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Maria Lamas e a Valorização Intelectual da Mulher

No mês de Janeiro de 1947, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido pela ilustre torrejana Maria Lamas, agitava o retrógrado meio cultural do país, através da organização de um certame, onde foram expostos milhares de livros escritos por mulheres, das mais diversas proveniências internacionais.

Era a primeira vez que em Portugal e, eventualmente, no mundo (segundo o catálogo), acontecia uma exposição desta natureza. Destinada a exibir as realizações femininas em áreas que estavam socialmente limitadas aos homens.

Através do evento, as corajosas mulheres do Conselho, procuraram mostrar que as qualidades femininas não se reduziam simplesmente ao papel destinado pelo Estado Novo: o de mãe e esposa. Reivindicavam para as mulheres o direito a terem uma vida profissional e a serem independentes.

A concretização da iniciativa foi marcada por enormes dificuldades: prevista para o mês de Julho de 1946, só abrirá as portas no dia 4 de Janeiro do ano seguinte. Factores de ordem económica e logística impediram a sua abertura nos meses anteriores. Por outro lado, o número de países, autoras e obras expostas, não atingiu a dimensão esperada pelas organizadoras. Também o catálogo, por razões de tempo e dinheiro, apresentou os livros e as escritoras sem que obedecesse à natural separação por géneros literários.

Mesmo assim o empreendimento conseguiu oferecer um panorama significativo das múltiplas criações femininas no campo intelectual. Fruto do entusiamo e abnegação das mulheres envolvidas no projecto.

A receptividade por parte de alguns organismos nacionais e estrangeiros foi enorme. Contribuindo, através da cedência de livros ou indicações valiosas, para o sucesso do certame. Nesse apoio podemos destacar as Embaixadas, Legações, os Institutos Culturais, o Grémio Nacional, Editores, Livrarias e Bibliotecas (Exposição de Livros Escritos por Mulheres…, págs. 5-6).

A Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa cedeu o espaço onde teve lugar a exposição. Inaugurada no dia 4, estendeu-se até ao dia 12 de Janeiro. Um vasto público afluiu ao local para ver os quase três mil livros das escritoras nacionais e estrangeiras. Cerca de trinta países estiveram representados.

Portugal foi um dos países com o maior número de escritoras expostas. No catálogo estão aproximadamente 134 autoras, que se encontram ordenadas por ordem alfabética. Ocupando as páginas 121 a 158. Cronistas da época apontam para um número bastante superior àquele que o livro descrimina. A França, a Inglaterra e os Estados Unidos estão entre os países com maior percentagem de obras divulgadas. Algumas das escritoras incluídas no certame eram nobelizadas.

Mas o evento não se restringiu à divulgação das obras femininas. Outras actividades fizeram parte do corajoso programa. Como conferências e filmes sobre a vida e obra de mulheres que desempenharam um papel importante na libertação feminina. Entre elas a escritora Virginia Woolf (1882-1941) e a poetisa Florbela Espanca (1894-1930); as lutadoras no combate à deficiência, Helen Keller (1880-1968) e a sua professora Ann Sullivan May (1866-1936); a enfermeira Florence Nightingale (1820-1910); a médica obstetra Adelaide Cabete (1867-1935); a cientista Marie Curie (1867-1934); e a abolicionista Harriet Stowe (1811- 1896).

O discurso de abertura da exposição (como o do encerramento) foi proferido pela ilustre torrejana Maria Lamas, versando o tema “ Algumas Palavras sobre o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas”. Onde fez uma intransigente defesa do papel da mulher na sociedade. Ao arrepio do lugar que lhe era destinado pelo poder instituído. Apelou também à união de todas as mulheres para conseguirem atingir os seus objectivos comuns. Que passavam pela melhoria das condições de vida, a valorização do seu trabalho, e pelo acesso das mulheres à formação intelectual. Até aí, do domínio quase exclusivo dos homens.

O certame representou uma lufada de ar fresco nos costumes do país. Os jornais e as revistas noticiaram o acontecimento com elogios e, em alguns casos, por meio de críticas depreciativas. Chegando ao ponto de rebaixar a capacidade e autonomia feminina. Mas, no cômputo geral, o saldo revelou-se animador. O evento teve a virtude de dar à mulher uma enorme visibilidade social – ao ser capaz de concretizar esta iniciativa, de grande valor cultural e artístico, a mulher portuguesa confirmava a sua igualdade intelectual em relação ao homem. A menoridade a que fora relegada pelo fascismo era apenas consequência de uma sociedade patriarcal, machista.

O Estado Novo reagiu de forma negativa ao êxito do certame, reconhecendo a mensagem subversiva implícita na divulgação pública dos trabalhos criativos da mulher. Por esse motivo a Polícia Política (PIDE), no dia 13 de Janeiro (data prevista para o encerramento), foi às instalações onde decorria a exposição, com a finalidade de apreender os livros e as organizadoras. Só que, deparou-se com as paredes vazias. As activistas fizeram desaparecer de noite os livros e os quadros utilizados na exposição.

Alguns meses depois, o Conselho Nacional da Mulheres Portuguesas era encerrado por ordem do poder governamental. A partir desta altura, Maria Lamas é perseguida pelo regime fascista, que tenta a todo o custo calar a sua voz autónoma. A primeira represália acontece através da sua demissão de directora da revista “Modas e Bordados”. Um longo calvário irá acompanhar a sua vida de militante e incondicional defensora dos direitos da mulher.

Para a história do feminismo, a Exposição dos Livros Escritos por Mulheres simboliza o momento-chave do reconhecimento intelectual das mulheres portuguesas e a tentativa de dignificação dos seus direitos. O facto de se envolverem no arrojado certame valeu-lhes o despertar da consciência para as enormes capacidades criativas e empreendedoras que encerram. Pondo a descoberto a injustificada repressão e ostracismo a que esteve votada durante o período do Estado Novo.

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