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A Imprensa Panfletária Católica nas Eleições de 1958 (4)

Como seria de esperar, as eleições presidenciais de 1958 resumiram-se a uma enorme farsa. Desde o início da campanha os apaniguados do Estado Novo socorreram-se de práticas fraudulentas, não se inibindo de utilizarem o roubo e a violência com o objectivo de manipularem os resultados. O próprio General Humberto Delgado, numa carta dirigida ao presidente da República, Craveiro Lopes, denunciou as irregularidades cometidas pelos esbirros do governo durante a campanha.

Muitos destes vergonhosos episódios tiveram eco na imprensa estrangeira que, unanimemente, classificou “o regime português de ditadura fascista e as eleições de burla monstruosa”.

A escandalosa fraude fez-se ao mais alto nível do Estado, apresentando como testa de ferro o Ministro do Interior. Um mero títere nas mãos do sinistro Presidente do Concelho, que manobrava, maquiavelicamente nos bastidores, todo o processo eleitoral. A ignominiosa urdidura contou também com o conluio de muitos Governadores Civis e Presidentes das Câmaras Municipais, embriagados pelo exercício de um poder arbitrário e corrupto.

Em Portugal Continental apenas o Governador Civil do Distrito de Santarém assumiu uma postura independente e séria. O facto de Humberto Delgado ter conseguido neste distrito a sua melhor votação (35,6 %), ganhando em cinco concelhos (Santarém, Cartaxo, Alcanena, Almeirim e Alpiarça), não foi fruto do acaso. Os círculos eleitorais fora da alçada do poder central, estiveram mais receptivos aos apelos do ilustre torrejano. Mas a máquina de corromper do Estado Novo revelou-se implacável.

Um panfleto, surgido alguns dias depois do início da campanha, procurou denunciar o esquema fraudulento em curso. Tem o título “ O QUE são as ELEIÇÕES do ESTADO NOVO!…”. Transcreve na íntegra um Comunicado publicado no jornal “O Comércio do Porto, em 13 de Maio de 1958. A célebre circular confidencial dirigida pelos Governadores Civis aos Presidentes das Câmaras Municipais. Um verdadeiro manual de baixeza e embuste eleitoral perpetrado pelo regime fascista.

Para o Estado Novo, as eleições tinham que sorrir ao candidato do regime, não se importando com a natureza dos meios para conseguir o intento. Nenhum impedimento moral demoveu os representantes governamentais de conseguirem a vitória do almirante Américo Tomás. Foram constantes os abusos e irregularidades cometidos durante a campanha. O tacticismo do regime levou-os a criar obstáculos à oposição para que não pudessem exercer o seu direito voto.

O panfleto é pródigo em exemplos que sugerem uma ostensiva manipulação eleitoral por parte dos Presidentes das Câmaras. Numa passagem do texto, são dadas indicações aos representantes executivos para que a localização das assembleias eleitorais facilitem o exercício de voto dos “eleitores de confiança”; obrigando os “eleitores adversos” “ a calcorrear quilómetros e quilómetros para o poder fazer”.

Outro estratagema, passava por colocar homens de confiança do regime – legionários e dedicados nacionalistas – nas assembleias de voto, para “intervirem, em qualquer processo para acabarem repentinamente com qualquer oposição organizada ou atitude hostil que [pudesse] surgir”. A palavra de ordem era “ ganhar, por grande maioria, custe o que custar…”.

Descoberta a secreta trama, os serviços de candidatura de Humberto Delgado informaram o povo português de mais uma traição contra a sua boa-fé e consciência. No final do texto pedem aos portugueses para que se insurjam contra a fraude que o Estado Novo arquitectara.

Como verdadeiros católicos não podiam aceitar a permanente miséria e o obscurantismo reinante. O povo era digno “ de uma vida melhor!”. O regime fascista sob a falsa capa do catolicismo, tinha-o reduzido a uma situação miserável, “ ultrajando o EVANGELHO e a grande ENCÍCLICA do saudoso e inesquecível Pontífice Leão XIII. “ Consideravam que “ a um Católico de consciência bem formada, [repugnaria] aliar-se a uma Situação Política que arrastou Portugal para [a miséria] e o caos social.”

Todas estas acções de sensibilização não foram suficientes para que se operasse uma mudança de governo no país. A fraude eleitoral de 8 de Junho de 1958, roubou ao povo português a esperança de ter uma vida melhor. Mas não conseguiu calar muitas vozes dos mais diversos quadrantes sociais. Indignados pelas ilegalidades cometidas durante a campanha.

Próximo do final de Junho, um grupo constituído por “umas centenas de signatários” descontentes, envia ao Presidente da República em funções, um documento de enorme importância para a história das eleições de 58, onde expressam o seu sentimento de repúdio pelos abusos, irregularidades e violência dos sectários do regime.

Numa das folhas, destinada às assinaturas dos signatários, encontram-se os nomes dos três torrejanos que foram os rostos da campanha de Humberto Delgado, no concelho.

O texto é uma forte denúncia dos esquemas fraudulentos utilizados pelo Governo no acto eleitoral. Um dos casos referido, descreve o caricato episódio da eliminação “ de muitos milhares eleitores das listas com o nome de Humberto Delgado, sobre o pretexto, ridículo e revoltante, de que eram diferentes na cor do papel e, na grande maioria dos casos, porque tinham menos de dois milímetros de cumprimento.”

A parte final do comunicado acusa o novo governo de “estar moralmente destituído” de funções, exigindo, desta forma, a realização de eleições livres e o “cumprimento do artigo oitavo da Constituição”.

(Continua)

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