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Afinal, que eleições (europeias) serão estas?

No próximo dia 25 de maio os portugueses serão chamados a votar novamente, desta feita para o Parlamento Europeu. Se o acto de votar em si, desde a deslocação à assembleia de voto ao colocar da cruz e respetivo depósito do boletim na urna não encerra nada de novo, o que está realmente em causa nestas eleições?

Se por um lado falamos de um acto eleitoral que por tradição é recorrentemente o menos concorrido e perante o qual os portugueses demonstram mais indiferença, por outro lado temos um cenário desolador no que toca aos partidos e aos candidatos, em que não ficam livres de culpas também os meios de comunicação social. Qual o partido e/ou candidatos que se esforçam por tornar mais esclarecido o eleitor e em demonstrar as opções claras que defendem em relação à Europa e à integração europeia?

A resposta não será difícil. Que cada um tire as suas próprias conclusões. Existem aqueles que aproveitam estes dias para apresentar um pseudo-programa de governo, agora que o trabalho “sujo” e necessário já foi feito por outros, aqueles que se limitam a dizer que são contra tudo o que foi feito pelo(s) governo(s) até aqui, um governo e os seus candidatos que deveriam ser claros e que poderiam utilizar este trunfo da saída da troika (não me pronuncio sobre a “limpeza” da saída…) e resvalou para uma campanha deslavada e sem qualquer conteúdo prático sobre as opções que estas eleições deveriam representar para um país na situação em que o mesmo se encontra… Onde estão as respostas a questões básicas da integração europeia, e quais os entendimentos que cada um defende sobre as mesmas? Isso seria, na minha opinião, aquilo que se deveria discutir nesta campanha e quais os efeitos em termos reais para os portugueses e para Portugal. O que deve Portugal fazer perante a moeda única? Abandonar o Euro é uma possibilidade? Poderá um Estado-Membro bloquear alterações aos tratados Europeus, ainda que todos os outros Estados possam ser favoráveis a estas mesmas alterações? Deverão os tratados propostos pela União Europeia ser ratificados exclusivamente pela Assembleia da República ou deverão, pelo contrário, ser debatidos e dada expressão aos portugueses, através por exemplo de referendos? Qual a postura perante a livre circulação de pessoas e bens na Europa? Deveriam os países poder restringir esta circulação? A política externa de Portugal deveria ser submissa a uma política externa definida a nível europeu, ainda que isso possa colidir com os nossos interesses? E em relação às questões financeiras, deveria a Europa assumir o caminho para uma política fiscal comum, ou estas questões deverão ser da exclusiva responsabilidade de cada Estado? Devemos defender títulos de dívida que representem todos os países da Zona Euro (as chamadas EuroBonds) em que os estados membros da Zona Euro garantem colectivamente a dívida em vez de ser um único governo? Estes são meros exemplos de questões que deveriam ser respondidas por todos os intervenientes nestas eleições.

Os meios de comunicação social também têm aqui um papel importante. Apesar das limitações (convenientes, diga-se) que nomeadamente as televisões alegam para não colaborar de forma séria e desinteressada, com a verdadeira missão de informar, nos poucos momentos que nos noticiários vamos vendo de intervenções dos actores políticos, estes são seleccionados para contribuir para a polémica e para uma qualquer perspectiva jornalística que se pretende transmitir, ao invés de se centrar no que de mais relevante foi afirmado, defendido ou proposto.

Estas e muitas outras questões deveriam merecer a atenção dos actores políticos que nos tentam “cativar” o voto. Mas não existe o menor interesse nem esforço para que possamos sair destas eleições mais esclarecidos do que estamos actualmente. E é pena. Porque a democracia é tão mais rica quanto mais participada. Mas também deve ser mais consciente e esclarecida.

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