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Liquidificação política de querubins polimorfos

Zygmunt Bauman é um guru do pensamento crítico contemporâneo. Este sociólogo britânico, nascido na Polónia, publicou trabalhos teóricos caracterizados pela utilização do adjectivo “líquido” relacionado com a desagregação social. É autor de obras marcantes: “Modernidade líquida”, “Vida Líquida”, “Amor Líquido”, “Medo Líquido” e de outros livros com “mundo líquido” e “sociedade líquida” no subtítulo.

Olhando em torno, é fácil constatar que também o poder de alguns edis está a escoar-lhes pelos dedos. Não é o que pensam ser. Tanto este semanário como o “Jornal Torrejano” noticiam que a política local está a mudar. Como comenta o nosso amigo Jaime do Rosário, a autarquia parece ter arejado.

A crise não é da responsabilidade exclusiva do governo central. As câmaras contribuíram para o descalabro. Há maus hábitos que deixam impressão negativa. E nem sequer estamos a falar de democracia para inglês ver. Ora vejamos.

Em 21 de Janeiro, lia-se no “Má Despesa Pública”: “Todos sabemos que em Portugal julgamos por vezes viver numa monarquia quando olhamos para certas práticas gestionárias do Estado Português. As autarquias são um bom espelho disso e de um outro aspecto conexo que grassa na vida pública: a meritocracia não é a bitola da escolha. O programa ‘Sexta às 9’ da RTP foi espreitar o espírito familiar de algumas autarquias portuguesas que ainda reina nos dias de hoje. Castro Daire, Vizela, Póvoa de Lanhoso, Tomar e Golegã—em todas elas existem recentes nomeações de familiares do presidente da câmara. O presidente da câmara de Vizela nomeou o filho para chefe de gabinete, a presidente de Tomar chamou o marido, o presidente da Golegã escolheu o irmão e na Póvoa de Lanhoso coube a sorte à irmã do presidente que foi chamada para assessora do vereador da cultura. Mas é em Castro Daire que reside a melhor amostra: o reeleito presidente nomeou a filha para adjunta do seu gabinete de apoio no passado dia 3 deste mês, lugar ocupado no anterior mandato pelo genro. Sucede que a filha separou-se e o presidente lá decidiu proceder à devida substituição. E como a família impera, o sobrinho do presidente do município de Castro Daire também já lá esteve como adjunto”.

E chamam a isto uma democracia? Estamos até a pensar num concelho nosso conhecido onde o presidente da câmara vai para presidente da assembleia municipal, o presidente da assembleia vai para vice-presidente da câmara, etc. etc. E tudo isto com pouco mais de um terço dos votos. Será que as vontades expressas pela maioria dos eleitores não contam?

Estávamos nestas cogitações, quando fomos recuperar uma opinião de Vasco Pulido Valente: “Mas sucede que a ebulição em que andam as máquinas dos partidos se deve manifestamente à redução drástica da sopa do convento. Acabou a época em que se fundavam “empresas municipais” para conchegar os bolsos da ladroagem local; da “reclassificação” de terrenos; dos vereadores sem espécie de função; dos cursos universitários sem universidade e sem alunos; da ornamentação urbana e das rotundas; das grandes festas para a populaça; do ócio quase permanente e de várias alegrias, que faziam o misterioso encanto da autarquia” (“Público” 15.06.2013,p.48).

As despesas é que não foram “líquidas”. Não desapareceram entre os dedos. Os tempos das “vacas gordas”, cuja gordura era ilusória, também se foram. Ficou o calote real e bastantes dúvidas sobre o mesmo.

Compreende-se a obstrução ao trabalho dos representantes de uns dois-terços dos eleitores. Poucos acreditam nalgumas inverdades de que se serviram anjos e querubins para construírem a imagem da “superioridade moral”. Os tais do tudo e do seu contrário. Confirma-se de novo a tendência para se terraplanar todas as discussões. Gente que não suporta opiniões diferentes. Não convém que se façam muitas perguntas.

O facto de uma personagem deste drama estar convencida que foi um bom presidente, não lhe confere o direito de ser descortês. No estilo do quem mais grita, ganha. Há quem se conforme com estas manobras, mas há igualmente quem recuse a ter a caridade de perdoar tanta deselegância.

Os portugueses, em geral, e os torrejanos, em particular, vivem uma situação demasiado difícil para que ainda tenham de assistir a estes jogos ridículos. Para mais o Entrudo já passou. Seria oportuno repetir a estes farsantes, o que este jornal citou: “deixem-se de folclore”!

Para narcísicos e arrogantes, a humilhação é o pior dos males. Haverá sempre correligionários para baterem palminhas, porém a mostarda está a chegar ao nariz dos cidadãos. E não é só contra o PSD e o CDS. Continuem assim, que vão longe! Como diria Bauman, derreteram uma parte do poder.

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