Memorabilia XXIII

Para quem a memória é o passaporte do futuro, não pode assistir à promoção da desmemória sem sentir revolta e ofensa. O fim da história que muitos tentam promover mais não é que um lava-jato do neo-liberalismo, que pretende justificar duas guerras mundiais, as bombas de Hiroshima e Nagasaqui, a guerra do Vietname, as coloniais de África e Ásia, a célebre questão que o fascista francês Le Pen proclama numa democracia pluralista: os campos da concentração nazis são uma invenção da história da esquerda.

Não admira que no Portugal do século XXI, quando se pergunta aos jovens o que foi o Tarrafal, o Aljube, Caxias, encolham os ombros, a maioria nem saiba o que significa PIDE, muito poucos identificam Humberto Delgado, nem sabem da sua casa-museu do Boquilobo, sita na freguesia da Brogueira, nem do seu assassinato em Espanha a mando de Salazar e com a conivência de Francisco Franco, e se lhes perguntarem o que simboliza a estátua junto do Quartel da Polícia no Largo das Forças Armadas, viram as costas e buscam os emblemas próprios do seu tempo.

Não estarão certos? O seu futuro está na sua juventude, nos problemas da sua juventude, na instrução recebida numa escola virada para o aluno-empreendedor, transformado numa mercadoria concorrencial em vez dum ser humano com capacidade crítica e espírito cidadão. O jovem contemporâneo vive num mundo planetariamente colonizado, onde a sua liberdade é controlada ao segundo pelas tecnologias que utiliza para convívio e conhecimento do mundo. Reinventando-lhe as raízes do passado, sem alternativas à oferta-procura dum mundo precário, onde se descobre descartável, sem emprego, onde a única situação é emigrar, que raízes podem ligá-lo a um local, um país, uma história? A única âncora, se se mantém, se o presente de escassez e desamor não o desagregou, é o lar familiar, onde a intranquilidade, a instabilidade, a desistência, são a matriz dum presente «que tem se ser assim».

A coincidência do primeiro de Maio com o Dia da Mãe traz-lhe à resiliência própria da contestação adolescente, a ternura da canção do seu nenhum destino na pátria portuguesa que o desmotiva na canção do Pedro Abrunhosa , «quero voltar aos braços de minha mãe», sinal de que ser emigrante é o futuro numa pátria que o vende em nome duma comunidade europeia em que as regras do jogo foram adulteradas pela ganância da finança internacional.

O primeiro de Maio passa-lhe à margem. Não há uma memória legal escrita, fotográfica, fílmica, dessa efeméride depois de 1934, no Portugal, onde, ao nascer-se, apenas se assume a entrada no comboio do tempo. Claro que há imagens – poucas, históricas, de encontros na clandestinidade, de festas e almoços de trabalhadores, de manifestações luta de rua, dum dia que é o Dia do Trabalhador, a efeméride dos graves acontecimentos de Chicago de 1886,na luta pelas oito horas de trabalho, que levou à aprovação, em 1899, nos dois congressos operários, realizados em Paris, desse dia como o escolhido para a grande manifestação internacional dos trabalhadores, sendo decidido que em todo o mundo se abandonasse o trabalho e se lutasse pelo horário das oito horas.

Creio que é importante a nossa sociedade o regresso ao tema da palavra trabalho, ao seu sentido histórico de luta pelos direitos duma classe, a trabalhadora, hoje cada vez menos fato de macaco e mais classe média e pequeno-burguesa, habilitada com cursos profissionais, médios ou superiores num mercado de salário mínimo nacional, contrato precário, sem nenhuns direitos sociais. Num caminho que o Papa Francisco condenou como uma legalização da nova escravatura contemporânea, sem colar ao pescoço, nem grilhetas nos tornozelos, mas com a carta de escravo impressa no espírito, em nome da exploração da vida humana para enriquecimento de minorias.

Torres Novas teve dessas comemorações clandestinas, algumas, como festas de campo, que o Arquivo Fotográfico Municipal guarda[1]; outras, almoços, como os da Casa Nery, ou mesmo dos tipógrafos de O Almonda. As dezenas de preços políticos operários que passaram pelas cadeias políticas do fascismo provam demonstram que o 1º de Maio, nesta cidade então vila industrial importante, sempre foi celebrado,[2]legal ou ilegalmente, desde os finais da monarquia, durante toda a primeira república e na própria ditadura.

Perder essa memória, a do trabalho explorado, mal pago, sem condições, nem direito a um movimento sindical independente, numa luta pela dignidade do pão, saúde, habitação, condições de reforma, pelo, deixando que se passe sobre esse tempo a borracha da falsificação, pode substituir a história da libertação dos povos pela da sua subjugação sem alternativa. O neo-liberalismo trabalha, diário, nesse sentido. O roubo transformou-se em instituições financeiras, o desvio de verbas públicas e privadas para contas privadas da banca, das grandes empresas, das multinacionais. O mundo dos media, transformado em órgão de publicidade desses poderes secretos, mas poderosos a nível planetário, controla a informação, define a vida das sociedades.

O trabalho, contudo, se muda de forma, não muda de essência. É ele que gere a riqueza, é dele que sai o crescimento, é nele que assenta os caminhos duma palavra muito frágil, assolada por ventos tumultuosos, mas que tem de ser regada, protegida, para um futuro onde a palavra humanidade mantenha o sabor da esperança solidária. Flor : democracia. Flor: dignidade. Flor : qualidade de vida. Flor: cidadania plena.

Se permitirmos que esta memória da luta e do sofrimento pelas melhores condições e de respeito pela dignidade do trabalho seja adulterada e refabricada, o futuro dos jovens que hoje o não festejam pode estar em risco. Pode não haver regresso possível ao colo de sua mãe.

Ser jovem é estar onde se joga a história. Ou perde-se a juventude sem se ter percebido a razão de se saber ser jovem.

Aos mais velhos compete não desistir, partilhando a realidade do seu próprio tempo, essa história de luta, essa linha do futuro. Mostrar quantas armadilhas de colonização há na palavra mercadoria.

O 1º de Maio no dia da Mãe é uma festa luminosa de teimosia pela demanda da vida.

Mantenha-se, em nome da História, a estrada do futuro.


[1] Espólio José Ribeiro Sineiro

[2] Canções da Liberdade, Exposição Comemorativa do 20º Aniversário do 25 de Abril ,Museu Municipal de Torres Novas, Presos Políticos em Torres Novas, 1927-/1963 -pg. 31.

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