Memorabilia XI

Falta a Torres Novas uma história que contemple o período entre o 28 de Maio de 1926 e o 25 de Abril de 1974. Poder-se -á dizer que há estudos parciais sobre essa época, a maioria devidos a Joaquim Rodrigues Bicho, cujo falecimento recente deixa um vazio irreparável na historiografia concelhia. Algumas obras específicas, como as de José Ribeiro Sineiro ou de João Carlos Lopes, assim como outros textos publicados na revista Nova Augusta, de Joaquim Bicho, João Carlos Lopes, Margarida Moleiro, o autor desta crónica, acrescentam alguma luz a este longo período. Da obra prometida por Francisco Canais Rocha, no seu livro sobre o sindicalismo torrejano na primeira república, sobre o período citado, nada se sabe. Terá escrito algo, que tenha ficado nos seus manuscritos? Só a família o poderá responder. Mas, pense-se, caso não haja um espólio por resguardar, perde-se uma memória importante da história concelhia da resistência na década de cinquenta.

A única síntese realizada conhecida para o século XX, deveu-se a uma edição do Jornal Torrejano, intitulado Caderno do Século (1901-2000), muito incompleto, com uma visão factual muito unilateral dos acontecimentos desse século, o que não a impede de ser um importante documento histórico, pelas pistas que abre a quem deseje aprofundar o passado concelhio.

Há, deste período, um óbice evidente. Escasseia a documentação e a que existe, obedece a um critério, que é a do poder construído, de cima a baixo, a todos os níveis das estruturas da sociedade portuguesa, sob a direcção autoritária do Dr. António de Oliveira Salazar. Um segundo, óbvio, na primeira página do jornal: visado pela comissão de censura.

A documentação camarária permite conhecer a acção da autarquia na sua área concelhia, a sua correspondência as relações entre o poder central e o poder local, através do intermediário distrital, concentrado nos governadores civis.

O único jornal concelhio que atravessa todo esse período, o semanário O Almonda, mantém a defesa do regime, na sua tripla emblemática: Deus, Pátria e Família. Dos textos escritos pelos seus mentores, aos transcritos da imprensa do país que lhe serve de orientação em política nacional e internacional (Novidades, A Voz), o elogio da política de Salazar e a defesa, numa primeira fase, dum ruralismo católico, são manifestos. Leiam-se, como exemplos, os textos dos correspondentes das aldeias, a maioria assentes nas festas religiosas das freguesias, nos baptismos, casamentos e óbitos.

Há um período que altera este programa de vida. Refiro-me aos finais da década de 50, especificamente a 1958/59, com o sobressalto provocado pelas eleições presidenciais em que ao candidato da União Nacional, as oposições republicanas, socialistas e comunistas, opuseram uma figura polémica, por sair de dentro dos quadros de regime ditatorial, mas que veio unificar movimentos defensores da democracia, construídos com a vitória dos aliados em 1945: o general Humberto Delgado. A vitória oficial eleitoral pertenceu, efectivamente ao Governo e ao partido único legalizado: a União Nacional

Mas este fim de década mostra que algo está a mudar no concelho e que o próprio poder reflecte as contradições duma política que estava agora  associada à criação da EFTA.

Há acontecimentos importantes, que revelam uma segunda fase do regime, e o aparecimento, nacional e local, de mudanças significativas. Encerra-se, com a substituição do Dr. António Alves Vieira na presidência da Câmara, que transfere o poder da família Mendes, os Drs. Carlos e Augusto Mendes, para uma nova equipa, presidida pelo Dr. Evaristo de Matos Branco, sendo vice-presidente o Sr. Fernando Cunha. Também, a representatividade na Assembleia da República muda de perspectiva, com a eleição para deputado do Engenheiro João Pedro Neves Clara. Na direcção de O Almonda, dirigido por um Dr. Carlos Mendes em fim de ciclo político, surge a figura do Padre Joaquim José Búzio, que irá abrir o jornal a outras formas. Uma tentativa de abertura da União Nacional conduz à eleição distrital dum dirigente concelhio, o advogado Jorge Moita.

No sector cultural, a Comissão Pró-Torres Novas, elitista, integrada no Clube Torrejano, leva a efeito duas actividades que deram brado, na época. As festas da Cidade, no castelo de Torres Novas e os Jogos Florais. Começa a distinguir-se, entre os mais, como literato, a figura do Dr. Augusto Guimarães Amora. No campo republicano e liberal, surge um amplo movimento de quadros médios, que leva à criação do Cineclube de Torres Novas. Na oposição mais interventiva, partindo do sector operário e empregados de escritório, forma-se o Raiar de Aurora, campista, que abre na sua sede a aulas de várias disciplinas, para melhoria dos conhecimentos dos associados.

Estamos na época do II Plano do Fomento Industrial, que vem de certo modo alterar o predomínio das elites fundiárias por outras, assentes comércio, na indústria, no desenvolvimento bancário.

No campo do ensino, uma revolução profunda de mentalidades: a criação da escola Industrial, depois escola industrial e comercial, que abre o caminho à substituição do ensino privado, por um outro oficial, criador de técnicos necessários ao desenvolvimento industrial. O leque de acesso à formação profissional torna-se evidente, com os anúncios da indústria, como a Fábrica de Papel O Almonda, a pedir serralheiros especializados.

No semanário, surgem novas secções: Artes e Letras, de Júlio Dangra ( Dr. Borges dos Santos, açoriano, professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Torres Novas) ,  Crónica de Cinema , de Seanac (Joaquim Canais Rocha, ainda redactor, hoje, de O Almonda), com o a página feminina Da Mulher, sob o pseudónima de Maria Fausta.

A biblioteca e o Museu, no seu 27º aniversário, sofre novo incremento, com a nomeação do Referido professor da escola Industrial para seu director.

No campo da assistência e do fenómeno recreativo, quatro colectividades com uma acção social importante e que marcam a mentalidade da população torrejana desse tempo: o Clube Desportivo, A Associação dos Bombeiros Voluntários Torrejanos, o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré e a Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas.

No campo do sector económico, a Associação Comercial, dirigida por Júlio Bento e o Grémio da Lavoura, Dr. José Marques, completam o quadro do fim da década.

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