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Esta economia mata

As palavras que servem de título a este artigo, foram retirados do jornal Público de 26.11.14, onde o mesmo jornal analisa a recente “Exortação evangélica” Evangelii Gaudium que ataca a “nova tirania” do capitalismo sem limites e apela a uma “saudável descentralização” da Igreja”.

Ainda segundo o mesmo jornal e passo a transcrever, “O Papa Francisco atacou o capitalismo sem limites como “uma nova tirania” e advertiu que a desigualdade e a exclusão social “geram violência” no mundo e podem provocar “uma explosão”, na sua primeira exortação apostólica, divulgada nesta terça-feira pelo Vaticano.”

Palavras destas, sábias por virem de quem vêm, por virem de quem conhece a vida no dia-a-dia, serão certamente recebidas, diria até aplaudidas, de braços e corações abertos, por toda a Igreja que não ignora a nova escravatura, que uns poderosos, que ninguém conhece, mas que têm por aí os seus “testas de ferro”, esses bem conhecidos, bem-falantes, palradores e bem espalhados por tudo quanto é sítio, para continuarem a fazer vingar as suas políticas de concentração da riqueza, extorquindo tudo e a todos, à custa da miséria e dos despojos dum povo amargurado, explorado e ignorado que só lhes serve, para ir, de quatro em quatro anos, pôr o papelinho nas urnas de voto.

Também o Expresso de 30.11, na sua página 26-E, titula uma notícia sobre as palavras do Papa Francisco: “Papa contra o domínio do dinheiro” e logo em subtítulo, “Num documento com 84 páginas, de sua autoria e divulgado esta semana, o Papa Francisco critica o sistema capitalista e a primazia do dinheiro sobre o ser humano. Um sistema que acusa de tirania invisível.”

Esta tomada de posição do Papa Francisco pode, e deve, ser uma lufada de ar fresco para agitar as consciências dos bandos desordenados que tudo têm vindo a fazer para levar a sua avante. Eles pouco se importarão com estes sermões. Mas ao mesmo tempo, o povo explorado pode e deve abrir os olhos já que os atropelos são tantos e as provocações ainda maiores. Veja-se o último caso dos Estaleiros de Viana do castelo. Uma história muito mal contada, cheia de inverdades, mas o certo é que os 609 trabalhadores têm a sina lida de irem para a rua.

Eles têm utilizado todas as estratégias, possíveis e imaginárias, para atingirem os seus objectivos. Mentiram nas campanhas com todos os dentes que tinham na boca. Passaram a fazer exactamente tudo ao contrário do que tinham prometido. Chamaram-nos piegas. Mandaram emigrar a juventude, Disseram que iam sempre para além da troika e aí não mentiram. Aumentaram os horários de trabalho, retiraram feriados, dias da história da Igreja e da história de Portugal, e simultaneamente reduziram vencimentos, cortaram nas reformas de quem trabalhou e descontou uma vida inteira porque, segundo eles, os custos do trabalho têm que ser reduzidos para que a produção se torne competitiva, possivelmente tipo China ou coisa que o valha. E ainda dizem que isto não vai ficar assim, prometendo mais cortes, mais pobreza e tudo o mais que lhes venha a passar pela cabeça. Mas, claro, esquecem-se, porque lhes convém, de falar nos restantes custos de produção como sejam as energias, as mais caras de toda a Europa, os combustíveis, aspas, aspas, as telecomunicações, idem, idem, os serviços bancários, caríssimos, tudo isto para além da “burocracite” que, depois de uma arremedo de reforma no Governo anterior, voltou ainda com mais força para complicar a vida a quem quer trabalhar e a quem quer fazer pela vida. Mas destes pormenores, que por acaso são “pormaiores”, eles não falam nem se interessam porque os donos dessas coisas são seus amigos e os amigos não se atacam, certamente na esperança de alguma recompensa.

Como disse Howard Zinn, historiador e cientista político americano, “A desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o mundo.”

Por agora, centremo-nos nas palavras do Papa Francisco, já que parece ser proibido que nos centremos nas palavras idênticas que foram proferidas na Aula Magna e aguardemos os próximos tempos, sempre de olho aberto e ouvidos á escuta, porque esta economia mata.

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