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Lendas Torrejanas em torno de Santo António

A hagiografia é um dos campos mais ricos e cativantes da literatura religiosa. O grande Eça de Queirós sentiu-se atraído por este domínio, deixando na parte final da existência alguns textos versando o assunto. No seu livro “ Lendas de Santos”, o escritor da Póvoa de Varzim, conseguiu recriar de forma superior o clima fantástico e maravilhoso das vidas de S. Frei Gil, Santo Onofre e S. Cristóvão.

Era o retomar de um tema que o afligiu durante a juventude, onde a figura de Jesus Cristo surgia-lhe impregnada “ por uma aurora serena, clara, imensa, purificadora e consoladora” (Gazeta de Portugal).

De entre todos os santos, Santo António (1195 – 1231) aparece como o que maior fama granjeou na nação portuguesa. Ao padroeiro eleito pelo povo de Lisboa, se dirigem as meninas casadoiras pedindo-lhe que interceda para que consigam arranjar um noivo; os que procuram reaver objectos perdidos…

Sobre o frade franciscano escreveram-se, no decorrer dos séculos, diversas biografias dando conta da sua “admirável vida e prodigiosas acções”. Alguns dos casos aconteceram após a morte daquele que é considerado o “luminar maior do céu da igreja, entre os astros menores da esfera de Francisco”.

Em Torres Novas, no bairro que leva o seu nome, existe uma pequena capela erguida em homenagem ao santo popular. Datada dos finais do século XVI, a igreja guarda no seu interior um belo conjunto de azulejos setecentistas, provenientes da antiga fábrica do Juncal, alusivos a episódios da vida e milagres de Santo António.

Perto da porta da entrada, no lado direito, vemos a célebre descrição do santo pregando aos peixes, que se prontificam em ouvi-lo. Outra cena, situada à esquerda do anterior painel, na parede lateral da nave, retrata o caso de um incrédulo que, à passagem do Santíssimo Sacramento, afirmava só ajoelhar se a sua mula o fizesse. O que acontece por intervenção de Santo António.

Também, na parede lateral, vemos o milagre ligado à ressurreição de uma menina afogada dentro de um poço; a Cura de um pé decepado e a Aparição do Menino Jesus. Nas paredes da capela- mor encontra-se representado um outro episódio milagroso atribuído a Santo António: a salvação de um homem da forca.

Mesmo depois de morto, os relatos sobre os milagres do santo são imensos. Na maior parte das cidades, vilas e aldeias do país encontram-se descrições onde está presente a sua admirável intervenção. O livro “ O Sol Nascido no Ocidente e Posto ao Nascer do Sol, S. António Português…”, de António Teixeira Alvares e de Brás Luís de Abreu, refere muitos dos sítios e episódios que aconteceram em torno do santo. Tendo algumas narrações alcançado o estatuto de lendas. E quando entramos no domínio da lenda, a distinção entre a verdade e o inverosímil deixa de ter sentido.

Segundo o ilustre torrejano Mário Martins: “Uma lenda é como uma flor. Não se analisa nem se desfolha. Olhamos para ela e gostamos. Nada mais.” (“Brotéria – Revista Contemporânea de Cultura”, vol. LXIX, nº 2-3, 1959, pág.131).

Na presente obra, publicada em 1725, deparámos com o relato de um antigo episódio ocorrido na nossa terra, que passamos a transcrever: “ Em Torres Novas, vila populosa e notável das de Portugal, na Província da Estremadura, vivia uma mulher incrédula dos Milagres de António, e totalmente alheia à Devoção da sua Santidade. Chegou o dia do Santo; e observando que todos corriam a ouvir missa, e se abstinham de trabalhar em obséquio da sua festividade; ela em ódio da devoção comum, e em desprezo do Santo, carregou com um saco de trigo à cabeça, e se encaminhou para o moinho, dizendo com escandaloso desenfado pelas ruas: Todos vão para a Missa! Todos guardam o dia a Santo António, como se não fora, mais do que um pobre fradinho de boa vida. Atenho-me eu ao meu trigo, que é o que me há-de dar de comer; o Santo António, que esteja lá no Céu; porque ainda agora cá nos não dão os dias Santos. A pouco espaço se levantou arrebatadamente um furioso pé-de-vento, cujo impulso empregado todo na miserável blasfema, a lançou com a carga por terra, torcendo-lhe o pescoço com tal violência, que perdeu ali logo a vida. No mesmo instante o seu anjo da guarda levou o seu espírito à parte de onde pudesse as penas, que se padecem no Abismo, e as que ela merecia padecer pelo desprezo dos Santos. Apenas chegou ao Inferno, que lá sempre se vai a penas, viu posta por sua ordem a variedade dos condenados; que ali só se vê ordenada a variedade; porque o mais naquele horroroso lugar é tudo desordem. Daqui a levou onde se lhe manifestasse a glória dos Bem-aventurados, e os excessivos júbilos, com que na Pátria celestial se celebrava o dia de Santo António. Nisto se gastou todo o tempo, que foi necessário, para que o cadáver fosse levado á Igreja, e nela se lhe fizesse a piedosa cerimónia do funeral; até que estando já para se entregar à Sepultura o corpo, se levantou viva da tumba, e com pasmosa admiração dos circundantes, disse em voz alta a todos, o que a sua alma separada do corpo tinha observado; e com rogos, e a piedades de António fora Deus servido restituir-lhe a vida, para que arrependida das suas culpas merecesse com a penitência delas ir admirar no Céu, a quem tinha desprezado no Mundo” (op. cit., págs. 416 – 417).

Uma outra lenda antoniana, acontecida em Torres Novas, deu-se na véspera do Dia de Reis, em 1652. Pelas vinte e três horas desse dia, uma varanda do desaparecido Convento do Espírito Santo (localizado no final rua Miguel Bombarda) ruiu, arrastando diversas casas sem que morresse nenhuma das serventes do mosteiro que dormiam nas dependências inferiores. Apenas resistiu ao desmoronamento uma parede, que evitou a queda de parte da casa onde se encontrava, na cama, uma religiosa enferma, e uma irmã de caridade que a assistia. Junto ao bloco da parede que não caiu, encontrava-se o papagaio do convento que também escapou à morte. E no momento em que acontecia o desastre só sabia gritar: “ Viva Santo António!”; “Viva Santo António!”.

Não queríamos finalizar o artigo sem que trouxéssemos à curiosidade do leitor uma passagem do citado livro “O Sol Nascido no Ocidente..”, onde é referida a existência de uma imagem miraculosa do Santo António  de entre as vinhas, venerada numa capela junto da vila de Punhete (a actual Constância). Segundo a obra, esta relíquia traz enormes benefícios para a nossa região, pois: “ Evidentes observações têm mostrado, que na ocorrência de grandes necessidades, salta do altar, e vai acudir, aos que invocam o Intercessor, tornando a restituir-se muitas vezes orvalhado, e outras empoado do caminho. Contam-se tais, e tantos casos desta portentosa Imagem…” (op. cit., pág. 450).

É bem viva a presença de Santo António no imaginário colectivo português. Uma figura da igreja que soube formar uma enorme hoste de fervorosos seguidores. A Ele se dirige muitas mulheres e homens do povo em momentos de aflição.

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