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Budapeste, rainha do Danúbio

Praga foi o tema do anterior apontamento. A capital checa serviu-nos de base para um périplo por alguns países da Europa do Leste. Foi lá que iniciámos e, cerca de uma semana mais tarde, concluímos a visita por uma região que nunca nos tinha atraído. Devemos confessar que estávamos errados.

Dedicamos os parágrafos de hoje a esta cidade situada num país cujo nome ouvimos pela primeira vez em 1956, quando da revolta popular contra o estalinismo. Seguiu-se a invasão de duzentos mil soldados e milhares de tanques soviéticos. Recordamos que houve manifestações em muitos países e lugares. Torres Novas não foi excepção, com discursos na Praça 5 de Outubro e desfile da Legião. E, se a memória não falha, da Mocidade Portuguesa. Os clamores surgiram de quase todo o leque político. Sobretudo da direita e do centro, mas igualmente da esquerda. Por exemplo, nomes sonantes do PCF desfiliaram-se do partido. Também o Puskás se exilou em Espanha, onde fez carreira no Real Madrid.

Passámos uns dias em Budapeste e não nos arrependemos. É uma bela cidade, caracterizada pela monumentalidade dos prédios, que lhe dão um ar imperial. Ressalta o Parlamento de estilo neogótico, cujo custo, na época, daria para construir um aglomerado urbano para sessenta mil residentes.

Foi fundada há cerca de dois milénios e nela vivem agora perto de dois milhões de pessoas. Contudo, a actual Budapeste só existe desde 1873, quando a administração do Império Austro-Húngaro agrupou diversos municípios da região e mandou construir pontes gigantescas para ligarem as cidades de Buda, na margem ocidental do Danúbio, e Peste, na oriental. É esta a sua origem.

Conservaram-se construções antigas. Não são raras as casas do século XV que foram reconstruídas no século XVII, como se pode constatar nas ruas Úri, Fortuna ou Országház. Também é surpreendente o número de prédios com fachadas de “Arte Deco” a serem restaurados. Só nos subúrbios é que não conseguiram apagar o péssimo legado da planificação comunista, com blocos e mais blocos de mamarrachos em betão cinzento.

São abundantes as construções medievais em Buda. A zona do castelo, com 750 anos, reflecte a natureza multicultural da cidade. Ali, durante a ocupação otomana (1541-1686), os turcos transformaram em mesquitas alguns dos templos cristãos. Noutra área mais central, pode-se visitar a sinagoga Doháni que é mais recente, mas não deixa de ser a segunda maior do mundo.

As avenidas largas, o ordenamento dos edifícios, a feição quadriculada da disposição viária e a presença do Danúbio fazem que o visitante possa descobrir cada canto sem receio de se perder.

Se os rastos dos invasores hunos e mongóis se esbateram com o tempo, é nestas paragens que deparamos com marcas indeléveis da influente civilização bizantina. Quando, ainda em fins do século XIX, se perguntava a um húngaro se o Oriente começava no país dele, retorquia irritado que era o Ocidente que terminava na Hungria.

Os banhos termais vêm por certo da época dos romanos, mas compreende-se que tenham sido os turcos que trouxeram com eles o hábito da sua utilização. Entre muitos outros spas, mencionamos o Gellért, que é célebre pelos seus efeitos curativos. Abrem todos por volta das seis da manhã e têm uma função social e de relaxação.

Os sibaritas não esquecerão a herança culinária e os excelentes vinhos nacionais. A comida é bem condimentada e aromática, preparada à antiga, com paciência e bom gosto. A gastronomia húngara aparece sempre associada à paprica, mas os cozinheiros magiares talvez abusem deste pó de pimentão-doce semelhante ao colorau português.

Os húngaros têm grande orgulho na sua língua. É um dos raros idiomas ocidentais cujas raízes não são indo-europeias. Tal como o finlandês, pertence ao grupo fino-úgrico da família das línguas urálicas. Deve ser difícil de aprender, pois “bom dia” é “jó reggelt kivànok” e o sistema das declinações inclui dezoito casos.

Durante o Império, Budapest foi uma das cidades mais ricas, cosmopolitas e prósperas do continente. Depois vieram as guerras, o extermínio de 565.000 cidadãos de ascendência judaica (antes eram 800.000) e o período estalinista. Nos últimos anos, “ocidentalizou-se” de novo. Contudo, será prudente não esquecer que o Jobbik (extrema-direita, anti-semita e anti-cigano) obteve 20,7% nas eleições legislativas. Atenção: um em cada cinco húngaros votou nesse partido.

Em conclusão, uma cidade que merece uma visita mas com grandes desafios sociais e económicos. Um milagre ou uma miragem da União Europeia?

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