Memorabila XIII

A 25 de Novembro de 1961,com o nº 2111, o semanário O Almonda entrava no seu 44º aniversário.[1]Concluía editorialmente um ano crispado, pleno de mudanças, nacional e internacionalmente. Vejamos, neste segundo aspecto, as principais transformações: 20/1 – Toma posse como presidente dos Estados Unidos, o democrata John F. Kennedy; a 12 /4 , o russo Iúri Gargarin  realiza a primeira viagem orbital tripulada por um ser humano; a crise da divisão de Berlim, que leva à fuga de muitos habitantes da Berlim Oriental, comunista, para a zona ocidental da cidade, culmina a 12,13 de Agosto na construção dum muro, anexando a Berlim Oriental à Zona Soviética (RDA); 17-31 de Outubro -XVII Congresso do Partido Comunista da U.R.S.S. em Moscovo – ataque de Krutschev à política estalinista, ao culto de personalidade e depurações realizadas levando à aprovação dum novo programa do Partido Comunista em substituição do de 1919; 6/12 Plano de intensificação do comércio entre os EUA e o Mercado Comum[2].

Acontecimentos nacionais: a 12 de Janeiro, o capitão Henrique Galvão com um comando de 32 homens, assalta o paquete de Santa Maria; 15/1 – altos dignitários da igreja mostram, através da imprensa, a sua solidariedade com a política colonial portuguesa  ; é publicado nesse mês o  Programa para a Democratização da República, pelo Directório Democrático Social;  4/2 -início da guerra colonial em Angola, com  o ataque à casa de reclusão militar, quartel  da PSP e Emissora Oficial de Angola; entrega do Santa Maria às entidades brasileiras, que dão asilo político a Galvão e a Humberto Delgado; 15/3 -A Upa , de Holden Roberto, inicia a insurreição do Norte de Angola, com a chacina de dezenas de portugueses e destruição de fazendas; 21/3 – o método da eleição do Chefe de Estado passa a ser feito através dum colégio eleitoral. Álvaro Cunhal é eleito secretário-geral do PCP, cargo vago desde a morte de Bento Gonçalves;  13/4- Tentativa gorada de revolta militar do general Botelho Moniz, que levou o Dr. Salazar a uma remodelação ministerial e a assumir a pasta da Defesa. Em Maio e Junho processam-se renovações do Governo;  13/10- Amílcar Cabral reclama em carta ao Governo Português, a independência da Guiné e de Cabo Verde; 10/11 -um avião da TAP foi assaltado por partidários de Henrique Galvão, lançaram panfletos sobre vários pontos do país, tendo desviado aquele para Tânger; 12 /11-Eleições legislativas, em que a oposição desiste à boca das urnas, por considerar não serem livres as mesmas, sendo eleitos apenas os candidatos da União Nacional; 13/11 – a Comissão de tutela da ONU condena a política portuguesa em África (83 votos contra 3); 18/12 – A União Indiana invade e integra no seu território, Goa, Damão e Diu.[3]

Localmente, O semanário, a 7/1, muda de cabeçalho, sendo Director o Dr Carlos Mendes e editor o Padre Joaquim José Búzio.

Nem todas as notícias, devido à censura, são publicadas no Almonda. Mas o caso da Santa Maria é relatado[4].Do mesmo modo, a guerra de Angola preenche semanalmente, desde 25/2, com noticiário, as páginas do periódico, extraído de O Novidades, que se transformou, em toda a sua história, até ao 25 de Abril, no seu grande mentor. Abre, inclusive, uma subscrição, para as vítimas do terrorismo, que a 23/9 atingira a quantia de 55.752$00.[5]A política é centrada na defesa do Portugal uno e indivisível, com a denúncia interna e externa, não só do comunismo, como da política americana de Kennedy e da ONU.[6] Também a 6/5 informa da remodelação governamental, mas só nas entrelinhas, de forma muito indirecta, se alude ao caso Botelho Moniz. A comunidade torrejana é mobilizada para a defesa da política de defesa do ultramar, desenvolve-se uma política de reestruturação da Mocidade e da Legião Portuguesas, ambas sob a direcção do capitão Virtuoso, promove-se na vila e nas freguesias a mostragem de documentários sobre as atrocidades cometidas em Angola. A mobilização dos jovens começa a ser anunciada na secção Pelo concelho. Da Mata ao Pedrógão, a Riachos, aos Soudos, a Árgea,  surgem os nomes de mobilizados e também os nomes dos que morrem nas emboscadas.[7]

Mais dois acontecimentos políticos preenchem o ano de 1961. Em Novembro, as eleições legislativas, para a Assembleia Nacional, onde só foram eleitos, como atrás se referiu, candidatos da União Nacional, tendo a lista da oposição democrática distrital sido rejeitada pelo governador Civil[8]. Como representante de Torres Novas, foi eleito o Dr. Jorge Moita, que substituiu o Eng. Neves Clara, que, na direcção do Grupo Pró-Torres Novas, dinamizara um conjunto da actividades no concelho e levara à inauguração, neste ano corrente, dos novos edifícios da escola Industrial e da cadeia comarcã[9],como  das novas instalações da Junta Nacional do Vinho[10].A Câmara, rendida ao seu dinamismo, procurando que repetisse o mandato de deputado, quisera mesmo realizar um levantamento colectivo entre as entidades e colectividades, para que lhe fosse atribuída a medalha de ouro de município.[11] Não tendo havido unanimidade e, existindo mesmo, oposição a tal, o próprio engenheiro Clara renunciou a tal prebenda.[12]O que se passa no interior da União Nacional, não o conhecemos. Mas algo deve ter conduzido à sua substituição pelo Dr. Jorge Moita, como se pode pressentir num artigo do Dr. António Alves Vieira que, ao manifestar o seu apoio, não deixa de declarar a sua mágoa por acontecimentos que, infelizmente,  não revela.[13]

Um último acontecimento político veio agravar, no fim do ano, a vida política: a invasão do Estado da Índia, que conduz a uma manifestação de protesto na praça 5 de Outubro por tal acontecimento.[14] Na índia era governador geral o torrejana general Vassalo e Silva, que, a 22 de Julho, fora eleito pelos municípios de expressão portuguesa 1º cidadão honorário do Estado da Índia.[15]

No campo religioso, um acontecimento marcante, que denota igualmente significativas mudanças no pensamento do catolicismo social: a publicação semanal da Encíclica Papal Migister et Magistra, do papa João XXIII.[16]

Veremos no próximo artigo, outras medidas importantes concelhias do ano de 1961


[1] O Almonda nº 1, 24 de Novembro de 1918.

[2] Hartmann, Johannes, O Livro da História, pp 302/303,Moraes Editora, Lisboa, 1ª ed, Abril de1976.

[3] História comparada, Coordenação e direcção de Simões Rodrigues, C .Leitores, 1996.

[4] O Almonda, 28/1 ,4/2,11/2,18/2.

[5] Idem, 23/9.

[6] Idem, 25/3,1/4., 22/4.

[7] Idem, 22/4 – É o primeiro caso relatado neste jornal. Não indicaremos nomes , nem as localidades., para não criar desconfortos .

[8] Idem,24/10

[9] Idem,22/7/1961, em que relata as respectivas inaugurações, feitas pelos Ministros das Obras Públicas  e Educação Nacional,

[10] Idem,28/4/1961

[11] Idem,10/6/1961.

[12] Idem, 1/7/1961.

[13] Idem,4/11/1961.

[14],Idem 23/12/1961.

[15] Idem, 26/8/1961

[16] Idem,16/9/1961- Início.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook