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Os desempregados servem para tudo…

Os desempregados servem para tudo e até para fazerem baixar o tal índice de desemprego.

Toda a gente sabe, mas quando se denunciam casos concretos, parece que ficamos todos admirados, porque andamos distraídos, porque andamos a assobiar para o lado e a pensar que o mal só acontece aos outros.

De uma notícia da TSF de 27.11.14, com o título “Provedoria de Justiça acusa a ACT de abusar do trabalho de desempregados”, aparece ali de tudo.

Só na tal ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho, segundo a mesma notícia, existem ali 45 pessoas desempregadas, mas colocadas através de contratos emprego-inserção, assinados com o IEFP, a desempenhar funções caracterizadoras de “postos de trabalho” e “essenciais às atribuições” desta entidade pública que “tem por missão” fiscalizar e promover “a melhoria das condições de trabalho”.

Mas a mesma fonte ainda denuncia que “Escolas, centros de saúde, câmaras, juntas de freguesia, Segurança Social, para além da ACT, recorrem a desempregados para assegurar postos de trabalho considerados “essenciais”. E diz também que o Provedor fala em abusos “flagrantes” na Administração Pública e admite “nova forma de precariedade laboral”.

“O documento, do Provedor de Justiça, fala em inúmeras queixas de desempregados a ocupar postos de trabalho considerados “essenciais” para o funcionamento de escolas, centros de saúde, câmaras municipais, juntas de freguesias. Há ainda registos de 38 colocados na sede, em Lisboa, da Segurança Social.”

“Nas escolas, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares admite que muitas só funcionam porque têm estes desempregados a trabalhar. Manuel Pereira explica que há anos que saem auxiliares educativos e ninguém entra, a não ser os desempregados colocados pelos centros de emprego.”

“Há muitas escolas que só estão abertas graças a estas pessoas, apesar de ser também um problema grave pois estamos perante desempregados sem qualquer formação para trabalhar com crianças.” O problema agrava-se porque, conclui o representante dos directores escolares, muitos vão trabalhar “obrigados pela Segurança Social”.

E depois, para concluir, estes desempregados a “desempenhar funções efectivas” recebem para além do mísero subsídio de desemprego, uma bolsa mensal de 84 euros, mais subsídios de transporte e de alimentação, e deixam assim de contar para o índice de desemprego. Portanto, trabalho mais barato do que este só se fosse mesmo de borla.

De facto, e esta situação não sendo nova pois já se vem a arrastar desde 2002, segundo a noticia, o certo é que cada vez se multiplica mais nos variados sectores dos serviços públicos. É certo que ainda não parecem constar desempregados a desempenhar funções essenciais nas forças policiais, nas forças militares ou militarizadas, nos tribunais e até na Provedoria de Justiça. Mas por este andar, qualquer dia os organismos até podem deixar de ter quadros de pessoal e socorrerem-se dos desempregados para desempenhar as tais tarefas “essenciais”.

E, se assim for, se chegarmos a esse extremo, os encargos com o pessoal, nos serviços públicos, baixarão drasticamente à custa dos que menos podem, menos têm e menos são ouvidos. É o costume.

Só resta saber se os privados, especialmente as chamadas grandes empresas, não podem recorrer a este estratagema ou até se não estarão já a servir-se deste banquete barato. Mas de facto a notícia é omissa neste campo pelo que não se podem fazer conjecturas.

Portanto, nas circunstâncias actuais, os desempregados servem para tudo e até para fazerem baixar o tal índice de desemprego e ninguém, para além do Provedor de Justiça, se importa com estas situações escandalosas.

Haja Deus.

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