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Minudências Torrejanas do Século XIX (2)

Em Torres Novas, a Misericórdia local (fundada em 1534) continuava a desenvolver a sua benemérita acção de ajuda aos mais necessitados. Através da assistência, em casos de doença e de pobreza. O litígio, acontecido alguns anos antes, e que tinha oposto o Dr. José António Maia a outras figuras de relevo da irmandade – caso do Dr. Miguel António Dias -, já tinha sido ultrapassado (MAIA, José António; “Relatório e Contas da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia da Villa de Torres Novas…”, Typographia Universal, Lisboa, 1866).

A reconhecida instituição religiosa centrava-se, agora, exclusivamente, no auxílio aos cidadãos torrejanos mais desprotegidos. Incumbência a cargo do provedor José de Sousa Baracho. Tendo a seu lado o escrivão Francisco Xavier Rodrigues. Nos lugares de facultativos encontravam-se Luiz Carlos de Souto Rodrigues e António da Silva Oleiro. Desempenhavam as funções de

capelães, na referida instituição religiosa, José Maria de Almeida e António Jácome de Castro.

Outro organismo de enorme relevância para a vida colectiva torrejana era o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré (fundado em 1862). Tinha como presidente da direcção José António da Silva. Estavam encarregues dos assuntos relacionados com a secretaria, António Gaspar Lopes e Manuel Gaspar Lopes. O cargo de tesoureiro da instituição era desempenhado por Manuel Pantaleão, sendo o vice-tesoureiro João Soares da Rocha. Os lugares de farmacêuticos da benemérita instituição eram ocupados por ilustres figuras torrejanas: Francisco Xavier Rodrigues e Cândido Marcelino Borges (o seu emérito fundador).

Além desta sua ligação ao Montepio, os dois farmacêuticos exerciam a sua actividade no foro particular. Há outros técnicos do ramo no concelho ligados à actividade. Casos de Ernesto Xavier Rodrigues, José Ramos Melícia, José Maria Ribeiro e António José Alves.

Na Saúde Pública, o seu responsável era o sub-delegado António da Silva Oleiro. Os préstimos de parteira do concelho estavam a cargo de Joana Rocha.

Como director do Correio da vila, pontificava Francisco Maria de Almeida. Havia uma outra delegação em Alcanena (nesta altura fazia parte do nosso concelho) a cargo de Tomé de Oliveira e Silva. O chefe da estação telegráfica, situada na praça, era o Sr. Manuel Agostinho.

No sector da educação, os torrejanos podiam usufruir do ensino primário e também do secundário. A rede escolar do ensino inicial abrangia grande parte do território do concelho. Havia nas localidades de Alcanena (prof. Tomás de Oliveira e Silva), Assentis (prof. Francisco José de Sousa), Árgea (Prof, Manuel Dias Frazão), Mata (prof. Nicolau Jorge Calado), Monsanto (Prof. Paulo da Silva e Costa), Brogueira (prof. António da Silva Roda), Parceiros (Prof. Manuel Vicente), Pedrogão (prof. Joaquim Gomes Duque), Riachos (prof. João José Pereira Nascimento), Ribeira (prof. Francisco José Pereira Nascimento), na freguesia de São Pedro em Torres Novas (Prof. António dos Reis) e na de Salvador. Nesta última freguesia o cargo era exercido por uma mulher: a professora Carolina Perpétua Lopes (Como vemos, a maioria dos docentes a que se reporta os dados presentes no livro, eram do sexo masculino. O que contrasta com a actual situação no nosso ensino).

O único professor que ministrava a instrução secundária, Joaquim Correia da Silva, estava agregado à freguesia de Santa Maria.

Até à presente data, existiram em Torres Novas duas tentativas ligadas à edição de jornais: “ O Janota Almondino” (1853) e o “Eco Torrejano” (1868). Só que, não conseguiram singrar. A imprensa escrita torrejana teria de esperar mais alguns anos para que surgissem, novamente, a aposta nos hebdomadários (o que aconteceu a partir de 1882, com o semanário “ A Monarquia”).

O problema da ausência de uma imprensa local não se deveu à falta de meios. Os torrejanos tinham, na altura, uma tipografia. Propriedade de José Guilherme de Faria e Silva.

A actividade religiosa estava integrada no dia-a-dia dos torrejanos. Não nos esqueçamos que a dimensão do sagrado tinha, nesta altura, uma forte presença no quotidiano das pessoas. Cada uma das igrejas do concelho era assegurada por um pároco distinto. Na freguesia de Alcanena, pelo padre José Marques de Carvalho; Alcorochel, Manuel Marques da Silva Nogueira; Alqueidão, António Duarte Rosa de Carvalho; Assentis, Francisco Xavier Lopes; Bugalhos, João Lourenço; Brogueira, Pedro Antunes; Lapas, Manuel Simão Areda; Olaia, Francisco Martins Paulo; Paço, António Jorge Ferreira; Parceiros, Joaquim da Costa Pinto; Ribeira, António José de Oliveira; Gueifão (Santa Eufémia) Miguel Lúcio Serra; Monsanto, Paulo da Silva e Costa, Zibreira, José Augusto Rosa Carvalho.

Na freguesia de Santa Maria da vila, ministrava os sacramentos o pároco Francisco António Rodrigues; na de Salvador, Ezequiel de S. Helena; em São Pedro, Constantino José de Paula; e na de São Tiago, António Luiz Ventura, vigário da vara.

Em Torres Novas existia um clube destinado às elites locais: o Clube Torrejano. Na presidência da direcção figurava o pai de Gustavo Bivar Pinto Lopes, Rafael Pinto Lopes. O cargo de secretário era desempenhado por António da Silva Oleiro e o de tesoureiro por Joaquim Luiz Machado.

Culturalmente Torres Novas dava-se ao luxo de possuir um teatro. Realidade que, na altura, não estava muito disseminada pelas vilas do país. Era propriedade do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, cabendo à sua direcção a administração do importante espaço cultural. Lugar de encontro da família torrejana vocacionada para as coisas do espírito. Tinha onze camarotes de 1ª ordem, 11 de 2ª ordem e cento e cinquenta lugares de plateia.

Dois anos depois, um novo teatro torrejano foi construído. A inauguração deu-se no dia 24 de Abril de 1877. Este novo edifício (restauração completa do anterior) albergava mais pessoas. Era composto por “quinze camarotes de 1ª ordem, quinze de 2ª ordem, seis frias, plateia superior e, no fundo da sala, plateia inferior ou geral” (GONÇALVES, Artur, “Memórias de Torres Novas”, Companhia Editora do Minho, Barcelos, 1937,pág. 193).

Como nos foi possível aferir, nestes primeiros anos do último quartel do século XIX, o concelho de Torres Novas encontrava-se servido por um conjunto de imprescindíveis instituições que garantiam o regular funcionamento da vida do seu povo. A diversidade de serviços e organismos, existentes no concelho, possibilitaram aos seus cidadãos um respeitável nível de vida. Conseguido, em parte, através do tímido desenvolvimento dos sectores secundários e terciários. Numa população em que a maioria dos torrejanos ainda se encontrava ligada à agricultura e pecuária.

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