Memorabilia -VI

Uma voz que apetece ouvir muitas vezes: Maria Sarmento.

Não é bem a tristeza, não. É antes a nostalgia, essa flor que se oculta no fundo dos poços do Outono. É qualquer coisa de espera sem esperar. Uma saudade anterior a tudo ser de se pôr, como o sol sobre a moldura antiga. Qualquer coisa que a infância toca de maravilha e antecipação. Por isso eu digo que o silêncio é um rio de múltiplos afluentes, e a mulher um vaso de mistério na clara aparição da noite. Há um ventre que a terra segura à raiz milenar da árvore mais alta. Talvez, por isso, o amor não seque e seja sempre mais do que aqui falta. Uma dobra no ramo, um vinco na cortina, uma inquietação atenta, uma lembrança do frio pelas janelas da alma. As aves não abdicam do céu. Há, porém, no movimento do seu voo, no seu baixar de asas, um olhar que se perde. E tudo é presente no que a distância toca de brisa rara. Dizem que é o sopro do vento, eu digo que não. Digo que os olhos não engolem a lua e as flores brotam na escuridão. Flores de sombra, trepadeiras de água.

"Não é bem a tristeza, não. É antes a nostalgia, essa flor que se oculta no fundo dos poços do outono. É qualquer coisa de espera sem esperar. Uma saudade anterior a tudo ser de se pôr, como o sol sobre a moldura antiga. Qualquer coisa que a infância toca de maravilha e antecipação. Por isso eu digo que o silêncio é um rio de múltiplos afluentes, e a mulher um vaso de mistério na clara aparição da noite. Há um ventre que a terra segura à raiz milenar da árvore mais alta. Talvez, por isso, o amor não seque e seja sempre mais do que aqui falta. Uma dobra no ramo, um vinco na cortina, uma inquietação atenta, uma lembrança do frio pelas janelas da alma. As aves não abdicam do céu. Há, porém, no movimento do seu voo, no seu baixar de asas, um olhar que se perde. E tudo é presente no que a distância toca de brisa rara. Dizem que é o sopro do vento, eu digo que não. Digo que os olhos não engolem a lua e as flores brotam na escuridão. Flores de sombra, trepadeiras de água."

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Leia-se devagar, a alta voz. Lembra o brilho da água, a curva da onda, o oceano a contraluz. Palavra mágica, como o vento ou o nome dum filho. Raiz do silêncio, que apetece tecer nos dedos como uma escala musical.

Fascinado com os textos publicados na sua página do facebook comentei: ao ler-te fica-me o espanto das antologias sem ti. Permite-me tornar públicos alguns na minha página. Concedido.

Nascemos ambos na mesma terra. A sua família e eu temos, em comum, a Rua Tenente Valadim, a praça 5 de Outubro, as relações de infância com seus pais e irmãos mais velhos, sempre o combate por uma sociedade mais justa , mais humanizada, mais livre.

Da Maria, mais jovem do que eu, só soube mais tarde da sua condição de poeta pelo Lúcio Vieira. Pela biografia, fica a saber-se que frequentou o ensino secundário na Maria Lamas. As ligações com o Alentejo da família Pinto são inúmeras. Não admira que seja em Évora que se licencia em Português/Francês, se torne mestre em Literaturas Românicas Modernas e Contemporâneas com a dissertação sobre a temática da Natureza em Fernando Pessoa, na Faculdade Social de Ciências Humanas na Universidade Nova de Lisboa. Exerce a profissão de professora do Ensino Básico e Secundário em Évora.

Mas quando li o seu livro de poemas, o Silêncio e as Vozes, senti que Maria Sarmento[1]deveria ser conhecida na terra onde nasceu, onde seus pais e irmãos viveram e alguns, ainda vivem. Acedeu, na época, participar na colectânea 3 Poetas 30 poemas, com o Lúcio e comigo, em 2007, integrar, depois, a Antologia de Poetas Torrejanos, publicada em 2008.

Registo melancólico : muito pouco tem feito o Município de Torres Novas pelos seus artistas e escritores! Ao ponto do prémio de poesia Maria Lamas ter sido transformado num prémio de Estudos Sociais!

Maria Sarmento merece não só que a conheçam, mais do que isso, a publiquem.

Leia-se este belíssimo texto de 29 de Dezembro do ano findo.

Dizem, os poetas e os amantes, que se morre de beleza, e que se pode ajoelhar de liberdade cativa. Eu digo que já morri. Antes ainda que as gaivotas pudessem, com o seu coro, chamar para os bosques os dançarinos e o coro de flautas do vento e das palavras. Folhas que o jardineiro varre incessantemente, das palavras bosque, macieira e romã, e das coisas que se tornam tempo instante, pela magia da linguagem da alma e do sentir do amor. Corpo e espírito de toda a escrita vivida. De toda a vida escrita. Não sou leitora senão de textos que são seres e de coisas que aparecem ao chamamento das palavras e do sonho que lhes vive. Crio a vida a partir da vida, e morro depois.

Ou esta pequena maravilha:

Há poços no céu que te vêem: invertida ampulheta de areia e de vento. Voam sobre o espaço vacilante e sem marcas de asas na paisagem. Canta em redor de si mesma uma canção que é uma barca que traz o mar para o bosque e a brisa para fora do jardim. Toda a palavra é um campo aberto em fogo. Uma transparência de estrada e de incêndio longe. Todo o caminho é cinza, e toda a cinza, luz de caminho. Compor a alma e sentir o morno favo dentro do coração trémulo de um pássaro.

A beleza que anda escondida na voz e na sensibilidade desta grande poeta.

Que esta pequena crónica seja a necessária fenda na muralha do desconhecimento concelhio…

antoniomario45@gmail.com




[1] Maria da Conceição Sarmento Pinto Couvinha nasceu em Torres Novas, a 9 de Novembro de 1954 casada com António Couvinha. Vive e, Évora. Os seus amigos encontram-na na página do Facebook , onde publica alguns dos seus textos e poemas.

Obras publicadas – Escrita na Pele, ed. Gesto-Arte,Évora, 1980; Água na Pedra (colectivo), Ed. Gesto-Arte, Évora; Poetas Alentejanos do século XX (antologia), 1984; Ao Piano do Tempo, in Margens (colectivo), Ed. P&R, Lisboa, 1992;Memória das Naus, Átrio, Lisboa, 1999; Duplo Olhar (colectivo), Aríon, Lisboa, 1997; O Silêncio e as Vozes, Aríon, Lisboa, 1999; 3 Poetas 30 Poemas (colectivo),ed.autor, Torres Novas, 2007; Antologia de Poetas Torrejanos, Ed, Ponte do Raro, 2008.

Integra a equipa do Conselho Editorial da revista Cultura Entre Culturas, desde 2010.

Criou dois blogues pessoais, actualmente desactivados.

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