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Encontro dos “Meninos da Escola”

Vieram da Bélgica, de França, da Alemanha, do Canadá, de Lisboa, de Carcavelos e do Tramagal. Também da Cerrada Grande, das Casas Altas e talvez da Baixa da Banheira. Mais de trinta ex-alunos dos Professores Oliveira e Silva Paiva não se arrependeram de ter respondido à chamada para trocarem abraços e dar dois dedos de conversa.

Como manda a tradição, o “rendez-vous” foi na Praça 5 de Outubro. Sem excepção, começaram por lamentar o óbito da querida Palmeira que, para usar uma metáfora dos lapões finlandeses, nesta primavera, já não ouvirá cantar o cuco.

Não a esqueceremos. Desde a época do bacalhau a pataco, testemunhou aventuras e jogos destes “meninos”. Viu-os vestidos de bibe, de calções na friagem do inverno e de sandálias nas correrias do estio.

Quando crianças, faziam mil traquinices e brincavam com os amigos. Até que em dada altura, sem quase darem por isso, vestiram calças compridas. Hoje, tentam recuperar referências na história local ou nacional, superando desta forma as constrições do tempo que passa. Na sabedoria dos “malteses”, a existência é uma valsa com quatro andamentos: infância, adolescência-juventude, idade adulta e velhice. E cada etapa tem o seu ritmo próprio, a sua cadência, as suas proibições.

Com o emurchecimento das verduras da mocidade, aprende-se que nada é permanente e que as mudanças são inevitáveis. Às vezes, perturbam. A ciência demonstrou que o homem é o único animal que pressupõe que vai morrer e também é o único que ri, porventura para não se tomar demasiado a sério.

Por essa razão, para a “malta”, a identidade é uma noção apavorada pela própria etimologia que se apoia na raiz latina “idem” que significa o “mesmo”. Tanto se lhes dá, porque afiançam tratar-se de uma palavra que sugere continuidade e constância. Como tarecos a ronronarem junto à lareira, só um olho está meio fechado. Nada lhes escapa, pois jamais ficam ferrados no sono. Estão prontos para dar um salto a qualquer momento. De preferência, para uma bacalhauzada em boa companhia.

Assim foi, no dia 22 de fevereiro. De facto, a comida do restaurante Solar da Ilda esteve à altura e satisfez os mais exigentes. Qualidade, quantidade e boa apresentação. O convívio decorreu como se esperava. Não podia ter sido melhor. Estão de parabéns os responsáveis pela organização (Luís Ribeiro, José Augusto Mourão, João Farinha Cordeiro, José Augusto Pedro).

Os felizes contemplados com a cobiçada “Ratoeira d’Ouro” foram o José Carlos Vieira, que nunca faltou a estas reuniões, e o José Júlio Pereira Leão, o único felino que torce pelas águias benfiquistas. O nosso convidado Francisco Marques Gomes (Chico da Casa Nery) foi nomeado guardião da “puck/rondelle” para a partida de hóquei sobre o gelo entre as selecções das Berlengas e do Congo, nas próximas olimpíadas de inverno em Pyeongchang.

Há sempre um antes, um durante e um pós-almoço. Este ano, não houve cantorias por todos os colegas partilharem a dor dos companheiros Jorge Pinheiro, que perdeu a esposa, e Luciano Neves Correia, que perdeu o irmão. Também recordámos o Tó Gameiro, falecido em Janeiro.

Não sabíamos como terminar o presente apontamento, até que nos recordámos da cavaqueira com o Jaime Pedrosa da Fonseca que nos deu boleia para Cascais. Antigo quadro de uma multinacional germânica e com as filhas educadas na “Deutsche Schule”, revelou-nos que gostava de autores alemães. E, para nossa surpresa, ambos partilhamos uma grande admiração por Hermann Hesse (Prémio Nobel 1946).

Da estante ao lado do computador, retirámos uma das suas obras: “Siddhartha”. Há muito que nos acompanha. A novela resume a jornada de autodescoberta de Gotama, mais conhecido por Buda. Quando achou o que buscava, concluiu que todos os seres humanos envelhecem, todos sofrem pesadelos e doenças, e que tudo deve chegar ao mesmo fim. Uma norma implacável.

São aos milhares os livros e os filmes que repetem semelhante história. Os “meninos da escola” conhecem de cor o enredo e a música. E para suspenderem temporariamente esse processo, resolvem juntar-se em louváveis confraternizações.

Rebelam-se contra, mas estão conscientes de que o motor do tempo não faz marcha atrás. Aprenderam a lição da vida e, como cantam os poetas, quem quiser ter flores, deve começar por plantar o jardim e decorar a alma.

É o que fazem há muitos, mesmo muitos anos.

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