Home > Iniciativas "O Almonda" > I Ciclo de Conferências “O Almonda” – “Almonda, património com vida”

I Ciclo de Conferências “O Almonda” – “Almonda, património com vida”

conferenciaspequenas

Integrado nas comemorações dos 90 anos do jornal “O Almonda” realizou-se, no Sábado, dia 8 de Novembro de 2008, no auditório do Hotel dos Cavaleiros, um ciclo de conferências dedicado ao rio Almonda – “Almonda, património com vida”, que contou com a participação de três especialistas nas áreas de ambiente, arqueologia e agricultura.

 

Ao realizar esta iniciativa a direcção de “O Almonda” acredita estar a valorizar um das principais missões de um jornal local, procurando abordar uma temática que é sempre de interesse local, o rio.

 

“Da Serra à Lezíria, um rio pleno de vida”

 

Fernando Pereira, arquitecto, e que esteve ligado à Reserva do Paúl do Boquilobo durante vinte anos, foi o primeiro conferencista, abordando a temática “Da Serra à Lezíria, um rio pleno de vida”. O Almonda, explicou o conferencista, faz a transição do maciço calcário da Serra D´Aire para a Lezíria, e em que 64,8% do concelho é drenado pelo Almonda. Um rio que se situa 79,9% dentro das fronteiras do concelho, dando-nos por isso «uma responsabilidade acrescida na sua preservação». A Serra D´Aire funciona como uma esponja, absorvendo a água das nuvens, alimentando o rio, e depois este segue depressa até Torres Novas, tornando-se a partir daí mais lento no seu percurso, fazendo meandros, chegando a estar mais baixo que a sua foz no Paúl do Boquilobo. O rio apresenta também um potencial de água que «não pode ser desprezado», considera Fernando Pereira.

 

No seu percurso o rio reflecte a sua vivência com o contacto humano, estando por vezes com um aspecto «desolador», como acontece hoje em dia «na várzea dos mesiões». À medida que o rio se afasta de Torres Novas «vai ficando cada vez mais poluído». A sua fauna é rica, com sapos, salamandras, peixes, e em tempos até já houve cágados. Vivem também com o rio a Garça Boieira, a Garça Branca e a Garça Cinzenta, que têm visto a sua população diminuir à medida que a poluição cresce ou se mantém. O Colhereiro, a Garça Nocturna (em extinção na Europa – só há dez casais) e a Águia Pesqueira também vão desaparecendo.

 

Em 1971 foi realizado o primeiro Simpósio Nacional sobre poluição, e o Rio Almonda já era apresentado como um dos mais poluídos do país. Hoje em dia há problemas como ainda persistem e a Vala das Cordas é um desses tristes exemplos, «Se alguém lá caísse não sairia de lá com muita saúde», avisou Fernando Pereira. O Paúl do Boquilobo é muito afectado mas a Reserva Natural até acaba por funcionar como um depurador natural, mas apesar dos esforços da natureza não consegue resolver o problema. A poluição não vem só das ETAR´s e das fábricas, testemunhou Fernando Pereira, pois encontra-se no rio, e com alguma facilidade, muito lixo.

 

O Rio Almonda tem uma enorme potencial, não é um rio morto «mas pode ser ainda muito mais vivo».

 

“Almonda Património com vida”

 

Francisco Pereira de Almeida é arqueólogo e foi dar conta do trabalho realizado nas Grutas do Almonda ao longo de vinte anos. «Um arqueólogo é um coscuvilheiro da vida das pessoas, das que viveram há milhares de anos». Foi com esta nota bem disposta que começou por apresentar os trabalhos ali realizados. As condições das grutas permitiram conservar os ossos e demais materiais, e com os sedimentos ali encontrados é possível reconstruir a paisagem da época (há milhares de anos).

 

A gruta do Almonda é a maior do país, já com 10 kms explorados, tendo já sido utilizada para diversos fins, desde abrigo a necrópole. Nomeadamente a Gruta da Oliveira é «a mais importante estação arqueológica para o estudo do homem Neandertal do país». Francisco Almeida criticou em seguida a perca de condições que disse que os arqueólogos já tiveram, «Já houve um Centro de Interpretação das Grutas do Almonda, quando a gestão era da STEA (Sociedade Torrejana de Espeleologia, mas neste momento não sei o que é. Em 1997 chegámos a ter condições para ter quatro equipas». Presente na assistência encontrava-se o vice-presidente da Câmara, Pedro Ferreira, que procurou esclarecer a situação, «Na administração do CIGA (Centro de Interpretação das Grutas do Almonda) ainda hoje é constituída por três entidades, o município, a STEA e o PNSAC. Hoje em dia é o PNSAC que faz a sua gestão, como já fez a STEA. Nunca houve uma determinação para que a STEA deixasse de poder usufruir do centro». O arqueólogo queixou-se então da falta de acesso a água potável e António Ferreira, do departamento de Turismo da Câmara, pediu então que se fizesse uma aproximação entre os arqueólogos, a Câmara e o município para que fossem dirimidas todas as questões. Ultrapassada a questão o arqueólogo fez questão de concluir defendendo a prossecução do estudo dos nosso antepassados, «Devemos-lhe o respeito porque só estamos aqui hoje porque elas sobreviveram».

 

Carlos Tomé, também na assistência, propôs que fosse criada uma associação de Defesa do Rio Almonda, pedindo que a iniciativa nascesse da sociedade civil, ideia que o Almonda sabe ter entusiasmado alguns jovens presentes na sala.

 

“Desafios da Agricultura de Aluvião”

 

O Engenheiro Mário Antunes, da Agrotejo, falou sobre boas práticas agrícolas, onde há o respeito pelo meio ambiente, e apresentou os agricultores actuais como utilizadores da terra com preocupações ambientais, apresentando a zona de aluvião, que se situa entre Torres Novas e a Golegã, como «um solo com elevado potencial produtivo».

 

A agricultura da zona é direccionada para o mercado, e, a título de curiosidade, Mário Antunes apresentou alguns dos produtos da região, «Produzimos a maior parte das batatas da Matutano, a cebola aqui produzida é exportada para Inglaterra, somos por isso uma zona de produção “a sério”».

 

Os agricultores são hoje em dia «melhores cumpridores das normas», até porque se não o fazem «perdem o direito aos subsídios», estando por isso interessados em cumprir com todas as normas de Bruxelas. Também a nova lei da água, que introduz os conceitos de “poluidor pagador” e “utilizador pagador” veio sensibilizar mais os agricultores para os cuidados a ter com o rio. Para Mário Antunes «o rio tem potenciais enormes e não é apenas um afluente do Tejo». Entende por isso que os agricultores e os parceiros devem aproveitar os fundos disponíveis do QREN e do PRODER para tornar a agricultura mais competitiva e ecológica.

p1-conferencias-almonda

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook