Home > Colaboradores > Vítor Antunes > Um Malogrado Torrejano Ilustre

Um Malogrado Torrejano Ilustre

Há largos meses que o irreconhecível bloco rectangular de pedra, à entrada da Biblioteca Municipal, clama pelo regresso do nobre busto de Gustavo Bivar Pinto Lopes (1864-1944). Uma desafortunada ausência acontecida desde o período em que decorreram os cento e cinquenta anos do nascimento do ilustre torrejano. Como que a prognosticar o esquecimento a que iria ser votado no ano da sua efeméride.

O que se produziu, em memória de Gustavo Pinto Lopes, limitou-se ao bocejar de frases comprometidas, carregadas de lugares-comuns. E a uma tardia exposição. Sem laivo de honra ou glória! Obscurecendo a grandeza de carácter e espírito de dádiva do homem a quem Torres Novas deve a criação da biblioteca e museu municipal. Bastavam estas duas obras para que houvesse um maior cuidado na solenidade da homenagem.

Mas a dívida torrejana não se restringe a estas duas importantes realizações. Outras foram, e não de menor valor: a amizade intelectual estabelecida com o historiador Artur Gonçalves possibilitou o aparecimento dos primeiros trabalhos de grande envergadura sobre a História de Torres Novas. Muitos dados sobre a vida do concelho torrejano, costumes, arte, tradições, personalidades, etc., teriam caído no limbo do esquecimento, se não fosse o abnegado trabalho conjunto destas duas insignes figuras da nossa terra.

Também poderíamos falar – em jeito de protesto face à apagada comemoração – da heróica passagem de Gustavo Pinto Lopes por Moçambique; ou da reconhecida homenagem nacional, através da atribuição do colar da Torre e Espada. E dos prestimosos serviços em prol da melhoria da vida torrejana, quando desempenhou as funções de Presidente da Comissão Administrativa da edilidade. Numa vida pautada pelo amor à terra onde nasceu e que generosamente serviu.

Ao longo dos anos em que exerceu o cargo de primeiro director da Biblioteca, não recebeu qualquer ordenado. Chegou ao ponto de oferecer livros para que os leitores pudessem ter ao seu dispor um variado leque de obras. O convívio desde a infância com o ilustre torrejano Carlos Reis valeu-lhe a oferta de quadros do pintor, que contribuíram para enriquecer o acervo do museu.

Homem do aparelho político do Estado Novo, sem que daí tivesse resultado quaisquer benefícios materiais, Gustavo Bivar Pinto Lopes morreu a 23 de Abril de 1944, aos oitenta anos, na mais indigente pobreza. O exercício do poder não livrou o ilustre torrejano, e aos seus, da miséria. Ao contrário de muito boa gente partidária, auto-intitulada de democrata, que, nos nossos dias, multiplicaram ilimitadamente a sua fortuna pessoal.

Dedicado de corpo e alma ao saber e progresso da sua terra, não conseguiu segurar o sustento da família depois da sua morte. Teve que ser a própria Câmara a custear o funeral. Bivar Pinto Lopes esquecera-se que os quarenta anos dedicados ao país em terras de África, não vinculava o Estado da obrigação de pagar o funeral do seu leal combatente e honrado administrador. Orçado na irrisória quantia de, aproximadamente, 700 escudos. Dinheiro que a sua mulher e cunhada, não possuíam. Sobreviviam, apenas, com o pequeno montante de 250 escudos mensais, atribuídos pela Ultramarina, através da acção da edilidade.

A indigência em que se encontravam, levou-as a vender a valiosa biblioteca particular do ilustre torrejano. Fruto de muitos sacrifícios e canseiras. Alguns meses após o seu falecimento, os seus livros foram a leilão por intermédio da Liquidadora Fuertes, Ld.ª, Lisboa, no dia 23 de Outubro e seguintes. Perderam-se no anonimato das estantes dos bibliófilos e alfarrabistas obras de enorme importância local. Entre elas, os livros de Artur Gonçalves autografados para o seu excelente amigo, com correcções feitas pelo próprio punho de Gustavo Pinto Lopes. Mais o monumental estudo, do antigo herói das campanhas coloniais, sobre as “Respostas ao Questionário Etnográfico apresentado pela Secretaria dos Negócios Indígenas em Lourenço Marques”, datado de 1924. Com muitas emendas do ilustre torrejano. Para citar alguns dos livros que estão intimamente ligados a Torres Novas.

O ostracismo a que Gustavo Pinto Lopes foi votado, no decorrer da efeméride, tem alguns pontos em comum com a indiferença do Estado Português na velhice do ilustre torrejano. Ao esquecer-se de resguardar da pobreza um herói nacional, “ modelo de virtudes cívicas, de escrupulosa honradez e de integridade de carácter”.

Mas a desfaçatez do Estado Novo, bem vista a situação, foi mais longe! No ano de 1947, o Tribunal de Contas emitiu uma enorme aberração: exigindo que os Vereadores da Câmara repusessem a verba despendida, no funeral, no cofre do município. Com base no argumento de “ A Câmara fazendo aquela despesa, teria excedido as suas atribuições: entre estas, não estava a de enterrar heróis” (“ O Almonda”, nº 1439, 22 de Fevereiro de 1947, pág. 8).

Valeu nesse tempo um coro de vozes descontentes com a gélida ordem ministerial. Uma onda de simpatia e solidariedade aliou-se à causa do herói torrejano. Primeiro, através dos representantes do município, que votaram a favor do pagamento do funeral, do velho herói da pátria e da sua terra. Depois foram os órgãos de comunicação escrita que escreveram mensagens de repúdio perante a ofensiva ordem do Tribunal de Contas.

As notícias tiveram o condão de despertar o Ministro da Guerra e antigos combatentes, que se ofereceram para saldar a dívida infame. Um dever moral impelia-os a prestar as honras a um velho soldado caído no esquecimento e infortúnio.

Também nós, torrejanos, deveríamos estar atentos às efemérides dos conterrâneos ilustres, em letras, ciências, armas e religião. Para que possamos dignificar a sua memória, arrancando-os de um injustificado esquecimento.

Só desta forma podemos sentir o orgulho de termos nascido na mesma terra de ilustres Homens que engrandeceram a Pátria portuguesa. Modelos de virtude e sabedoria para os nossos jovens.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook