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Dois contos de Natal de Maria Lamas (1)

A actividade literária de Maria Lamas não se circunscreveu apenas à edição de obras no domínio do romance e do ensaio. É conhecida a sua exímia faceta de contista, que se encontra dispersa em revistas e periódicos nacionais, debaixo do pseudónimo Rosa Silvestre.

Nesta vertente a escritora torrejana produziu, com enorme regularidade, autênticas jóias literárias. Impregnadas de um profundo amor pelos seres humanos a quem o destino fora adverso.

A época natalícia constituía-se, por excelência, como o período em que a alma sonhadora e fraterna de Maria Lamas dava asas aos seus utópicos anseios de um Mundo iluminado pela chama da Justiça e Bondade. A exemplo da terna figura do Jesus-Menino, que numa fria noite de inverno despertou no coração dos homens a luz do Amor Fraternal.

Em Dezembro de 1929, aparecem, simultaneamente, na revista “Civilização” (nº36) e no “Magazine Bertrand” (nº 18), dois contos de Maria Lamas alusivos à Natividade.

Na primeira publicação – inserta na habitual página da escritora torrejana “ O Reino dos Miúdos”- surge o conto “O Natal do Pastorinho”, assinado sob o pseudónimo de Rosa Silvestre.

É a história de um pastorinho, Tónio, que numa tarde de Dezembro, quando se preparava para “descer a encosta, deu pela falta dum cordeirinho [Negrito] de poucos dias, que era o seu enlevo”. O patrão tinha-lhe recomendado para que o não perdesse de vista.

A noite avizinhava-se. Um frio intenso assolava a serra, pintada de branco pela neve que caía sempre. Tónio deu ordens ao seu cão, Fiel, para que levasse as ovelhas para o aconchegante redil. Iria sozinho procurar o Negrito. A ele se juntou a mãe do cordeirito agradecida pela preocupação do pequeno pastor, que não dava mostras de ter medo da escuridão e dos lobos, apesar dos seus dez anos. Desde muito cedo Tónio era o sustento da mãe e dos irmãos.

No escuro e frio da noite, o pequeno pastorinho deambula à procura do Negrito. Os sons dilacerantes do cordeirito propagam-se perto do local em que se encontra. A custo caminha em direcção ao local onde ecoam os gemidos, até que tropeça numa coisa: “era ele, o Negrito, já sem forças para andar”. Tónio rejubila numa alegria indescritível, ao mesmo tempo que a mãe do pequeno cordeiro procurava reanimá-lo com o seu calor.

Era preciso regressar quanto antes à aldeia. Mas nenhuma luz rasgava a escuridão. Não havia o mínimo sinal do sítio em que se encontrava. Ao caminhar pela encosta abaixo lembrou-se que era a noite de Natal. Já não ia a tempo da missa do galo. Veio-lhe à lembrança a promessa da tia Leocádia, de lhe guardar “um bom quinhão” de rabanadas. Nesse momento, desata a chorar. Aquilo que a noite escura e o medo não despertaram, acontecia ao pensar no que iria perder – um momento único, “ que só uma vez no ano lhe era dado a saborear”.

Vagueando exausto pela noite, o pequeno Tónio desfalece “abraçado ao cordeirinho, julgando ter chegado o fim da sua vida”. O frio e a neve vão paulatinamente cobrindo num manto branco os dois seres abandonados pelo destino. A seu lado, velava pelos dois, a mãe do Negrito.

Como em todas as histórias de Natal a providencial mão Divina assoma com o intuito de corrigir o momentâneo infortúnio vivido pelos seres desventurados:

– No seu regresso a casa, após a Missa do Galo, a Clarinha e o irmão vão aconchegados ao peito dos seus pais. Trazem nos olhos a magnificência do presépio com todas as suas “ figurinhas bonitas, o Menino Jesus a sorrir, a Virgem, S. José, os pastores, os anjos, e julgavam estar sonhando”.

Nisto o chauffeur alerta para a presença de um corpo caído num dos lados da estrada, julgando ser de um velho. O pai de Clarinha decide ir ver do que se trata. Espantado pelo que viu, chamou as crianças para ver o “presente que lhes envia [va] o Menino Jesus”: Tónio jazia desmaiado no chão, “ e junto dele a ovelha, com o filhinho, ambos muito chegados ao dedicado pastor”.

Mandado pelo patrão, o chauffeur trata de levar a criança inanimada para o conforto do carro. Seguindo-os os dois cordeiros “dispostos a não abandonar o Tónio”.

Acorda dentro do carro “pensando que tinha morrido e que estava no céu”. Tão doce era o conforto que sentia no assento do automóvel, abrigado por uma temperatura bastante agradável. Ao ver o Negrito e a mãe compreendeu que estava vivo. E que era “a pessoa mais feliz do mundo”.

Devido às “circunstâncias extraordinárias” em que foi encontrado, a família de Clarinha “julgou-se na obrigação de o proteger”. Fora o presente que o Menino Jesus lhes enviara!

Tónio foi viver com eles. E a sua mãe deixou de passar por privações, porque a santa menina dava-lhe frequentemente avultadas esmolas, para que pudesse alimentar os outros filhos.

Quanto aos cordeirinhos da história, o pai de Clarinha comprou-os para oferecer ao Tónio, “ como recordação daquela noite de Natal em que, por amor deles, o pequeno ia morrendo de frio perdido na serra, enquanto a neve ia caindo, caindo…”

(Continua)

Um Feliz Natal!

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