Memorabilia – 5

Chegam-me, através do Álvaro, fotografias de 1959. A adolescência regressa à memória. Por onde anda a malta do meu tempo? Que foram, após esse ano? Que resultou, não só na continuação do jornal escolar O grasnar do Corvo, como a publicação duma Revista de Finalistas, o primeiro baile aberto no elitista Clube Torrejano a um grupo conhecido pela irreverência e a boémia, a apresentação no palco do actual Virgínia dum espectáculo de arte e variedades, com muito de circo, da farsa, de invenção.

Avenida Marginal de Torres Novas. Colégio de Andrade Corvo. Ano lectivo de 1958-59, Finalistas.

Da esquerda para a direita: Na primeira fila, o Vítor Leitão Machado, o Carlos Paiva da Golegã, o Jorge Marques de Abreu, o Pedro Salter Cid da Chamusca, o Joaquim Pereira Henriques. No 2º plano, o Nelson Lima, o Álvaro Carvalheiro, o António Mário (eu), o Luís Ferreira, o José Luís Alves dos Reis, o Alberto Augusto . Na última fila , o José Alberto-Marques, o Joaquim Brito da Silva, o Bernardim Raposo (de boné), o João Manuel Escabulado,,o José Emílio da Silva, o Joaquim Triguinho, o Nuno Maria Costa, o Valério Pacheco.

No futuro, homens da rádio (O Vítor Machado) , professores (o Abreu, o José-alberto, eu), bancários (o Pereira Henriques, o Álvaro, o Luís Ferreira, O José Luís, o Pacheco, O Alberto), militares ( o Triguinho, o José Emílio). Dos outros, com excepção do Bernardim, que se acoitou na Golegã, perdi-lhes, lamentavelmente, o rasto. Alguns, deixaram-nos de vez: o Alberto, o Luís Ferreira, o Joaquim Brito, o Triguinho.

Desculpem-me se pareço exagerar, quando afirmo: a malta do meu tempo foi uma geração diferente. A Revista dos Finalistas foi um exemplo de como a literatura influenciava parte desse grupo, que, no antigo café Portugal, no café Império, no bilhar do Marujo, do café Central, ou nos matraquilhos do café do Sr. Manuel, frente à antiga Farmácia Lima, continuavam a vida, após as aulas, já que, com raras excepções, muito pouco estudo e demasiada vida boémia, preenchiam o tempo duma geração desperta para a literatura através da influência existencialista da Aparição e outros romances de Vergílio Ferreira, a Náusea de Jean Paul Sartre, do Jornal de Letras, da poesia dum Fernando Pessoa, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Jorge de Sena, do cinema da nova geração dos Cahiers do Cinéma, que nos chegava pelas sessões do Cineclube inaugurado em Março de 1960,, mas também sabiam tudo sobre o futebol nacional. Raros concluíram o 12º ano nesse ano de 1959, outros mudaram de curso e acabaram-no em lições particulares. Na Universidade, os que entraram, nem todos concluíram, outros só o fizeram como trabalhadores estudantes, nem deram figuras exemplares, embora houvesse na vida militar uma figura que, depois de Abril de 74, chegasse a director da RTP e a ministro da educação no 5º Governo, de Vasco Gonçalves; e nas letras, se tenha distinguido ,como poeta maior, com extensa obra publicada, de feição experimentalista, José-Alberto Marques. Foi nessa imprensa escolar de 1958/59, jornal e revista, que a aventura literária de muitos começou, com textos e poemas do José -Alberto Marques, Álvaro Carvalheiro, Jorge Marques de Abreu, o autor desta crónica. Mais tarde, a aventura foi continuada no Cineclube, criado em 1960, no suplemento Contacto de O Almonda dirigido pelo Joaquim Canais Rocha. Mas foi na revista de 1858/59 que foi publicado o primeiro poema concretista português, da autoria do José-Alberto, como consta nas antologias e estudos ,sobre o autor ,de cariz universitário.

O baile de Finalistas no Clube foi, na época, a ruptura com um elitismo em fim de época, que denunciava em parte a decadência duma mentalidade fechada, distante do quotidiano da vila e do concelho, mas que controlava a economia, a sociedade e a política daqueles. As relações

com as filhas dos sócios, que frequentavam o Colégio de Santa Maria, permitiram uma abertura de contactos, namoricos, encontros nas ruas, visitas ás saídas do colégio, levaram a que as famílias daquelas cedessem à manifestação das jovens. A partir desse baile, mudou a mentalidade relacional entre jovens dos dois sexos, que se habituaram a encontrar-se e a conviver quotidianamente.

Desempenhou também papel importante nesta revolução das mentalidades a criação da Escola Industrial de Torres Novas, em 1954,mas fundamentalmente a partir de 1961, quando o novo edifício é inaugurado, em 16 de Julho, nas Tufeiras.

Torres Novas mudou, depois da adolescência da malta da minha geração. Portugal também estava a mudar, com as eleições de Delgado, o começo da guerra colonial, o despertar para a intervenção política, em parte significativa dos que foram finalistas nesse ano de 1959, do antigo Colégio Andrade Corvo, à Avenida. A década de 60 veio a desenhar claramente a ruptura com o passado, que levou ao 25 de Abril.

A que nos leva uma fotografia, meu caro Álvaro!

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