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Quem nos protege dos camaleões tóxicos?

Será que alguém ainda acredita na restruturação da casta dirigente portuguesa? Acabar de vez com o combóio de privilégios, mordomias, coutadas partidárias e sociedades secretas que a caracterizam? Será que a nação se vai libertar das verborreias socráticas, das enguias antonianas, dos Costas do castelo ou dos ricos espíritos divinos? Que mais será necessário para revelar os tótemes e tabus que amordaçam o país?

A promiscuidade entre o poder político e os bancos é indesmentível. Somos dominados por um sistema onde suseranos e vassalos vivem à custa dos servos da gleba. Temos testemunhado que a conservação do poder parece ser mais importante do que os apregoados “amanhãs que cantam”.

Por detrás deste cenário, deparamos com a imagem de um Estado desacreditado, com uma justiça circense e um fisco na raia da ilegitimidade. Não se protege o que quer que seja e exige-se o pagamento de taxas e impostos sem que os contribuintes sejam tidos nem havidos.

Há muito que a sociedade lusa transpôs as fronteiras da decência. É rara a semana em que escândalos das mais variadas espécies não venham à tona. Ninguém tem vergonha. A gestão do Estado, das autarquias, das empresas públicas, das PPPs, de quase todas as instituições ligadas ao governo, tem sido marcada por cenas espantosas. Continuamos à espera que alguém meta os criminosos na prisão, que sejam investigadas as fontes de tanto novo-riquismo.

A política está para o poder, como os gatos para o bofe. Ambos são persistentes nesta predisposição. Vemos então os políticos transformados em camaleões. Tal como esses répteis, possuem a capacidade de mudar de cor e confundir-se com a paisagem circundante. Claro que isso acontece porque sustentam fartas divisões de blindados nos mídia, tanto a nível nacional como local.

Esta gentinha anda em perpétuo corre-corre e desenvolveu o dom de farejar, a léguas de distância, o cavalo à frente da carreira. Se os tarecos têm mil habilidades para fugir aos cães da guarda, os camaleões usam a língua comprida e certeira para papar tachos de insectos.

Contudo, a função principal deste procedimento não é apenas o mimetismo mas uma modalidade de comunicação entre congéneres. Troca-tintas atraem troca-tintas. Ponto final, parágrafo.

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O circo começou. Sejam bem-vindos ao espectáculo da política mais rância e antiquada que se consegue imaginar. Venham para ver como os argumentos requentados do oportunista-mor passam ao lado do debate. Perguntam-lhe como vai liquidar o calote e a resposta nunca corresponde à pergunta.

Um apoiante doméstico vai mais longe nestas mestrias, pois tem por prática usar insultos e ataques pessoais, com as veias do pescoço a incharem. Porém, não tanto como o seu “ego”.

Abundam fracturações profundas que se encruzam e que dividem a sociedade portuguesa. Pensando bem, a história demonstra que somos um povo de polarizações e de mil capelinhas. Com efeito, a politiquice tuga das últimas décadas é sinónima de conflitualidade e discórdia. E temos de reconhecer a irresponsabilidade das lideranças que não perdem uma ocasião para escavar ainda mais as fissuras entre os cidadãos.

Por vezes até terão boas ideias, embora fosse útil que alguém os fizesse acordar de autênticos delírios. Por exemplo, no que toca ao pagamento de dívidas. A verdade nua e crua é bem diferente e, para desgraça de todos nós, temos de viver num mundo real.

Há épocas em que se pode mentir sem perigo, pois a exactidão deixou de ter amigos. Portugal já lá chegou. Será que os votantes não se preocupam com o aumento do número de embustes? Ignorarão eles que, na boca dos políticos, o espaço entre o que dizem e o que fazem é quase sempre enorme.

Conhecemos eleitores que se comportam como os coelhos à noite. Andam hipnotizados, assustados pelos faróis dos carros. Quando menos esperam, ficam esmagados.

De aqui a umas semanas, alguns portugueses serão chamados às urnas. Com líderes deste calibre, disponíveis para subir ao poder a qualquer momento, podemos dormir descansados. Quem votou e votará nestes passarões que dizem bater-se contra o neoliberalismo mas que, de igual modo, são a prova provada do novo-riquismo, podem também dormir em paz e de consciência tranquila.

Evitam pesadelos, não pensando no futuro. Intrujados e roubados, raros são os que reagem com a frontalidade requerida. Apenas se irritam com as picadas das melgas. Sem lugar a dúvidas, é mais fácil acreditar no Pai Natal. Mesmo no verão.

De uma maneira ou outra, boa noite e boa sorte!

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