Memorabilia XIX


A década de sessenta, no semanário O Almonda, marca também, não só o aparecimento de novos colaboradores, como de novas secções e alterações de cabeçalho. Após o falecimento do Dr. Carlos Mendes, seu director, substituído pelo padre Joaquim José Búzio, ainda que se mantenham algumas séries de artigos, como os do Dr. Augusto Mendes ou a colaboração poética de Faustino Bretes, surge, após a saída de Torres Novas do Dr. Borges dos Santos, em 1963, que aliara ao cargo de professor de nomeação efectiva, na Escola Industrial de Torres Novas o de director da Biblioteca Municipal e responsável pela página Artes e Letras no semanário[1], uma nova forma de encarar o jornalismo e o quotidiano informativo através de novas secções e nomes. Podemos ver mesmo, sem grande subterfúgio, duas épocas, uma de 1963-1968, a segunda, em 1969, marcada pela substituição de Salazar por Marcelo Caetano, de que a mudança do próprio cabeçalho de o Almonda, como veremos no próximo artigo, é significativa.

De entre as diversas secções que se mantém neste primeiro período, políticamnete caracterizado pela gestão municipal de Fernando Cunha,indiquemos as principais: Arco-iris , do lapense Olímpio Repolho[2]; a página policial do Inspector Montargil, que veio a ser substituida pelo Panorama de, Lino Mendes[3]; Cinema , de Joaquim Canais Rocha, um dos múltiplos títulos com que preenche uma colunas do períódico, desde 1959[4];Tauromaquia, de Alexandre Martins, muito afecto á Festa Brava e que foi um dos principais publicitários da Escola Tauromáquica Torrejana, de Mário de Sousa Leão[5]; Da Mulher, uma página feminina ,assinada por um pseudónimo, Maria Fausta[6]; a página de Desporto, muito anterior, coordenada por Portalete Coelho.

Mas duas secções vão marcar, pela sua qualidade e diferença, este período.

Contacto[7], coordenado por Joaquim Canais Rocha, suplemento literário de quatro páginas editado autonomamente ao periódico, onde encontramos colaboração muito dispar, desde os escritores locais da década de sessenta, aos nacionais, já com nome na cultura portuguesa. Alice Vassalo Pereira,Casimiro de Brito,Fernando Grade, Ernesto de Sousa, Augusto Sales, Augusto Mota, Carlos Loures, completavam os de Canais Rocha, José-Alberto Marques, António Mário Santos, José Fernando, António Lúcio Vieira, António Mendes, entre outros. Pretendia-se a voz da nova geração, influenciada pela Poesia 61, o surrealismo, o concretismo brasileiro, o existencialismo que assentava na obra de Vergilio Ferreira. Pretendia ser, no local, um ponto de ligação com o que se fazia em Portugal. Era uma geração fruto da década de sessenta, aberta a um mundo diferente do que lhe era oferecido pela monotonia concelhia. Foi um elemento de coesão, mas também de polémica, sobre os caminhos da arte contemporânea.

A segunda, intitulada Amanhecer[8], corresponde a uma visão católica pós-concílio do Vaticano, assente em duas figuras que se vão impor no período de abertura religiosa inciada com João XXIII e continuada por Paulo VI: Joaquim Rodrigues Bicho e o professor Alfredo Chora Barroso. Aliando uma defesa do património concelhio a uma visão do desenvolvimeto industrial,na linha preconizada de abertura pelo entãoprersidente da Câmara, percorre os monumentos, a poesia, o folclore, o desenvolvimento industrial expansionista dessa época, a preocupaçãomsocial com os mais desprotegidos. Chora Barroso fica conhecido pelos artigos importantes sobre o património riachense, Joaquim Bicho inicia o seu périplo do estudo dos templos concelhios, da Fiação e Tecidos e da Misericórdia de Torres Novas.

Para se perceber Torres Novas nos anos sessenta, quer no desenvolvimento económico, social e político, quer no aspecto cultural , socio-educativo, quando se começa a definir a ruptura com um passado delineado a partir da década de trinta,é necessário um regresso às páginas deste semanário, nesta década marcada pela guerra em África , pela crescente emigração, pelo crescendo dos movimentos estudantis anti-regime e pela formação e intervenção duma nova geração católica, de párocos e laicos, que vão defender os prrincípios das encíclicas pós- conciliares.

Pouco se sabe da acção da JOC concelhia, mas estava viva e actuante, ao ponto de , em 1963, realizar os seus primeiros jogos florais, fazendo parte do juri, AntónioLúcio Vieira, Emídio Ferreira Antunes, António Júlio Martinho, Maria Manuela Santos e Maria Odete Gomes Cordeiro[9]

Refira-se o trabalho socio cultural que, então, se desenvolvia na Escola Industrial de Torres Novas, onde um grupo de jovens iniciava também os seus voos literários, premiados nos respectivos II Jogos Florais : Carlos Manuel Dias dos Santos, Eduardo Filipe Pereira Bento,Maria José de Sousa Varela, Carlos Manuel Lima da Silva Rosa, Inocência Maria Sequeira Gomes, Virgílio Duque Vieira.

Não se ignore , no campo musical, o Choral Phydellius, o Coral de Torres Novas, os Kalifas, o Níger. Como pano de fundo, o Cineclube de Torres Novas.

Surge, igualmente,neste período, como já se referiu noutro artigo, a opinião da juventude universitária, com a colaboração de Carlos Trincão Marques, na altura recem-licenciado em direito, que publica uma série, intitulada Perspectiva , mas que termina abruptamente no ano seguinte, por decisão do mesmo, ao ver o texto sobre uma palestra realizada por Miller Guerra no Clube Torrejano sobre educação sexual ser censurada pela direcção do jornal.[10]

1969 vai ser uma ano crucial para a clarificação da esperança aberta com o marcelismo, que culminra com as eleições legislativas de Outubro, para a Assembleia Nacional.


[1] Já descrito em artigo anterior.

[2] Iniciada em O Almonda, , nº 2121, de 3/2/1962

[3] Nº 2123, 3/2/1962, mas já se publicara anteriormente, O Panorama começa , no nº 2257, 12/9/1964.

[4] Uma nova série começa no nº 2136mem 12/5/1962,mas com novo rosto no nº 2175, de 2/2/1963.

[5] 2136, de 12/5/1962, série muito irregular , que já vinha detrás.

[6] Idem, ibidem.

[7] Publicação saída dentro, mas autónoma, do periódico, desde 25/12/1964 ao nº 2339, de 9/4/1966. Nunca foi explicada a razão do seu fim, daí que se agradeça ao seu coordenador, hoje membro da redacção deste jornal, que o faça.

[8] Quinzenal, foram publicados 63 páginas, desde 27/6/1964 ao nº 2402, de 8/7/1967.

[9] O Almonda nº 2202, de 17/8/1963. Era importante que os seus responsáveis dessem a conhecer a sua acção, para um melhor conhecimento da sua intervenção na história desse tempo.

[10] Informação do próprio, Iniício em no nº 2369, de 5/11/1966, termina no primeiro trimestre do ano seguinte.

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