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Três anos de Troikas

Depois da troika de cá ter desvalorizado, em todos os aspectos, o factor trabalho, indo sempre para além da troika de fora – aumento do horário, redução de férias e corte de feriados, redução dos vencimentos, redução das indemnizações por despedimento com ou sem justa causa, aumento da idade da reforma, corte nas reformas, para além dos aumentos do IRS e suas sobretaxas e da chamada CES -contribuição extraordinária de solidariedade, agora que a troika de fora está de saída, parece que as reformas foram todas feitas, e até os senhores do poder têm o arrojo e a desfaçatez de dizer que o País está melhor.

Regredimos só 30 anos nestes últimos três anos. Não tem qualquer importância para “eles” que, devido a tanto corte nos pequenos, os grandes estão cada vez maiores como se previa. Mas ninguém comeu nem queimou o dinheiro. Só mudou de mãos. Os que precisam, ajudaram obrigatoriamente, os que já podiam muito e agora podem muito mais. São voltas que a história dá, mas podemos crer que nem sempre as voltas vão no mesmo sentido. Haja esperança.

Para além de tudo o que acima se disse, em sinal contrário, baixaram o IRC para as empresas especiais de corrida, ao passo que a maioria do tecido empresarial continua a lutar contra moinhos de vento.

Só o factor trabalho é que encarecia os produtos do porta-aviões da exportação, segundo a óptica de suas excelências. Por isso destruíram a dignidade de quem precisa de trabalhar para viver acima do limiar da pobreza.

Pensemos um pouco nos outros factores de produção que, naturalmente, porque lhes convém, os sabichões nem falam disto.

Por exemplo, o crédito bancário, para além de ser raro é caríssimo, mas isso não importa porque os bancos são o que são e o mais gastou-se. Mas há excepções sempre. Para alguns negócios de ocasião, o dinheiro arranja-se sempre, custe o que custar e temos exemplos bem conhecidos de pessoas ligadas a figuras de proa. E eles sabem que nós sabemos. Mas não se importam porque não têm vergonha nem sabem o que isso é.

Também os combustíveis, sendo dos mais caros da Europa, estão bem assim porque as petrolíferas são empresas especiais que não desprezam os lucros substanciais a que estão habituadas

As outras energias, a electricidade e o gás, cada vez mais ligadas, essas também têm que ter os seus lucros garantidos em todos os sectores que exploram e até lhes permitiram contabilizar não sei o quê, que dá pelo nome de “défice tarifário”, que os consumidores estão ameaçados que um dia terão que pagar essa coisa de muitos milhares de milhões. Aqui também está tudo bem para os mesmos.

Portanto, com as politicas em vigor, nada disto afecta o preço do produto acabado segundo as inteligências que um dia resolveram massacrar o povo trabalhador e muito especialmente a antiga classe média que já não existe. Mas também não se esqueceram dos reformados, classe que eles queriam ver, depressa, pelas costas. E não é que vão conseguindo os seus objectivos com todas as complicações no acesso ao Serviço Nacional de Saúde?

No que respeita à produtividade, onde todos os factores de produção devem contar para o resultado final, também há artimanhas bem conhecidas visto que à produção, muitas vezes, são imputados custos que não têm nada a ver com essa mesma produção – belos carros para toda a família e até amigos(as), grandes passeios, grandes casas – mas que acabam por fazer baixar o índice da produtividade. E fazem de conta que não sabemos. É um fartar vilanagem e sempre os mesmos a pagar as facturas.

Da Justiça nem é bom falar. Um fulano leva uma lata de feijão, sem pagar, no supermercado e é julgado. Um banqueiro é multado em milhões e o processo rescreve. Que dizer?

Não vale a pena, por enquanto, continuar aqui a carpir mágoas e a falar naquilo que toda a gente sabe. Por isso vou terminar com uma transcrição de parte de um artigo de Concha Caballero que vai por aí circulando:

“Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objectivos foram claros e contundentes:

Fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários. E depois das eleições europeias já temos uma promessa de novos cortes. É só esperar por Junho. Resta-nos a esperança de que algo entretanto possa mudar já que a rua começa a falar muito alto. Vamos a ver.

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