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Apontamentos sobre a colaboração de Artur Gonçalves nos Jornais Torrejanos (3)

O objectivo do jornal “A Renascença” passava por constituir-se como um lugar de diálogo, de justiça e honesta discussão. Procurando fortalecer, deste modo, os verdadeiros princípios republicanos. As ferozes lutas partidárias – que tanto mal fizeram ao país – foram liminarmente arredadas das intenções dos seus redactores.

Na parte final do texto, Artur Gonçalves realça o lema do semanário, que consistia em “ acatar as alheias opiniões quando sinceras, para haver o direito de exigir reciprocidade de procedimento” (“A Renascença”, nº 2, 30/06/1929, pág. 1).

Meses depois, no dia 9 de Março de 1930, um novo semanário “A Mocidade” aparece no convívio dos torrejanos. Revoltados com a degeneração e hecatombe que se abatera sobre as diversas instituições e gentes do país. (O semanário, de José Marques – director e de António Júlio Vassalo – editor, teria uma vida muito curta. Não foi além dos dezasseis números. Possuiu o mérito de congregar uma parte da juventude torrejana de enorme valor).

Os jovens republicanos insurgiam-se contra o abastardamento moral da sociedade portuguesa, onde “os laços de família [estavam] enfraquecidos (…), os caracteres deprimidos e as energias estancadas (…). E o país subjugado à realização de grosseiros e vis interesses materiais”. Pretendiam, através da folha do jornal, dar o seu energético contributo e esclarecimento, a fim de subtrair a Nação do “negrume” fatalista que a paralisara. Encaminhando-a “ no sentido de uma verdadeira harmonia social, de um verdadeiro mundo” (“ A Mocidade”, nº 1, 9/03/ 1930, pág. 1).

Ao longo da vida, Artur Gonçalves mostrara-se sempre receptivo a ajudar os jovens na concretização dos seus salutares empreendimentos. Via plasmados, nesta iniciativa da Liga da Mocidade Republicana, os ideais que fervorosamente perfilhara desde a juventude.

E assim vemo-lo, no ano em que se comemorava o centenário do nascimento do João de Deus (1830 – 1896), a colaborar no primeiro número do hebdomadário “A Mocidade”. Escrevendo um artigo, na segunda página do jornal, em que traça, de forma sintética, os momentos-chave da vida do grande poeta e pedagogo português. Autor da incontornável jóia da pedagogia: a “Cartilha Maternal”. Que ajudou novos e velhos a darem os seus primeiros passos no mundo das letras.

O texto de Artur Gonçalves acompanha o périplo do poeta algarvio (nasceu em São Bartolomeu de Messines) na sua incandescente passagem pela cidade de Coimbra. Onde gastou “ dez anos de vida despreocupada, rindo, bebendo, cantando, tocando guitarra e fazendo versos de uma espontaneidade e sentimentos admiráveis…”. Que contribuíram, no meio coimbrão, para a mítica fama de grande poeta lírico e boémio. (João de Deus, Anchieta e Rafael Pinto Lopes, foram “ os três últimos estudantes típicos, daquele típico lendário que se conserva na tradição e que se perdeu, graças ao progresso que levou a Coimbra o caminho de ferro, as mobílias polidas e o papel a forrar as paredes dos quartos dos estudantes”).

A opção do jornal em homenagear João de Deus não foi inocente. Ele representa o que há de mais puro e místico na alma portuguesa. O seu amor à Pátria levou-o a conceber um dos mais belos presentes para o povo português – a “Cartilha Maternal”. Por isso, “ a mocidade de Torres Novas, associou-se prenhe de insaudável gratidão, à comemoração do seu centenário [João de Deus], completamente despida da ímpia e viscosa lama (…). Procura[ndo] no [poeta] o antídoto das mazelas do passado, (…) a chama, a limpidez, o brilho do seu olhar para com ele eliminar a mentira, o escuro que (n) os envolve.”

O poeta João de Deus destacou-se como um lírico inimitável. Capaz de criar geniais produções em prosa e em verso. Muitas delas perder-se-iam, não fosse o cuidado e a dedicação do seu amigo e admirador Teófilo Braga. Que as coligiu em dois volumes: “Campo de Flores e Prosas”.

Para Artur Gonçalves o autor da “Cartilha Maternal” foi “ uma alma simples, ingénua e bondosa”. Os seus poemas são o reflexo dela: “ versos simples, de uma limpidez de cristal, fazendo-se amar pela candura e espontaneidade, e por isso lhe chamam o poeta do amor” (“ A Mocidade”, nº 1, de 9 de Março de 1930, pág.2).

Estas superlativas qualidades estão na origem da extrema admiração que os jovens torrejanos devotavam a João de Deus.

De Artur Gonçalves registámos no hebdomadário “A Mocidade” mais um pequeno texto. Publicado no número seis do jornal. Tendo com assunto a efeméride do trágico dia 9 de Abril de 1918. Em que as tropas portuguesas foram dizimadas pelo exército alemão, durante a Grande Guerra.

Apesar da derrota a valentia dos soldados portugueses ganhou contornos de enorme heroísmo. A desproporção de homens e do poderio militar entre os exércitos beligerantes era abissal. Artur Gonçalves compara a acção dos portugueses em La Lys com a batalha das Termópilas, travada pelo rei de Esparta Leónidas e o imperador persa Xerxes (o conhecido filme “Os Trezentos”). Nos dois cenários bélicos os soldados não se acobardaram face ao poderoso inimigo. Lutaram com denodada valentia na defesa da sua Pátria, mesmo sabendo que os esperava a inevitável derrota,

Para Artur Gonçalves os militares portugueses mereciam que acerca deles se fizesse algo semelhante ao que foi escrito no rochedo das Termópilas, em homenagem aos guerreiros tombados na célebre batalha. A inscrição diz de forma lapidar o seguinte:“ – Viandante, vai dizer a Esparta que morremos em obediência às suas leis!

Nas suas palavras, “ se epigraficamente houvera de perpetuar-se o luso esforço na batalha do Lys, bastaria gravar na pedra:

Portugal, teus filhos souberam honrar-te morrendo no cumprimento do dever!

Nada mais para a sua glória.” (“ A Mocidade”, nº 6, de 13 de Abril de 1930).

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