Memorabilia -1

Plano, nenhum. O imenso olhar pela cidade em que se viveu sempre. Quando era vila, diferente. Quando, nascido na tenente Valadim, aprendera com o cavalo da infância a galopar ruelas torcidas pela acção doutras gentes. Nessa altura nada sabia do passado. A rua era o palco onde descobria os mistérios e os degraus para a as aventuras das viagens dos sonhos. Vivi sempre com livros. Desde cedo, o gato das botas, Aladino e a lâmpada maravilhosa, o Pinóquio, o feijão mágico, a gata borralheira, Sindbad o marinheiro, outros, preenchiam o meu espaço de rua diferente da dos outros que nela passavam imersos nas suas sombras. Relembro a figura de meu avô, a sua bengala  de fino corte, a sua mão prendendo a minha num passeio ao fim da tarde, antes do jantar, até a praça 5 de Outubro. Morreu antes de eu crescer. Uma fotografia desse momento gravou-se-se- me na memória. Na sala de jantar do meu tio Manuel, à Bácora, transformada em local de velório. Uma urna, nela, hierático, solene, meu avô. Em redor figuras indistintas, à luz de velas. Avô, anda passear, disse-lhe. O avô não vai, está a dormir. Não sei quem me tirou do local.

Observo a fotografia que foi capa da revista Nova Augusta na edição comemorativa dos cem anos da República e reencontro-o, mais novo do que quando o conheci, quando o peso dos oitenta anos lhe marcava o andar e a palavra sempre lúcida. Barba e pêra aparada (não fosse ele barbeiro), chapéu recuado alongando a testa , laço de carbonário  marcando a ideologia, figura pequena de maestro da Tuna Torrejana, criada  por volta de 1907, gente de trabalho  que, nas horas vagas, arrancavam das violas, bandolins , violinos, cantigas populares e outras, mais profanas, heróicas, como a Marselhesa ou a Maria da Fonte, que tocaram , por exemplo, como se lê nas páginas de o Torrejano, no dia da implantação da República em Torres Novas.

Há, hoje, no Arquivo Municipal, dezenas de fotografias que guardam na fixidez das imagens, pessoas que, antes de nós, viveram, amaram, percorreram estas outras ruas com outros chãos, outras casas, outras tintas. Pessoas que por sua vez tiveram nome, um lugar de nascimento, famílias. Uma fotografia do passado traz-nos um apelo, é uma voz austera, firme, dizendo: quem são os que mais tarde nos verão, sem saber quem somos? Relembra-me de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, cada geração cria os seus próprios lugares, que, mágicos, são como grutas de tesouros que só aguardam a frase críptica da abertura. Como gostaria, ante a fotografia que observo, dizer abre-te sésamo e, num ápice, a memória do tempo saltar dela e ver estes homens e crianças a tocarem a sua peça musical. E saber-lhe os nomes, como os de meu tio poeta José Lopes dos Santos, o quarto a partir da esquerda, na última fila, um vislumbre de bigode numa cara de marçano que então era nos últimos tempos da monarquia, ladeado pelo seu irmão Américo, de boina, que foi primeiro violino na Orquestra Sinfónica Nacional. Olá pai, na primeira fila, à direita, com a pandeireta do início, tu que te ficaste, ao contrário dos tios, pelo bandolim que guardo entre os meus objectos afectivos. E os outros? Quem eram? Que faziam?

Quantos de nós abrimos, de vez em quando, álbuns de família, encontramos fotografias que nos chegam dos antepassados, e não sabemos quem foram. Quantas vezes nos espreitam, nas feiras de velharias, álbuns que  se transformarem em sombras de sombras . Tanto se perde e, no entanto, o passado, o nosso, deveria  merecer-nos um pouco mais de cuidado e de afecto. Doar, entregar espólios nos arquivos próprios, significa perdurarmos no futuro e não sermos, como nesta fotografia que olho com muita ternura, e também muita ignorância, pessoas que perderam o direito do futuro. Bastava que cada um de nós, nas suas fotografias, colocasse no reverso os nomes dos que as preenchem, as datas em que foram tiradas, os locais que se identificarem. Quando a memória falhar, há uma forma de continuar a memória das pessoas na onda opaca do tempo. Pensemos em mantê-la viva. É  um memorial dos seres humanos. Olá, avô, olá tios, olá pai. E sinto que valeu a pena. São deles a roda do oleiro que me criou.

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