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O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ª metade do século XIX -4

O concelho de Torres Novas

Não há história sem tempo. E também não há história sem espaço. Tentar compreender os acontecimentos do passado, sem uma ideia de como era o concelho de Torres Novas, muito maior do que o de hoje, mas sem nenhuma das conquistas que a tecnologia, lhe foi introduzindo, é impossível. O leitor pense um tempo onde tudo ainda marcha pelos sinos das igrejas da freguesia, onde a agricultura é a base da subsistência da maioria e a riqueza duma minoria: As vias de comunicação são estreitas, arenosas no verão, lamacentas e regra geral intransitáveis no inverno. Os transportes são as mulas, os burros, as carroças puxadas por muares e gado bovino; as charretes, o cavalo, o luxo duma burguesia terratenente. Não há correio, nem telégrafo, nem telefone, nem iluminação, além das velas e dos candeeiros de azeite, das estrelas no céu, da Lua, do brilho reflectido dos planetas. Escolas, raríssimas, pouco atractivas, os professores mal sabiam o que ensinavam, o mundo rural não exigia conhecimentos além dos da experiência feitos. A saúde era o imprevisível, onde as doenças epidemiológicas são correntes, ameaçadas por pandemias como a cólera morbus e a febre amarela, além das genéricas diftéricas, pulmonares, consequências da má higiene, má alimentação, duvidosa qualidade dos produtos vendidos, sobretudo o peixe e a carne. A emigração para o Brasil é crescente, em busca de melhores condições de vida. A existência dos expostos revela uma vida sexual adulterina, fora dos preceitos e preconceitos religiosos e dos sociais, onde sexo fora do casamento é um pecado, mas na verdade uma realidade escondida pela roda que acolhia os recém-nascidos aí colocados e pesava dolorosamente nas receitas camarárias.

Um mundo rural, com um centro semi-urbano, onde os mesteres, o comércio, as pequenas fábricas são maioritários, mas onde começa, na segunda metade do século, a surgir um novo mundo, associado à Fábrica de Fiação e Tecidos da Companhia, às indústrias metalúrgicas nascentes, que introduzem outras regras de trabalho, novos horários regulados pelos relógios e sirenes da indústria, e um novo sector crescente do funcionalismo público e duma nova classe social – o proletariado.

Acrescente-se-lhe um novo grupo social, que se vai instalando e desenvolvendo com o liberalismo e a monarquia constitucional, a classe burguesa, que substitui o poder do século XVIII, quer na Câmara e na Administração Pública, quer nos julgados, nos juízes ordinários, na função pública, no professorado, no comércio, na profissões liberais, nos arrematantes das fintas concelhias. Uma nova classe, com interesses sócio culturais diversos, que se vão expressar, através de diversos vectores: o político-administrativo, centrado na Câmara Municipal, na Administração do Concelho, nas Juntas de Paróquia e nos regedores e cabos de polícia, com ligações com os influentes locais dos partidos políticos, regenerador, progressita, legitimista, católico,socialista, republucano. O económico, centrado na produção vinhateira, nas arrematações dos impostos indirectos ,dos terrados, dos talhos concelhios, do comércio a grosso dos cereais, do gado e do vinho, mas também na construção de estradas, de edifícios, na artiticulação dos artífices com a indústria tradicional. O judicial, a fazenda pública e o militar, com um peso crescente durante toda a segunda metade do século . O assistencial, através da Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas, e da sua direcção e posse do Hospital, cujo novo edifício é inaugurado (31/12/1882); e do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré (30-5-1862) , onde os liberais progressistas se associam aos mesteres para defesa dos direitos de saúde da pequena burguesia e, mais tarde, do proletariado industrial; a construção do cemitério, primeiro no Castelo, depois no Arraial;. O religioso, pela sua relação com a acção do vigário da vara e dos párocos do concelho, com funções importantíssimas no registo paroquial e no recenseamento militar, com uma ligação muito directa na paróquia com o quotidiano dum povo maioritariamente rural e tradicionalmente católico. O social-burguês, representado pela criação do Clube Torrejano (8-2-1862). O sócio-cultural, iniciado com o liberalismo, através da Sociedade União Dramática e do seu Teatro União  (1848 -1866), e na sua continuidade  O Teatro Torrejano(24/4/1877), do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, das filarmónicas, de que já registos nas actas camarárias na década de 50, nas procissões do Corpus Christi. O informativo, que, influenciado pela surto da imprensa liberal da capital, que se propaga com maior rapidez através da criação das linhas férreas, vai influenciar o aparecimento da imprensa regional concelhia com o aparecimento , em Fevereiro de 1853, do primeiro jornal, manuscrito, O Janota Almondino, da facção mais liberal da burguesia concelhia, associada ao Partido Histórico, continuado pelo Ecco Torrejano, em 1868.Experiências  sem êxito já que, só na década de oitenta  a imprensa ganha jus a influenciadora da vida pública, com a publicação semanal do Jornal Torrejano, que vai manter uma existência contínua, tumultuosa, servindo em fases diferentes ideias diferentes, desde  9 de Outubro de 1884 até 16 de Maio de 1915.Outros jornais, de que falaremos na devida altura, surgirão  até à implantação da República, a 5 de Outubro de 1910; o proletário, que passa pelo convívio nas tabernas, nas tendas, depois nas organizações sindicais nascentes, na Banda Operária Torrejana, nos clubes e associações, nas Tunas Musicais,  ; o subterrâneo, transversal a todos os restantes, que se encontra na acção da Maçonaria , com três lojas conhecidas, uma na década e cinquenta, a Torre Queimada, da Maçonaria Eclética, instalada em 1859, extinta em 1860 ou 61, tendo como maçons conhecidos Manuel Joaquim Leitão de Carvalho Pena e o médico do partido municipal, Miguel António Dias; a Loja Regeneração /1872-76) :e a Loja Regeneração 20 de Abril, do Rito Francês, filial da loja José Estêvão nº199, que durou até 1908..Loja que se restaurou no rito Escocês Antigo e Aceite na Primeira República, em 1912, mantendo-se até até à sua dissolução pelo Estado Novo.

É neste mundo, com sede na praça dos Paços do Concelho, numa vila que sofre nesses cinquenta anos profundas mudanças, perdas e alterações do seu casco tradicional, com abertura de novas ruas, novas ruelas, macadamizarão de todas, ligações telegráficas, correio, ligações de transportes com o caminho de ferro nascente, duas estações na linha norte –sul, de Torres Novas , da transformação das Vaginhas em Entroncamento, e na linha sueste, Paialvo. Novas estradas, quer vicinais, municipais, distritais, ligam a periferia ao centro urbano. O desenvolvimento do comércio e da exportação para Lisboa , Brasil, Colónias, Europa, abrem portas para um desenvolvimento comercial importante no fim do século.

Um dos vectores tido como essencial para essa mudança era o papel civilizacional da escola, que derramava, como o afirmavam os liberais, a luz do conhecimento sobre a ignorância de séculos. É neste espaço de mudança e de domínio da burguesia liberal que a nossa crónica da história do ensino em Torres Novas continua a sua digressão.

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