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Falando de Exportações e de Importações

Está na ordem do dia, pela voz dos habituais papagaios de janela, que as nossas exportações estão a aumentar a olhos vistos e que a nossa divida começará em breve a ser amortizada fruto desse aumento de exportações.

Não conseguiram amortizar a divida nem diminuir o défice com o produto da venda dos sectores estratégicos como foram a EDP, REN, GALP, CIMPOR, CTT, ANA, ENVC, Companhias de Seguros e Hospitais da CGD e tudo e mais alguma coisa, incluindo os Lixos, estando agora outra vez na calha a TAP, a CP Carga e a Linha de Cascais enquanto a RTP está adormecida para já, e querem agora dizer que as exportações são a tábua de salvação quando a economia mundial está cada vez mais titubeante, especialmente os mercados tradicionais para onde estávamos habituados a exportar. E pior ainda, quando as grandes empresas patrioteiras da grande distribuição importam tudo e mais alguma coisa do ramo alimentar que nós sabemos e podemos produzir e, para compensar o pai que é pobre, até pagam os seus impostos no exterior quando os lucros são por cá gerados.

Era bom que assim fosse e só não é assim porque eles sabem tudo, têm os seus objectivos e não ligam ao que se escreve pela província e por vezes transmite algumas ideias que poderiam ser aproveitadas em tempo útil, passe a imodéstia.

Tudo isto porque neste jornal na edição de 25 de Fevereiro de 2011, precisamente há quatro anos, publiquei um artigo intitulado “Exportar mais, sim, mas importar menos, também!” que passo a transcrever só para avivar memórias adormecidas.

“Desde há algum tempo, sente-se que o Governo, para além de todas as outras operações de marketing, está apostado no incremento das exportações, o que é de louvar.

É sempre uma boa medida para que a balança de pagamentos se desequilibre menos do que já está.

Mas para equilibrar mesmo a balança de pagamentos, por muito peso que as exportações tenham nesse capítulo, o país tem que saber que esse crescimento nunca poderá ser tão expressivo quanto as necessidades.

Se exportar é positivo, que dizer da necessidade imperiosa de se reduzirem as importações? Também é positivo, até porque importamos muito, muitíssimo mesmo, que poderíamos e deveríamos produzir com a prata da casa.

Por exemplo no ramo alimentar, e isso é importante e sintomático porque, a mal ou a bem, devemos comer todos os dias, pode-se fazer muita coisa. Se a produção nacional de produtos alimentares for incentivada como agora estão a incentivar as exportações, acreditamos que as importações podem baixar muito, visto que a esmagadora maioria do que comemos vem de fora. São as batatas, as cebolas, as maçãs, o peixe, muita da carne, os óleos, os cereais e, vergonha das vergonhas, até vinho importamos, e não será tão pouco como isso. Que mal é que nos fará se deixarmos de importar batatas ou cebolas da França ou da Itália, maçãs da China, romãs de Israel, uvas da África do Sul, vinho do Chile ou as papaias, de que falou recentemente o Ministro da Agricultura, do Brasil ou de África?

No bom caminho estão já muitas Câmaras Municipais, mais ou menos de todas as cores, que estão a incentivar a criação e a exploração das chamadas hortas urbanas e biológicas. É bom, porque vai ajudar muitas economias domésticas depauperadas neste tempo de crise, mas é muito pouco.

É preciso que os terrenos à volta do Alqueva, as Lezírias do Tejo, os Campos do Sorraia e do Mondego, as Campinas de Idanha, sejam explorados a sério, para produzirem tudo e mais alguma coisa. Cereais, fruta, hortaliças de todo o género, floricultura, tudo ali é possível fazer em quantidade, em qualidade e a preços competitivos. Terreno existe e água também. Pessoas que sabem e que estão no desemprego, não faltam. É só meterem mãos à obra, que o resto virá por acrescento. Com novas técnicas, com novos métodos, poderemos passar a ter fartura de tudo para o consumo interno e para podermos exportar para a Europa e até para outros mercados, invertendo assim a situação da balança de pagamentos. Até porque, não nos podemos esquecer que os “mercados”, como agora é uso apelidarem-se os especuladores, os agiotas do costume, estão a atacar com toda a força especulativa e desregrada nos produtos alimentares de primeira necessidade. Mais um motivo para agirmos em conformidade, fazendo o que somos capazes de fazer.

Mas ainda no que respeita a alimentos não nos podemos esquecer do peixe. Temos a maior zona económica exclusiva da Europa. Claro que temos que renovar a frota que nos obrigaram a abater há anos. Mas temos estaleiros, temos pescadores que sabem da matéria e temos o mar à nossa volta. O que é que é preciso mais para passarmos a ter peixe de qualidade e quantidade para consumo doméstico e para exportamos para esse mundo fora?

De que é que estamos à espera? Isto só pode levar uma volta com trabalho, com produções acima da média, porque acusados de falta de produtividade, estamos fartos. Criem incentivos para a renovação da frota pesqueira como criaram quando fomentaram o seu abate, combatam as economias paralelas e verão que somos capazes de produzir em qualidade e em quantidade e ultrapassar todos os estigmas da falta de produtividade de que nos acusam. Saibam negociar apoios da U.E. para a renovação da frota pesqueira e tudo se comporá com o tempo.

Temos que saber pensar e ter os olhos postos no futuro. Se amanhã a senhora chanceler da Europa fechar a Auto-Europa, as nossas exportações de que hoje muito se fala, cairão em flecha. Portanto, à cautela, mas também como meio de salvação nacional, que se criem os mecanismos que evitem as importações de tudo o que nós sabemos e podemos produzir, especialmente do que nós precisamos todos os dias para comer e continuarmos a viver com alguma dignidade.

Termino dizendo que incentivar as exportações é importante. Mas, por motivos óbvios, evitar as importações é um paradigma que tem que ser assumido, até porque precisamos e queremos acertar as contas e temos condições para o fazer. E cada dia que passe sem fazermos nada, maior será a divida que nos consome.

A quem nos governa, perguntamos se precisam de mais alguma explicação. E fiquem descansados que não cobro nada pelas ideias. Estão à espera de quê? A Europa pode mandar muito. Mas nós não mandamos nada? Temos que deixar de andar de cócoras e fazer pela vida.”

Depois deste escrito, passaram-se quatro anos, até se mudou de governo e o que é se fez para aproveitarmos todos os recursos naturais que temos à nossa disposição, incluindo o mar, as terras, a água, o clima e bem assim o saber fazer que existe acumulado e actualizado? Nada.

Perderam-se quatro anos e vamos perder muito mais se não mudarmos de azimute. Mas o problema é que alguém está a ganhar com este estado de coisas e o país, que somos nós todos, a perder a olhos vistos. Mas os profetas da desgraça não podem dizer que não sabiam, que não podiam fazer nada, que não foram avisados e mais não sei quê, blá, blá…

É por estas e por outras que isto chegou a este estado. É tempo de dizer basta. Chega.

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