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Memorabilia XXI – 1969

De 1969, vívidas, algumas recordações, a mais dolorida e íntima, o falecimento de minha mãe, a 7 de Abril, informado no Hospital Militar da Estrela, onde, aspirante miliciano, estava internado, em recuperação duma fractura ocasionada no fim do ano último na Escola Prática de Infantaria, em Mafra.

Outras, locais, nacionais, internacionais, que deixaram marcas no devir da sociedade portuguesa.

De Portugal, após a posse de Marcelo Caetano, no ano anterior, alguma abertura esperada, que as conversas em família, na RTP, procuravam manifestar. Podendo indicar-se diversas situações que influenciaram mudanças no comportamento nacional, escolhemos cinco acontecimentos decisivos que marcam o ano: a continuação da guerra nas três frentes de África, que a censura proíbe de qualquer publicação, além das notas governamentais, mas que se mantém viva localmente com a publicação das fotografias dos mobilizados, ou pelas chegadas e partidas que os correspondentes das freguesias não ignoram.

O segundo, a greve geral aos exames da Universidade de Coimbra, que atingiu 85% daqueles, na continuação do protesto motivado a 17 de Abril, quando da inauguração do novo edifício de Matemáticas pela presidente da república Américo Tomás. Motivo: o ter sido recusada a palavra ao presidente da direcção da Associação Académica de Coimbra, que, na madrugada do dia seguinte, seria preso, sendo os restantes membros da direcção suspensos, inclusive da frequência das aulas.[1]A crise atinge tal amplitude, que o governo decide fechar a Universidade, antecipando o final do ano lectivo.

O terceiro, o regresso do bispo de Porto do exílio, dando força à ala mais liberal do catolicismo progressista, que em Portugal se desenvolve, nesse ano, com o aparecimento dos cadernos Gedoc, editados pelos padres Felicidade Alves , Abílio Cardoso e Nuno Teotónio Pereira, que leva à sua proibição e prisão dos responsáveis.

Um outro elemento preponderante foi a publicação da Plataforma de Acção Comum do Movimento Democrático Português, após a concretização, em Maio, do II Congresso Republicano, como proposta para as eleições legislativas de Outubro, que mais uma vez, só permitiram a eleição dos candidatos da União Nacional, ainda que a ala liberal do regime aí entrasse e fosse decisiva para os debates e mudanças que, depois, vieram a ocorrer. Pinto Leite, Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, Pinto Balsemão, foram as suas principais figuras.

O quarto, apenas de maquilhagem, com a extinção da PIDE, substituída pela DGS, transferindo para esta a estrutura, pessoal, meio de actuação.

Por fim, como resposta a esta acção de maquilhagem, as estruturas de oposição ao regime organizam, em Novembro, a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, que no último dia do ano, entrega um comunicado sobre a sua constituição a Marcelo Caetano, assinado por quarenta e oito individualidades, religiosas e laicas.[2]

A censura e a orientação de O Almonda ignoram a maioria destes acontecimentos.

São mais divulgados os acontecimentos internacionais, como o fim da Primavera de Praga, na Checoslováquia, a demissão de De Gaulle, o início da retirada americana do Vietname, o passeio lunar de Armstrong e de Aldrich no nosso satélite, mesmo a criação da República Árabe Líbia, pelo coronel Kadhafy, Colhida no Novidades, a morte de Ho Chi Minhh, no Vietname do Norte, a subida ao poder de Olof Palme na Suécia e de Willy Brandt na Alemanha, merecem transcrições dos artigos publicados naquele jornal.

Outros acontecimentos, estes locais, merecem referência. A electrificação e arranjo de estradas municipais, grande actividade das colectividades locais, com a eleição de novos dirigentes. Os colaboradores do semanário mais acutilantes: Vítor Pereira da Rosa, com crónicas do Canadá sobre politica internacional, José João Louro, cuja orientação política leva, após cinco artigos, ao seu afastamento. As páginas, de cinema ou literatura, de Joaquim Canais Rocha, muito abertas ao neo-realismo e ao cinema de cariz social.

Escolho, pelo significado, cinco acontecimentos marcantes para a história concelhia:

a) O falecimento do Dr. Augusto de Azevedo Mendes, médico, político salazarista, a alma de O Almonda durante décadas a fio, culmina o fim dum ciclo.[3]

b) A inauguração, pelo Presidente da República, almirante Américo Tomás, das novas instalações da Fábrica de Fiação e Tecidos, pelo peso que aquela demonstrava na economia e sociedade concelhias.[4]

c) A publicação da escritura da Sociedade Torrejana de Automóveis, Lda, da família Claras, numa manifestação do seu poder económico e político na estrutura de transportes nacional.[5]

d) A inauguração do Estádio Municipal, a 7 de Dezembro.[6]

e) A denúncia vigorosa tomada a peito pelo padre Vitorino, da paroquial de Santiago, sobre a fraude da «Santa da Ladeira do Pinheiro».[7]

Outros acontecimentos locais que importam assinalar, desse ano, ficam para um outro artigo.


[1] Em debate recente, num dos canais televisivos, o historiador Fernandes Rosas mostrava como o regime perdera o futuro, quando, desde 1962, se inimizara com a juventude universitária. Ao transformá-la em oficiais milicianos, obrigando-os à acção militar em África, conduziu muitos ao exílio. Dos que ficaram, surge a grande difusão das ideias de contestação e da defesa do fim da guerra, que esses mobilizados à força transportaram para as Forças Armadas, influenciando os oficiais e sargentos do quadro, e conduzindo ao 25 de Abril. A greve de 1969 veio agravar o divórcio entre a Universidade e poder político de forma irredutível.

[2] Presos Políticos – documentos 19870-71, Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, ed. Armando de Castro, Francisco Pereira de Moura, Luis Filipe Lindley Cintra, Afrontamento, Porto, Mar/Abril 1972.

[3] O Almondanº2898,22/3/1969;nº 2900,21/3/1969.

[4] O Almonda nº 2.407, 12/7/1969;nº 2409, 26/7/1968

[5] O Almonda nº2398, 10/5/1969.

[6] O Almonda, nº 2428, 6/12/1969; nº2429, 13/12/1969.

[7] Praticamente, durante todo o ano, desde O Almonda 2890, 18/1/1969 a 2428.6/12/1969, prolongando-se nos anos seguintes.

O desencontro da numeração surge no nº 2901, de 5/4/1969, que passa ao nº 2384 ,em 12/4/1969, continuado a partir deste último a que se segue.

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