Memorabilia – IX

No dia em que a República Portuguesa deixou de se comemorar como feriado, o 5 de Outubro, na segunda -feira última, fui convidado a, na Câmara de Alcanena, apresentar o livro de meu colega de profissão e amigo, o historiador Jorge Gabriel Henriques. O dia fora, por ele, escolhido, para a apresentação pública. A Câmara, respeitadora da efeméride, responsável pela edição, acedera. O título, Alcanena – Organização e Acção Política (1910-1914), por si revela o tema: a formação do Partido Republicano e a sua contribuição para em, 8 de Maio de 1914, surgir um novo concelho, o de Alcanena, formado a partir de freguesias do concelho de Torres Novas (Alcanena, Bugalhos, Minde e Monsanto) e de Santarém (Louriceira e Malhou).

Independentemente de tal efeméride ser, nacionalmente, menosprezada, com a eliminação do feriado, e o presidente da República Portuguesa Cavaco Silva ter escusado a sua presença na cerimónia realizada no local, Câmara Municipal de Lisboa, onde foi proclamada a República, que, por existir à 105 anos, lhe permite ser presidente da mesma, merece aplauso o Município de Alcanena pela celebração pública da efeméride, com a edição duma obra de excelência sobre esse acontecimento.

O facto é que a monarquia findou, D. Manuel II exilou-se, até à sua morte (Julho/1932), em Inglaterra. Nenhuma revolução, por mais conservadora que fosse, mudou o regime. Não que os monárquicos, por iniciativas revolucionárias, como a de Paiva Couceiro (1912), de Mafra e Bragança (1914), Monarquia de Norte e Monsanto (1919), não tentassem retransformar Portugal num país monárquico. Ou mesmo, após a revolta de Sidónio Pais (1917), a quem apoiaram de forma total, erigindo-o em Presidente-Rei,até ao seu assassinato(1918); ou após o 28 de Maio de 1926, a partir de 1932 (5 de Julho), com a subida de Salazar a primeiro-ministro, que os integralistas lusitanos tentaram inúmeras vezes convencer, principalmente a partir de 1935,a implantar a monarquia, ambos sempre o recusaram, porque o sistema republicano fora absorvido pela mentalidade nacional e fazia parte da alma portuguesa. E mesmo na fase dos totalitarismos europeus, derrotados em 1945 pela vitória dos aliados, (mas que persistiram, à direita e à esquerda até ao século XXI), jamais se colocou a questão de Portugal como República, embora fosse proibido das vivas à mesma e a sua efeméride, festejada anualmente pelos democratas e republicanos, ser fiscalizada pelas forças repressivas do regime ditatorial. Mas o feriado, mesmo nas fases mais duras e repressivas, sempre se manteve. As leituras das séries deste jornal, sobre a efeméride, são curiosas e revelam o pensamento das suas direcções ao longo de mais de um século.

Cremos que é importante relembrar às gerações mais jovens a importância do sistema republicano, baseado na famosa trilogia em que assentou a revolução francesa e que, do século XIX aos nossos dias, foi símbolo máximo dos sistemas liberais e democráticos, maioritariamente republicanos: liberdade, igualdade, fraternidade.

A primeira página do semanário concelhio da época, O Jornal Torrejano, publicado depois da revolução, assim como o Auto da Proclamação da República na Câmara de Torres Novas, a seguir apresentados, são testemunhos duma mudança para o futuro da sociedade lusa, um sinal vibrante de, nesse momento, se concretizar a esperança dum Portugal melhor.

As novas gerações, com outras legítimas preocupações, consideram certos problemas, como um simples feriado, problemas da lana caprina. O passado diz-lhe pouco, por estranheza, também por reais questões de ensino da história contemporânea de Portugal nas escolas nacionais. Quem nasce já numa República e num país democrático, encolhe os ombros ante certos acontecimentos, que, pela distância, parecem nada ter com as suas vidas e problemas e, pelo hábito, fazem parte dum quotidiano que se não questiona.

Enganam-se. Os nomes que assinaram o auto da Câmara de Torres Novas, a 5 de Outubro, eram então jovens como eles e lutavam por algo que ontem era uma utopia, que a luta transformou em realidade, e hoje, algo perfeitamente integrado na vida quotidiana. O hoje, como se apresenta, não existiria sem o ontem, como foi mudado. O respeito pela efeméride é algo indiscutível. E o feriado voltará, mais cedo do que se pensa, por exigência cívica, a sê-lo.

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