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Caminhar na Galiza entre a história e o mar

Há na Galiza um percurso extraordinário ao longo da costa atlântica, que liga a foz do rio Minho até à cidade de Vigo. Percorri esse caminho de carro em passeio familiar, há anos, por altura da Páscoa.

Era o mês de abril e a manhã estava fresca, com algum sol, que ora aparecia, ora se ofuscava por entre as colinas daquele território estendido até ao mar: penhascos, terraços cultivados, casas e secadores de milho antigos, gado que pastava, gente atarefada num dia de semana, em atividades do campo e da construção. O mar junto à estrada, picado aqui e acolá pelas vagas encimadas de branco, gaivotas em voo tenso e ao longe pequenos ilhéus a norte, barcos de mercadorias investindo contra a maré.

No percurso para norte, sucedem-se lugarejos, a adivinhar vidas simples e intensas, ocupadas, entre o campo, as casas e o mar, certamente sem o reboliço da cidade grande. Continuamos, sentem-se os aromas marinhos, o cheiro do pinho, o odor dos estrumes deixados pelo gado. Ao fundo, surge Oia e a silhueta de um mosteiro isolado entre a encosta e a praia. Decidimos parar e espreitar. É um convento grande, revestido de pedra gasta e cinzenta, com um átrio em volta, onde se percebem as diferentes intervenções arquitetónicas românicas, góticas e barrocas, portadas em madeiras antigas armadas com ferragens resistentes, com uma grande janela voltada para o mar que fica a li a metros.

Dou um passeio em redor e fecho os olhos. Imagino tempos passados, monjas a rezar, mosaicos majestosos, claustros de silêncio, caminhantes em direção a Santiago de Compostela, quem sabe: alguns perdidos, outros com frio, doentes ou com fome, ali acudidos, que se encontraram naquela quietude, séculos após séculos…

Depois olho o oceano e imagino quantas mães ali não acorreram com preces a Santa Maria, para proteção dos seus filhos marinheiros e exploradores dos mares do sul? Quantos barcos ali não acostaram em busca de guarida dos temporais? Intrusos para algum saque? Mas o tempo passou e as histórias foram-se com a vida das gentes. Ali permanece o templo e as suas casas adormecidas, para nos fazer parar, imaginar que tudo passa e só a natureza e a espiritualidade fica, como a marcar o nosso caminho. Extasiado, ouço chamar, porque é hora de partir e seguimos caminho.

O tempo passou…, para mim, cerca de oito anos! Guardo na memória aquela experiência marcada de encontro com a natureza e vidas humanas. Imagens de um tempo ancestral de dores, esperanças e medos, pessoas que construíram com as suas mãos catedrais que guardam o sussurro do tempo e da fé, transmitindo para além de si de a mensagem de intemporalidade da alma que respira.

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