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Doutores ou Engenheiros

Cada povo tem os seus hábitos e os seus costumes que se vão alterando com os tempos. Uns demoram centenas de anos a modificar-se, outros duram o tempo duma geração.

Os hábitos linguísticos dos jovens são sol de pouca dura assim como as músicas ou os hábitos. Num país de analfabetos que ainda éramos não há muito, o ser tratado por senhor doutor ou senhor engenheiro dava um estatuto social à pessoa a quem era atribuído. Acontecia até que alguns desses cidadãos, quando alguém os tratava pelo nome próprio, consideravam isso um insulto.

Se formos à origem de tais títulos, encontramos uma justificação. De facto, antigamente e cuido que isso se mantém, quando alguém tirava uma licenciatura tinha o direito de assinar Sr. Dr. Quando ao chamar-se, dependia.

Os médicos sempre tiveram esse direito e, justamente, o povo sempre lho atribuiu. Para as outras licenciaturas seria a mesma coisa no tratamento popular: ou Sr. ou Sr. Engenheiro. Há países como a França onde o título de doutor é reservado ao médico e o de “Maître”

(Mestre) ao advogado. Todas as outras licenciaturas não têm relevância no tratamento social.

Vem isto a propósito duma sugestão de um eurodeputado português que defende modificar estes tratamentos tão lusitanos, pelo simples nome: Sr. António, Sr. Ricardo, Sr. Manuel, etc. Uma boa ideia porque a profissão de qualquer um é posterior ao nome do nosso batismo ou do nosso registo. É por ele que somos conhecidos e é ele que parece agarrado à nossa pele. A profissão de qualquer um é importante sobretudo quando é exercida com dignidade e profissionalismo e não como título diferenciador como se fôssemos superiores aos outros.

Sempre defendi, diante dos meus alunos, que se o funcionário que se encarrega do meu lixo precisa de mim para ensinar os seus filhos, eu preciso dele para recolher o meu lixo. Portanto é uma questão de mentalidade e de respeito por aquilo que cada um faz.

Vivemos em sociedade e precisamos uns dos outros. Nada me apoquenta que alguém me chame Sr. Carlos e nunca por nunca “faça favor -Sr. Doutor Carlos-“ como ouvi algumas vezes da boca de alguns colegas. Não é o facto de se usar este ou aquele tratamento mas o facto de isso revelar a tal superioridade estúpida só porque se possui um título académico. Restos de hábitos monárquicos: Sr. Conde, Sr. Marquês, etc.

A superioridade de cada profissão ou de qualquer título académico está nisto: ser digno do título pelo desempenho, pela dignidade e pelo respeito pelos outros.

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