia do gastar. É tempo dos cidadãos passarem do reducionismo do pensamento linear para a análise sistémica. Queiram ou não queiram, está tudo ligado. O consumo excede o rendimento e o governo não estudou os pressupostos do Keynes. Isto vai sair caro, quando se agravar a austeridade.

Em Inglaterra, a juventude reclama. Diz que os votantes no Brexit desfizeram o seu futuro. De igual modo, chegou a vez dos jovens portugueses compreenderem que são eles que irão pagar a dívida soberana. Cansados de sustentar parasitas e loucos, os que já emigraram e os que pensam em emigrar sabem melhor do que os politiqueiros de charanga e pandeireta que não há almoços grátis. A não ser que seja para os “eleitos/plantados” numa lista partidária.

Concluímos com um provérbio africano: “Quando os pigmeus projectam sombras gigantes, é porque a noite está próxima”.

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