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A cada pé o seu calçado

Os meus sapatos ao longo de toda a minha vida dão para vos contar uma história simpática e agradável e são para mim, como para cada um dos leitores que se quiserem lembrar dos seus, uma boa experiência para exercitar a sua memória.

E a memória do meu calçado transporta-me à minha meninice, passando pela adolescência, pelo tempo de tropa, pelo desporto, pelas artes de palco, pelas várias profissões que exerci e agora pelos tempos de reforma e já lá vão mais de doze anos deste meu novo estado a caminho da velhice, pelo menos.

Para vos falar dos primeiros sapatos de que me lembro, foram umas sandálias de criança, de calfe branco, com furos feitos de forma artística, que calcei quando tirei uma foto no saudoso fotógrafo Campos, na Rua de Santiago em Torres Novas. Na foto que refiro nem são as sandálias brancas que mais chamam a atenção, mas sim a minha abundante cabeleira, cheia de caracóis, a fazer lembrar um pouco os tempos do Marquês de Pombal.

Por volta dos sete anos devo ter usado uns sapatos em bom cabedal e umas botas que me lembro terem servido à maravilha para jogar com bola de trapos e à falta desta, até as pedras serviam.

Muitos sapatos estraguei eu, nesses anos joviais, e o que me valia era meu pai trabalhar com solas e cabedais, minha mãe ser ajuntadeira de calçado e eu viver cercado de bons sapateiros, que a casa de Joaquim da Silva Patrício tinha por essa altura. E quantas horas  eu perdia ou ganhava a vê-los trabalhar, a ver nascer ali mesmo, feitos à mão, belos pares de sapatos de homem e senhora e belos botins e botas altas. Recordo os nomes de Manuel Marcelino, do Nicolau da Ribeira e de António e Joaquim oriundos do Pedrógão e Alqueidão os sapateiros da altura.

Tinha eu oito anos de idade, 1955, participei numa récita promovida pela catequese e pelo senhor padre Búzio. E nessa récita usei pelo menos três tipos de calçado numa assentada. Uns sapatinhos pretos envernizados, para participar como Pinga Pinguinhos na peça de teatro, uns sapatos de cabedal ensebado próprio para campinos, com esporas e tudo, pois fui cantar nessa noite o Fado de Vila Franca, que começava assim: “Barrete verde e jaqueta…”, Ainda no mesmo evento, mudei para umas lindas sandálias castanhas, muito bem engraxadas, próprias para dançar o Baião “Saia bonita de renda de bico, põe a laranja no chão tico, tico …”, com uma baiana muito gira a Ana Maria, que comigo fazia par, cantávamos e éramos o par principal.

Depois aos 18 anos, recordo a história já aqui contada de meu pai, ter ido a uma sapataria e ter saldado uma dívida com quatro belos pares de  sapatos, novíssimos e na moda, todos cá para o rapaz. Para mim foi uma fartura e apetecia-me gritar: “Sapatos há muitos, seu palerma”, lembrando Vasco Santana com a história dos “Chapéus há muitos !”.

Depois veio o futebol juvenil em que calçávamos umas sapatilhas para uma bola de borracha “Pirelli” e em que, na selecção da equipa de juniores do Clube Desportivo de Torres Novas, num jogo realizado na aldeia de Mata, os jovens torrejanos defrontaram a equipa sénior da Mata, equipa onde jogaram três tios da minha namorada de então, o Jorge, o António e o Fernando. Empatámos um a um e foi aí que, pela primeira e única vez na vida, calcei botas de futebol a sério, com travessas e alguns pregos, que nos roíam os pés e os calcanhares. Mas como corria por gosto, nada me doía, até uma valente bolada um pouco abaixo do umbigo me ter feito tal estrago que a minha promissora carreira de médio de ataque, acabou ali mesmo e em meias, pois os pés incharam tanto que as botas não me serviam.

Depois desta experiência dolorosa, vieram as botas da tropa em Santarém, onde a lama era tanta, que levávamos horas a engraxá-las para podermos sair à noite.

Depois da tropa os sapatos de luva, que de atacadores fiquei eu farto na vida militar. E certa vez, no Shopping de Cascais, recordo ter ficado enfeitiçado por um belo par de sapatos castanhos, italianos e a um preço em conta. A minha mulher bem me avisava que aquilo lhe parecia uma fartura para tão pouco dinheiro, mas eu, teimoso, lá comprei os sapatos e logo ali os calcei.

O pior aconteceu à noite, ao deitar-me, reparei que os sapatos estavam todos gretados, a flor da pele toda enrolada e desta feita o enrolado fui eu… Toma lá que é para aprenderes !.

Com a reforma, os sapatos tem que ser mais confortáveis e em casa os chinelos já tomaram a primazia embora ainda os não arraste.

Esta é uma história bizarra, que alguém me desafiou a escrever e aceitando o desafio, aqui a deixo, com amizade, sugerindo aos leitores que o desejem, que escrevam cada um a história dos seus sapatos de toda a vida.

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