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Memórias (167) – Como era a Praça 5 de Outubro

Na década de sessenta a Praça 5 de Outubro era bem diferente da moderna praça de hoje.

Tal como agora, era para ali que confluiam muitas famílias nos serões de verão e por ali passeavam e ocupavam os bancos de madeira ali existentes.

Os mais jovens reuniam-se e brincavam, porque a Praça 5 de Outubro dessa época tinha um tabuleiro central com calçada portuguesa e este era circundado por uma via, por onde fluia o trânsito ficando nessa altura a praça de táxis do lado do agora Banco Santander, na altura ainda ali inexistente e onde se situava a Pensão Grandela, de que guardo algumas ténues memórias, menos dos proprietários e mais das suas bonitas filhas, que eram das garotas mais bonitas e elegantes na vila de então.

Como escrevia, os mais jovens ao ter ali à mão uma via com pouco movimento, na altura em que passar um carro era notícia, transformavam a mesma em pista de atletismo e ali aconteciam provas de velocidade, de meio fundo e até de fundo, estas mais longas, que se concretizavam com voltas à avenida marginal, com subida até ao Salvador após a ponte da Levada e chegada à meta colocada na referida pista da 5 de Outubro, todos transpirados e a deitar os bofes pela boca

Que me lembre havia um rapazito que ganhava regra geral estas voltas à avenida, que era o Jorge Serra, mais tarde funcionário do Banco Espírito Santo e agora reformado como eu. Era um puto danado para correr. Penso que nunca participou em nenhuma prova federativa, mas que se perdeu ali um bom atleta, disso não tenho dúvidas.

Nessa altura ainda não existiam esplanadas dos café e restaurantes como hoje acontece, porque havia mais o hábito de frequentar as Pastelarias Império ou Abidis ou então ir tomar um cafézinho e passear no jardim municipal.

Onde está hoje a Albergaria dos Cavaleiros existiu muitos anos o Armazém de Tecidos de Torres Novas, dos senhores Bernardino, Costa e Artur Gonçalves isto no rés do chão, porque no primeiro andar funcionou bastante tempo a chamada Policínica, clínica particular com bons especialistas médicos. Ainda no rés do chão logo ao lado dos tecidos, existiu muitos anos a Papelaria Vitória, bem conhecida pela estudantada que tinha o seu ninho na Salvador.

À esquina e à direita quando se sobe para a Câmara, existiu a Casa de Petiscos so Bué, casa afamada pela qualidade dos comes e sobretudo dos bebes e muito frequentada pelos amigos do copo que antigamente existiam e que hoje estão em vias de extinção pois a tradição já não é o que era.

Ao lado e já na subida para o monumento a Gil Pais, existia a loja do senhor Pinto, de venda de artigos selados e diversos outros artigos que não recordo.

Para quem vem da ladeira do Salvador e à sua esquerda, havia a Papelaria Gil Pais e a relojoaria Inácio que ainda persiste, muito frequentadas na época.

Depois onde hoje está o Posto de Turismo, lembro-me de ter existido a Biblioteca Municipal com o amigo Francisco do Rosário como encarregado e mais tarde o posto da Polícia de Segurança Pública que anteriormente esteve a meio da já referida subida da Levada para a igreja do Salvador.

Havia e ainda hoje ali se encontra uma loja do ramo, a loja do João dos Vidros, figura também muito típica e respeitada na vila.

Temos depois o monumento aos Heróis da Grande Guerra, agora com jardim alindado de forma mais moderna, mas onde se conserva o essencial.

Para quem desce do João dos Vidros para a praça, ali havia o consultório do médio José Robalo Mendes Sentieiro a que acorriam entre muitos outros os candidatos a sócios do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré para fazerem o então obrigatório exame médico para admissão na Colectividade.

Mesmo à esquina havia a Barbearia de Alfredo Farinha Cardoso, local de encontro de toda a classe média alta da vila, local de tertúlia obrigatória dos orfeonistas do antigo Orfeão Torrejano, que depois iam refrescar as goelas à tasca do Zé da Ana, a catedral copofónica desta terra.

Ao lado da Barbearia a não menos famosa Farmácia Lima, que nos faz recordar o Dr. Pontes e muitos dos seus empregados, como a D. Lurdes, o Coutinho e o Joaquim das Lapas,

Do lado de lá da esquina situou-se o Manuel do Café, fervoroso benfiquista, na cave do antigo Restaurante Rogério, hoje Hotel de Torres Novas.

Foi nesse café que estava sempre cheio à noite porque tinha o jogo de matraquilhos e porque tinha televisão, que vi, na televisão a preto e branco, a final da Taça dos Campeões entre o Barcelona e o Benfica, que o glorioso ganhou por 3-2. O Benfica era campeão da Europa nessa noite e toda a gente festejou na rua esse enorme feito. E digo toda a gente porque fomos todos para as ruas, benfiquistas e sportinguistas porque portistas ainda havia muito poucos nessa altura.

Esse café deu depois lugar à sede da Sociedade Columbófila Torrejana, que se transferiu do andar superior, para dar lugar ao alargamento do Restaurante Rogério e ali estava a Pensão Rogério, muitos anos a melhor e mais famosa pensão da terra, que acolhia caixeiros viajantes e outros forasteiros e onde se realizavam grandes festas, casamentos e batizados e onde o falecido Rogério da Costa estava sempre presente com a sua famosa frase: “Sempre a considerá-lo”…

A seguir ao Rogério a Foto Flash do senhor Agostinho Santos, depois café, ramo que hoje ali se mantém. Depois a Pensão Torrejana, da qual me recordo dos proprietários e sobretudo do seu filho, de nome Fanã, pessoa muito conhecida no desporto local.

Este local foi mais tarde Centro de Juventude e sede do Choral Phydellius na altura do 25 de Abril de 1974.

Por cima da Pensão Torrejana lá continua ainda hoje o Clube Torrejano, das mais antigas colectividades locais. Também ali cantei com o Conjunto Niger, numa festa de finalistas do Colégio Andrade Corvo e foi ali que comi pela primeira vez, teria os meus doze anos, maionese de lagosta, cujo paladar jamais esqueci. Era cozinha fina e requintada e eu claro que tive que aproveitar…e então de borla, nem se olhou a dente.

Continuemos a andar e por detrás da Império, morou muitos anos o Carlos Sirgado (Néné), motorista de praça conceituado, muitos anos motorista do Conjunto Níger, um grande torrejano e um bom profissional.

Antes de concluir no actual banco, havia ainda uma Casa Bancária

do senhor Carvalho, anteriormente gerente do Banco Totta, ali ao lado.

Com mais ou menos pormenor é esta a minha memória da Praça 5 de Outubro da década de sessenta do século passado.

Ainda hoje por ali passo, ainda hoje frequento os seus cafés, hotéis e esplanadas e sobretudo ainda hoje me revejo ali, jovem, com sangue na guelra a frequentar a columbófila e a brincar, correr e saltar com toda a malta do meu tempo.

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One thought on “Memórias (167) – Como era a Praça 5 de Outubro

  1. Obrigado por poder, através das suas palavras, recordar o que me fez tanta falta. Faço 70 anos no próximo dia 15 e tenciono alojar-me em Torres Novas afim de poder despedir-me do meu imaginário,da Rua das Freiras onde eu ia à Rosa Padeira comprar o pão e por onde caminhava para em casa da Benedita Maia aprender as primeiras letras, hoje tornou-se difícil recordar as mil e uma pessoas que preencheram a minha meninice. Grata

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