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Se isto não é AMOR!…

História verídica, narrada com dificuldade e sem contornos de qualquer tipo de romance.

Setembro.

Aeroporto de  Schiphol de Amesterdão.

Vindo de Timor teria que por ali esperar cinco horas até apanhar avião para Lisboa.

Num bar apinhado de gente de todas as raças e origens, sentei-me na única mesa disponível.

Fiquei só e entretido na leitura.

Passados breves momentos, levantei os olhos e percebi que teria companhia.

Um casal aproximou-se.

Surpreendi-me porque a senhora vinha em cadeira de rodas, conduzida pelo companheiro.

Ambos, sem o parecer, terão mais de 70.

E ambos elegantes e bonitos. Ela, apesar de tudo, tem a memória física de uma jovial beleza que o tempo disfarçou, mas não matou.

A senhora tem problemas de saúde e sérios. A sua expressão de profunda tristeza, estampava-se numa cabeça trémula, que deambulava quase descontrolada sobre os ombros magros. Mas elegantes, como toda ela.

De olhos azuis, por vezes escondidos pelo cabelo louro que desordenadamente lhe caía sobre a face, com a ajuda do companheiro, levantou-se da cadeira. E, nesse instante, o susto foi ainda maior… o desequilíbrio era tal, que parecia que cairia a todo o momento. Dava essa impressão, mas os pés estavam bem colados ao chão e isso era a garantia da sua segurança.

Ficaram ambos à minha frente naquela estreita mesa de madeira. Que não esquecerei e onde voltarei…

Ele levantou-se e sempre com o olho nela, foi ao balcão buscar água.

Dois copos de plástico na mesa. O dela com palhinha.

O esforço que ele fez para lhe conseguir colocar a palhinha. Mas conseguiu e ela, com muita dificuldade, sorveu a frescura da água. Acto contínuo, ela com a cabeça sempre deambulando, estendeu o trémulo braço direito dirigida à face do marido e, com a mão bem aberta, acariciou-a. Ele responde-lhe com um olhar penetrante de “estranha” felicidade, com uns olhos que brilhavam como duas pérolas.

Pediu mais água e ele repetiu o gesto. Ela voltou com a mesma ternura, a mesma mão, o mesmo gesto. Ele sorriu. Ela sorria.

Perguntou-lhe se queria chocolate. Sim, foi a resposta.

Sentado, já com o pequeno chocolate, levou-o à boca e trincou-o. Molhado com a sua saliva, tentou e conseguiu com a ponta dos dedos, colocar-lhe na boca aquele pedacito… percebi o pormenor da saliva… a sua preocupação para que ela não se engasgasse. E ela de imediato lhe agradeceu com a carícia mais linda que se pode imaginar… aquele braço trémulo de novo se esforçou para que ele lhe oferecesse os olhos brilhantes de felicidade. Azuis, como os dela. Louro, como ela. Desta vez, para além da face, também a perna dele mereceu um gesto trémulo, mas lindo.

E os gestos, de ambos, repetiram-se até não haver chocolate.

Passaram-se poucos minutos… o diálogo era pouco (ela tem dificuldade em se expressar) e aconteceu o desagradável…

A senhora teve uma sequência de inesperados espirros e a sua face ficou banhada do ranho que o nariz expulsou… a vergonha foi grande. Corou e conseguiu com as mãos esconder a face bonita…e o resto. Simultaneamente, grossas lágrimas caíam-lhe e misturavam-se com a oferta do nariz. A senhora chorava. E chorava…

Ele, sereno mas rápido, levantou-se e foi buscar guardanapos de papel.

Com a maior ternura do mundo, de cócoras, limpou-lhe a face e, meigamente, limpou-lhe os olhos e devolveu-lhe a beleza e a memória de outros tempos. Olhou para ela com um grande sorriso, puxou-a a si, abraçou-a e deu-lhe um expressivo beijo naquela testa coberta de cabelo desgrenhado.

Que beijo aquele… e a senhora voltou a sorrir…

Ajudou-a a levantar-se. Mais uma vez temi que caísse.

De mão dada afastaram-se lentamente.

Não me esquecerei desta cena: a de uma mulher que caminha de tal forma, que mais parece forçadamente puxada pelo companheiro… que se perdeu no meio da multidão do aeroporto de Amesterdão… talvez com destino ao Oriente…

Se isto não é Amor!…

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